cavalhadas

Origens No suplemento ao seu Vocabulario Portuguez e Latino, publicado em 1727, fr. Rafael Bluteau define cavalhada como «festa de cavalos» ou «jogos de cavalos». Posteriormente, em 1798, fr. Joaquim de Santa Rosa Viterbo, no Elucidario das palavras, termos e frases, atribui um sentido ainda mais preciso à expressão, que associa a cortejos e romarias a cavalo promovidas por algumas Câmaras do reino. Pelos exemplos apontados torna-se evidente que o termo já estava vulgarizado entre os eruditos no século XVIII e, por outro lado, parecia designar dois modelos relativamente autónomos de manifestações equestres : a “cavalhada-jogo” e a “cavalhada-cortejo”. A montante deste período, é delicado precisar com clareza a origem do fenómeno, embora do ponto de vista das tradições históricas e etnográficas nacionais ele deva ser situado na época medieval, nas razias e incursões militares da reconquista cristã (caballadas), as quais depois degeneraram em actividades lúdicas propedêuticas de guerra e, mais tardiamente, em diversas ritualizações cénicas de conteúdo profano ou religioso onde o elemento equestre está sempre omnipresente.

Difusão e modelos Falar da difusão das cavalhadas é não só ter em consideração a sua dispersão geogáfica como também o seu correspondente processo de vulgarização social e cultural. Em termos geográficos, o modelo reinol e medieval do jogo/cortejo equestre difunde-se a partir do século XVI por todo o espaço imperial português, acompanhando a dinâmica da expansão marítima e a matriz municipalista da nova sociedade ultramarina. Ao sabor das contingências históricas, as cavalhadas encontraram condições de acolhimento, fixação e sobrevivência muito particulares nas ilhas atlânticas e no território brasileiro, designadamente nas comunidades rurais ligadas à criação de gado onde o cavalo ainda é um elemento corrente do quotidiano social (Viana, 1973). Não surpreende, portanto, que se situem nos Açores, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, as mais ricas e perenes manifestações actualmente existentes no vasto e descontínuo espaço de matriz cultural portuguesa. Do ponto de vista da sua vulgarização e transformação, as cavalhadas partem do modelo aristocrático de jogos de perícia equestre (que, aliás, se mantém até muito tarde) para depois serem adoptadas e adaptadas por outros protagonistas sociais, sofrendo assim um processo de folclorização simultaneamente profano e religioso que as autonomiza bastante do seu modelo inicial. É sobretudo neste último caso que se enquadram as cavalhadas-cortejo que, por regra, poderemos caracterizar como manifestações singulares da religiosidade popular associadas aos festejos do orago local. Mesmo quando a tipologia da cavalhada se afasta deste modelo processional, abraçando formas mais lúdicas e agonísticas, ela aparece-nos quase sempre ligada, nas suas múltiplas expressões populares, ao processo crescentemente afirmativo da “municipalização da festa”.

Cavalhadas nos Açores No sentido amplo do termo cavalhada e abarcando a sua grande diversidade de manifestações tipológicas, poderemos considerar que existiram um pouco por todo o arquipélago (Riley, 1994), com particular incidência nas ilhas maiores, encontrando-se já documentada uma versão aristocrática e tardo-medieval em campo aberto na ilha de S. Miguel, descrita por Gaspar Frutuoso (1981), quando dois grupos de cavaleiros (os de Ponta Delgada e Lagoa, por um lado, e os de Vila Franca do Campo, Água de Pau e Ribeira Grande, por outro) se encontram na Lagoa para correrem canas. Com o decurso do tempo, estas expressões aristocráticas da cavalhada-jogo passaram a manifestar-se no meio urbano, associadas a festejos religiosos, régios e dinásticos, em regra promovidos e enquadrados pelas Câmaras. Foi em Angra que este modelo de cavalhada conheceu maior sucesso entre os séculos XVII e XX, o que se deve em grande parte ao facto de aqui ter estado sediado o poder eclesiástico, político e militar dos Açores, do que resultava não só grande número de cerimónias públicas, como também uma élite local familiarizada com este tipo de rituais festivos caracteristicamente urbanos. A cavalhada aristocrática e flamboyant continuou a manifestar-se em Angra até finais do século XIX, tradicionalmente ligada às festas de S. João (Lima, s.d.), conseguindo assim iludir durante algum tempo o novo modelo de festejo cívico proposto pela ideologia republicana.

Numa outra latitude sócio-cultural, de cariz marcantemente mais ruralizante, a cavalhada aparece muitas vezes associada aos festejos do Espírito Santo nos Açores, como é o caso da ilha de S. Jorge no interessante estudo do pe. Manuel Azevedo da Cunha. A recolha efectuada neste pequeno universo apresenta variantes de freguesia para freguesia, ao nível das alvoradas e quadras ditas pelos cavaleiros, mas todas se integram nitidamente no modelo da cavalhada-cortejo, muito embora nalgumas ocasiões também se possam traduzir em jogos e folguedos organizados durante o arraial (Cunha, 1920). Mesmo ao nível das festas rurais, habitualmente mais resistentes à mudança, as transformações iam-se operando e à entrada do século XX era já notória a inexorável decadência destes jogos e cortejos equestres em S. Jorge. Ainda no universo da cultura folclórica e religiosa, poderemos também considerar como cavalhada as mouriscadas que o cón. José Pereira diz terem sido tradicionais em Santo António das Capelas, ilha de S. Miguel, celebradas no dia do orago local da freguesia. Nessa espécie de teatro popular equestre, dois bandos de cavaleiros reuniam-se no lado sul da igreja após a celebração litúrgica e disputavam um combate entre cristãos e infiéis, antecedido do desafio trocado em forma de quadras pelos chefes dos respectivos bandos. Finda a refrega, na qual as forças de Mafoma saíam derrotadas, procedia-se ao baptismo do rei mouro, que depois seguia montado a par do rei cristão no final do cortejo de Santo António (Pereira, 1963) Esta curiosa tradição, já desaparecida nos inícios do século XX, combina entremeses com elementos lúdicos e processionais que sintetizam, de forma singular, as componentes características das cavalhadas enquanto expressão da religiosidade popular. Do conjunto de exemplos recenseados, duas conclusões se poderão desde logo retirar: a grande diversidade tipológica e social das cavalhadas nos Açores e, por outro lado, a sua assinalável decadência a partir dos finais do século XIX., apenas desmentida pela perenidade e, até, revigoramento (no último quartel do século XX) das cavalhadas de S. Pedro da Ribeira Seca, ainda hoje celebradas na cidade da Ribeira Grande, ilha de S. Miguel.

Cavalhadas de S. Pedro (Ribeira Seca) A 29 de Junho, dia de S. Pedro, orago da paróquia e símbolo da identidade colectiva da freguesia, o povo da Ribeira Seca apinha-se na rua para ver passar as cavalhadas, pitoresca tradição que esteve em risco de se perder nos meados do século XX, mas que logrou preservar-se graças ao empenhamento e ilustração de alguns cidadãos locais, dos quais será justo destacar o nome de D. Maria Gabriela Ataíde Mota, esforço esse também secundado por diferentes vereações da Câmara da Ribeira Grande desde os finais de 1950 até aos dias de hoje. Daqui resultou serem actualmente as cavalhadas de S. Pedro uma das mais emblemáticas expressões da identidade própria dos ribeiragrandenses. Neste sentido, estamos perante uma manifestação cabal do chamado processo de municipalização da festa, o qual configura assim, a par dos aspectos estritamente etnográficos, outra das abordagens possíveis e interessantes ao estudo deste costume local.

Não obstante os folcloristas e estudiosos sejam unânimes em considerar como bastante antiga a tradição das cavalhadas de S. Pedro, o que é certo é que a mais remota descrição literária desta festa data da década de 1880, aparecendo publicada num Almanaque luso-brasileiro sob o título de Costumes Michaelenses. Alvorada de S. Pedro (Abranches, 1882). A consagração, por assim dizer, etnográfica desta nota de almanaque é dada pouco tempo depois quando Teófilo Braga a transcreve na sua obra O Povo português nos seus Costumes, Crenças e Tradições (Braga, 1885). Daí para a frente o interesse de publicistas e estudiosos por esta festividade está lançado, de que é exemplo a descrição feita por Manuel Emygdio da Silva na sua curiosa série de crónicas para o Diário de Notícias sobre a ilha de S. Miguel (Silva, 1893). De assinalar igualmente que, aquando da visita régia de D. Carlos e D. Amélia aos Açores, em 1901, a passagem dos monarcas na Ribeira Grande ficou marcada pela saída do bando das cavalhadas que, ao arrepio do calendário festivo, fez assim gala em saudar tão augustas personagens. Já em tempos republicanos, Teófilo Braga torna a publicar mais algumas achegas no seu Cancioneiro Popular Português (Braga, 1913), seguindo-se-lhe Luís Bernardo Leite Ataíde que na sua Etnografia Artística não só faz relato detalhado das cavalhadas com direito a reprodução de registo fotográfico, como acrescenta pela primeira vez algumas considerações críticas acerca das eventuais origens dessa tradição festiva (Ataíde, 1918). Nesta mesma linha se inscrevem os contributos do pe. Ernesto Ferreira na sua Alma do Povo Michaelense (Ferreira, 1927) e, muito particularmente, no estudo monográfico que publicou nas páginas da revista Ocidente (Ferreira, 1943). Já na segunda metade do século XX, acompanhando o próprio movimento de revitalização municipal da festividade, Francisco Carreiro da Costa empreendeu uma longa série de pequenos trabalhos sobre as cavalhadas, publicados na imprensa local ou difundidos em palestras pelo Emissor Regional dos Açores, os quais constituem o corpo mais consistente de estudos críticos até hoje produzido sobre o assunto (Costa, 1945-1964).

Curiosamente, deste extenso rol bibliográfico não resulta nenhuma certeza documentada sobre a origem e significado das cavalhadas da freguesia da Ribeira Seca. As especulações abundam na razão proporcional da ausência de documentos escritos, o que acaba por ser natural atendendo ao facto de terem sido sobretudo folcloristas e curiosos locais aqueles que, sustentados na volatilidade da tradição oral, se têm até agora debruçado sobre o assunto. Porventura uma mais aturada pesquisa na abundante imprensa periódica micaelense do século XIX, bem assim como no Arquivo Municipal da Ribeira Grande e, eventualmente, no próprio arquivo paroquial da Igreja de S. Pedro da Ribeira Seca, poderá trazer novos elementos a este estudo. Do ponto de vista formal e tipológico é inquestionável estarmos perante um modelo de cavalhada-cortejo que, por decorrer num enquadramento urbano, se distingue da sua outra variante de cavalhada-romaria (em tempos bastante comum no território continental, designadamente na região da Beira). Entre os relatos de finais do século XIX e os dias de hoje, as cavalhadas registam significativas diferenças quanto à indumentária, adereços e percurso do cortejo, sendo de sublinhar contudo que alguns aspectos estruturantes permanecem inalteráveis: i- os cavaleiros vão de capas brancas e chapéus altos ornados com fios de ouro; ii- o maioral ou guia é o único que leva máscara e barbas postiças; iii- S. Pedro e a igreja da Ribeira Seca, que o maioral saúda e em torno da qual o bando dá um número ritual de voltas, permanecem o eixo desta celebração festiva de cunho marcantemente profano. Procurando evitar o risco de, descrevendo-as em pormenor, subscrever uma das muitas versões existentes sobre as cavalhadas de S. Pedro, remetem-se os interessados para os diferentes relatos contidos na bibliografia anexa e recomenda-se que, se possível, assistam directamente à festa tal como ela hoje se processa. Uma coisa é certa, qualquer tradição, por mais bem preservada que se mantenha, nunca escapa ao movimento da roda do tempo e, nesse particular, o processo de apropriação municipal que as cavalhadas de S. Pedro conheceram neste último meio século será, no mínimo, um objecto de estudo tão interessante quanto a indagação das suas origens. Carlos Guilherme Riley (2002)

Bibl. Abranches, J. C. (1882), Costumes michaelenses. Alvorada de S. Pedro. Novo Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro para o anno de 1883, Lisboa, Typ. Lallemant Frères: 44-45. Ataíde, L. B. L. (1918), Etnografia Artística. São Miguel, Açores. Ponta Delgada, Of. Artes Gráficas: 109-120. Braga, T. (1885), O Povo Portuguez nos seus costumes, crenças e tradições, vol. II, Crenças e Festas Públicas. Tradições e Saber Popular. Lisboa, Liv. Ferreira Editora: 308. Id. (1913), Cancioneiro Popular Portuguez, vol. II, Cancioneiro Sagrado. Lisboa, J. A. Rodrigues Editores: 501-503. Costa, F. C. (1945), As Cavalhadas de S. Pedro, 6 pp. dact. Id. (1956), Algumas palavras a respeito das cavalhadas, 4 pp. dact. Id. (1958), A respeito das “alâmpadas” de S. Pedro, 4 pp. dact. Id. (1961), A respeito das cavalhadas, 5 pp. dact. Id. (1962), As “cavalhadas” no culto de S. Pedro Apóstolo, 4 pp. dact. Id. (1964), Para o estudo das cavalhadas de São Pedro, 4 pp. dact. Universidade dos Açores, Serviços de Documentação (Ponta Delgada), Arquivo Carreiro da Costa -Palestras Radiofónicas. Cunha, M. A. (1981), Festas do Espírito Santo na ilha de São Jorge. Arquivo dos Açores. Ponta Delgada, Universidade dos Açores, XIII: 73-106. Ferreira, E. (1927), A Alma do Povo Michaelense. Ponta Delgada, Of. Artes Gráficas: 189-93. Id. (1943), Cavalhadas de São Pedro na ilha de São Miguel. Ocidente, 19, 57: 25-32. Frutuoso, G. (1981), Livro Quarto das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada: 329-332. Lima, G. (s.d.), Festas de S. João na ilha Terceira, Angra do Heroísmo. Tip. Insulana Editora: 17-35. Martins, F. E. O. (1985), Festas Populares dos Açores. Lisboa, Imp. Nacional-Direcção Regional dos Assuntos Culturais. Pereira, J. A. (1963), Campo da Mourisca. Insulana, 19: 80-82. Riley, C. G. (1994), As Cavalhadas – Raízes medievais e evolução histórica (contribuição para o estudo da Festa nos Açores). Insulana, 50: 305-30. Viana, M. G. (1973), As Cavalhadas em Portugal e no Brasil. Ensaio de história comparada. Lisboa, s.e.