Casa da Moeda

Período Filipino Em Março de 1582, chegou a Angra Manuel da Silva, conde de Torres Vedras, como lugar-tenente de D. António Prior do Crato e, ao tomar conta do governo, verificou a grave crise financeira em que se encontravam as ilhas fiéis ao rei português devido às despesas da guerra e tomou medidas para acudir a esta situação. Começou por mandar recolher a moeda de cobre corrente nas ilhas para ser contramarcada com um açor e correr pelo valor antigo. De seguida organizou uma casa da moeda no pátio do hospital da cidade nos moldes daquela existente na capital, Lisboa, com juiz, o feitor António Soares, que acabou no patíbulo, quando o marquês de Santa Cruz tomou a ilha, escrivão e peritos. Foi então abridor dos cunhos o ourives Gaspar Ribeiro. Com esta medida acudia aos apertos financeiros e afirmava a soberania real de D. António, porque cunhar moeda era uma das mais visíveis funções soberanas. A recolha de material nobre, ouro e prata, para esta acção não foi descurada pelo novo governador, que numa acção psicológica andou ele próprio pelas ruas da cidade pedindo aos angrenses que entregassem os seus valores para salvar o reino e o rei legítimo. Conseguiu arrecadar muito metal precioso mas Maldonado não deixa de anotar que muitos o entregaram coagidos pelo medo e muito poucos de livre e espontânea vontade. Não se livrou o conde, quando derrotado, de ficar suspeito de ter guardado, em lugar secreto, muito desse ouro, o que parece calúnia e que não lhe aproveitou, pois morreu também no patíbulo.

Cunharam-se, então, moedas de ouro de 500 reais do mesmo peso e valor das dos reinados anteriores mas com menos 3? quilates e em prata de 11 dinheiros, cruzados e tostões. Não há a certeza se chegaram a cunhar-se em prata o vintém e o real português, por se desconhecerem quaisquer exemplares. Aconteceu que o excessivo preço atribuído a esta moedas em relação ao seu valor em metal precioso promoveu o seu falseamento pelos franceses que foram em socorro de D. António e que com isso tiveram grande lucro.

As moedas lavradas em Angra, em nome de D. António, têm como marca os Açores e um A (Angra), além do nome do monarca.

Período Liberal, Século XIX Depois da revolta de 1828, os liberais vencedores, em Angra, estabeleceram uma Junta Provisória em nome da rainha D. Maria II que, a breve trecho, se viu a braços com graves dificuldades de falta de numerário, problema, aliás, que já atormentava as anteriores administrações. Tal com estas começou por recorrer à emissão de bilhetes ou papel moeda, mas isso mostrou-se insuficiente. Foi, então, que em 1829, quando se avolumavam as despesas com a guarnição militar, optou por criar na cidade de Angra uma oficina monetária, conhecida por Casa da Moeda, onde se reduziram a dinheiros os sinos dos conventos e igrejas da ilha. Fundiram em areia moedas com o valor de 80 reis, que logo, em Maio seguinte, foi elevado a 100 reis. Ficaram conhecidas tais moedas, devido à péssima qualidade, por malucos, ou por assim serem considerados aqueles que as aceitavam.

Em 1830, foi extinta a Junta Provisória e tomou posse a Regência, em nome da Rainha, que tratou de sancionar a emissão e o curso desta moeda, mas voltou à emissão de bilhetes de papel moeda postos a circular debaixo de pesadas penas para quem os recusasse. Em Junho de 1830 cessou o fabrico de moeda por se considerar suficiente o que existia. Contudo, logo de seguida foi mandada prosseguir a cunhagem da moeda e nela se empregou o bronze dos sinos das outras ilhas conforme iam sendo conquistadas. Porém, a qualidade da moeda sendo muito má levou à falsificação que invadia o mercado e tornava essa moeda uma fraude, não se podendo distinguir a falsa da verdadeira. O valor intrínseco era insuficiente em relação ao nominal e por isso, em 1832, já em Ponta Delgada, o governo da Regência ordenou cessar o curso das moedas de bronze, os malucos, e estabeleceu o modo dos seus possuidores as resgatarem.

Já do Porto, em 1833, o governo autorizou o Perfeito dos Açores a cunhar moeda de prata, com a prata dos conventos arrecadada em depósitos em Angra. Seriam os cruzados novos de 1, 2 ou 3 vinténs e ordenava-se que as moedas de bronze fossem fundidas e se reduzissem a moedas de 50 reis, contribuindo-se assim, para a extinção dos malucos. As moedas de prata nunca se lavraram e as de bronze fizeram-se ensaios, mas nunca foram postas em circulação.

Apesar de períodos de proibição de circular, foi a moeda estrangeira, nomeadamente a espanhola, a inglesa e a brasileira, que continuou a correr nas ilhas.

Os malucos em 1835 e 1836 foram sendo enviados para a Casa da Moeda, em Lisboa, e reduzidos a barras que foram vendidas. Entraram naquela instituição moedas no valor nominal de 44.760$190 reis. Em 1844, ainda voltou a ser remetida para Lisboa outra quantidade de moeda. A Casa da Moeda funcionou no castelo de S. João Baptista da cidade de Angra. J. G. Reis Leite (2002)

Bibl. Aragão, A. C. T. (s.d.), Descrição geral e histórica de moedas cunhadas em nome de reis, regentes e governadores de Portugal. 2ª ed., Porto, Liv. Fernando Machado, 2: 200 e segs, 296 e segs. Drumond, F. F. (1981), Anais da ilha Terceira. 2ª ed., Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1: 266 e 681, 4: 206. Freitas, B. J. S. (1982), Memória histórica sobre a moeda nos Açores. Arquivo dos Açores. 2ª ed., Ponta Delgada, Universidade dos Açores, IX: 401 e segs. Maldonado, M. L. (1989), Fenix Angrense. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, 1: 299 e segs.