casa de palha (arquitectura)
Nos anos de 1960 ainda se podiam encontrar alguns exemplares das pequenas habitações de cobertura palheira, nos espaços mais rurais e longínquos das ilhas açorianas como atesta a referência feita numa revista Geographica, editada em Portugal nessa década, com a fotografia respectiva (Lopes, 1972).
Porém, no levantamento da arquitectura popular do arquipélago realizado no dealbar da década de 1980, pela Associação dos Arquitectos Portugueses, já só se encontraram breves vestígios destas construções, ou em ruínas, ou transformadas em palheiros, casas de arrumos e de despejo. O rápido desaparecimento das culturas dos cereais tradicionais, que permitiam aproveitar as palhas para revestimento das coberturas que correspondeu nos Açores ao advento e explosão da vida rural baseada nas pastagens, na segunda metade do século XX deve explicar esta situação.
Por junto, nas campanhas de 1982-83 da Associação dos Arquitectos Portugueses, só foi detectada uma casa habitada com o sistema de cobertura de palha aliás já degradada e com a sua estrutura de cobertura meio derruída e adulterada. Trata-se de uma pequena habitação na Candelária, na Bretanha de S. Miguel, toda construída em paredes maciças de pedra vulcânica, à vista, e caracterizada pela inclinação acentuada das suas duas águas necessária ao bom escorrimento das águas das chuvas. Esta casa também se caracteriza pelas suas reduzidas dimensões, estando a compartimentação interna, constituída por tabiques de madeira, limitada a um quarto e uma cozinha, por vezes separados por um pequeno corredor. ( ) o uso da falsa sobre parte da casa, deixa a cozinha livre sob o colmo. Nesta surge sempre o forno com chaminé, cujo acesso, como em todos os outros tipos de habitação, é feito pelo interior e através do lar, aqui encimado por um arco de pedra redondo. (OA, 2000: 127).
De notar que o tipo e as medidas da casinha de planta rectangular com pequenas dimensões, atrás referido, que utilizava a palha na cobertura, parece ter-se prolongado ou persistido nas tipologias das casas, por certo mais recentes ou modernizadas, já com cobertura de telha, e de águas menos inclinadas (com as águas paralelas à fachada), ou até nas casas de empena-fachada ou abarracadas, com as empenas viradas à rua e também telhadas permitindo deste modo a sobrevivência de um padrão de vida e de habitat rural, para além do desaparecimento do seu material de cobertura primevo (tal como deve ter sucedido na evolução do habitat do meio rural da ilha da Madeira, nos anos de 1950-1960). José Manuel Fernandes (Abr.2001)
Bibl. Lopes, F. (1972), A ilha Terceira vida económica do seu povo. Geographica, Revista da Sociedade de Geografia de Lisboa, 31, Julho: 2-25. Ordem dos Arquitectos (2000), Arquitectura Popular dos Açores. Lisboa, OA.
