Castelo dos Moinhos

Autores do século XIX usam, de forma indiferenciada, os nomes “S. Cristóvão” e “S. Luís”. Que haja memória, foi a primeira construção defensiva a ser iniciada nos Açores (Drummond, 1990: 183). Conta o P.e Maldonado que decorreria a década sessenta de Quatrocentos, ou os primeiros anos de setenta, quando Álvaro Martins Homem, o fundador de Angra do Heroísmo, possivelmente numa lógica senhorial, pois que necessidades defensivas ainda não se faziam sentir nestas remotas paragens, terá iniciado a construção de um modesto castelo na pequena elevação - a actual Memória - sobranceira ao pequeno vale que morria ao fundo da baía, onde desaguava uma ribeira e se fazia o serviço portuário. Pela encosta da mesma elevação fazia correr uma ribeira artificial para, com as suas águas, fazer mover os moinhos que mandou construir ao longo do curso, de que era exclusivo explorador. Circunstância esta que levou a que o castelo, provavelmente no início designado tão só por castelo da cidade, com a construção, primeiro, do Castelo de S. Sebastião, depois, do Castelo de S. Filipe do Monte Brasil, viesse a ser popularmente conhecido por Castelo dos Moinhos.

Símbolo do seu domínio sobre o novo território pela primeira vez colonizado e que esperava viesse a ser-lhe doado, Álvaro Martins Homem acabou por ver frustrado o seu intento, quer na construção do castelo, quer na obtenção da nova capitania. Em 1474, era-lhe doada, não a de Angra, mas a capitania da Praia. E o primeiro capitão-do-donatário de Angra, João Vaz Corte-Real, não encontrou, nesse primeiro tempo, qualquer necessidade de prosseguir a construção do castelo, quer porque perfeitamente definida a sua situação de senhor do território, quer por ausência de qualquer ameaça efectiva contra integridade da sua terra.

Mas a paz dos pioneiros do povoamento dos Açores viria a ser perturbada poucos anos depois, com o surgimento nos mares da Terceira e o desembarque, primeiro em Angra, depois na Praia, de marinheiros castelhanos, em viagem de retomo do Golfo da Guiné ou em mera manifestação intimidatória, no quadro de concorrência no Atlântico dos dois países ibéricos. Nesta conjuntura, no ano de 1482, a infanta D. Beatriz, que em nome de seu filho D. Diogo governava as ilhas, preveniu, em carta enviada a Álvaro Martins Homem, que navios castelhanos começavam a infestar os mares dos Açores, mandando à ilha o provedor das fortificações, Pedro Anes Rebelo, para orientar o capitão do donatário da Praia no amuralhamento daquela vila. Pedro Anes Rebelo acabou por casar na Terceira com uma sobrinha da mulher do capitão do donatário de Angra, tendo terminado a construção do Castelo de S. Cristóvão em 1493, de que terá sido o primeiro governador.

Em 1495, a alcaidaria-mor do castelo foi atribuída ao capitão-do-donatário, João Vaz Corte-Real, que nele terá vivido algum tempo, e depois nele pôs pessoa de respeito, com soldo e título de Tenente, e com a obrigação de aí morar. A anexação da alcaidaria-mor do castelo à capitania, poderá explicar o nome de S. Cristóvão; a ter sido assim, quando da construção do Castelo de S. Filipe do Monte Brasil, sendo capitão-donatário o espanhol marquês Cristóvão de Moura.

A localização do Castelo de S. Cristóvão num ponto alto e a uma distância que, devido ao alcance da artilharia do tempo, não poderia contrariar qualquer ataque quase necessariamente vindo do mar, continua a tradição defensiva do território continental, completamente desfasada da realidade insular. Mesmo assim, quase dois séculos depois da sua construção, a partir dele foi alvejado, com êxito, o Castelo de S. Filipe do Monte Brasil, durante o cerco montado pelos terceirenses para expulsar a guarnição espanhola. Mas poucos anos depois, do Castelo dos Moinhos já não se fazia caso algum, servindo as suas muralhas unicamente para proteger a casa da pólvora de Angra, antes na Praça Velha, e entretanto para ali transferida, por razões de segurança.

Doado à Câmara de Angra em 1839, para fazer um passeio público, em 20 de Maio de 1844, no local do velho castelo, iniciaram-se os trabalhos para a construção dum monumento em memória de D. Pedro IV e, por extensão, do movimento liberal que ele corporizou, cuja primeira pedra foi lançada em 3 de Março de 1845; pretensamente a mesma pedra que o monarca primeiramente pisara, em igual dia e mês de 1832, ao desembarcar no cais de Angra. Manuel Faria (Out.2002)

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