casa açoriana (de habitação)
A definição de uma casa característica dos Açores foi primeiramente tentada em registos etnográficos, como os chamados tentames de sistematização, ou seja, os trabalhos de levantamento de tradições e costumes realizados por Leite de Vasconcelos no início do século XX (Etnografia Portuguesa), sem esquecer as contemporâneas obras do açoriano Luís Bernardo Leite de Ataíde (Etnografia, Arte e Vida Antiga dos Açores), com idêntico sentido etnográfico; depois, a partir nas décadas de 1940-1950, foi a vez dos autores da escola de geografia de Lisboa, com destaque para Orlando Ribeiro, seguindo-se-lhe Raquel Soeiro de Brito, António Brum Ferreira, Carlos Alberto Medeiros, entre outros.
Ribeiro estruturou uma visão de enquadramento macro-geográfico, propondo a designação de Ilhas Atlântidas ou Macaronésia, para os vários arquipélagos do Norte-Atlântico com aspectos geo-morfológicos comuns e a comum presença colonizadora portuguesa (Madeira, Açores, Canárias, Cabo Verde, e, no limite sul, S. Tomé e Príncipe), e elaborando monografias sobre a Madeira (1949) e o Fogo (1960). Raquel Soeiro de Brito estudou S. Miguel (1955), Carlos Alberto Medeiros, o Corvo (1967), António de Brum Ferreira, a Graciosa (1968). Em todas estas aproximações por geógrafos, foi referida a casa ou habitat tradicional açórico, sobretudo nas suas expressões rurais, mas quase sempre com uma visão influencialista, procurando ver nos elementos formais dessas habitações, de forma directa, a origem regional dos colonizadores, sendo algarvios ou predominantemente do norte do continente.
Foi só nas décadas de 1980-90 que um levantamento sistemático da casa e da arquitectura açoriana, promovido pela então Associação dos Arquitectos Portugueses com o apoio do Governo Regional dos Açores, pôde desencadear uma pesquisa de campo, e elaborar a partir dela um estudo com carácter monográfico ou específico sobre o tema, por isso de algum modo mais rigoroso, até científico (tanto quanto pode ser um trabalho desta natureza e sobre esta temática). Para além desta investigação central, editada em livro (OA, 2000), resultaram diversas obras impressas, umas com carácter mais foto-iconográfico, outras mais viradas para a história urbana e arquitectónica, mas permitindo todas elas uma visão mais ampla e informada do tema.
A perspectiva destes estudos, levados a cabo por arquitectos, incidiu sobretudo nos aspectos materiais e especificamente arquitectónicos do tema, procurando uma abordagem tipológica e morfológica que fosse sistematizadora do conhecimento. Desvalorizando as teses influencialistas, no livro acima citado, chama-se a atenção para a originalidade, diversidade e riqueza das múltiplas variantes da casa das ilhas, consoante a sua localização e respectivo contexto sub-regional.
Sem deixar de admitir a influência dos modos construtivos tradicionais do lugar de origem dos colonizadores, chama-se, no mesmo livro, a atenção para a mistura complexa desses modos em cada ilha, elaborada num tempo longo meio-milenar, e resultante na criação de um leque de modelos de habitat açorianos com marcada especificidade e originalidade.
A perspectiva de um olhar sobre a casa açórica deve em primeiro lugar inscrevê-la no mais amplo espaço atlântico da Macaronésia (Oliver, 1997; 1535-1536), pois aspectos comuns às diversas ilhas que constituem estes arquipélagos reflectem-se no carácter da casa: sejam temas materiais (tecnologias transpostas do Portugal ibérico, dentro do modelo geral de casa mediterrânea, com uso da pedra vulcânica para estrutura base das habitações e telha cerâmica para as coberturas), sejam aspectos mais profundos e espirituais (a chamada insularidade, com os seus componentes de ruralidade, de introversão, de dimensão telúrica e de religiosidade).
Se quisermos sintetizar em dois ou três indicadores as características de uma casa açórica tradicional tal como ela pode ainda ser vista actualmente, para além de uma evolução nos últimos séculos poderemos enumerá-los do seguinte modo:
a) é uma casa de pedra, com utilização predominante da rocha, de origem vulcânica, na estrutura da habitação, com paredes espessas, dentro do modelo geral da casa de pedra de tradição mediterrânea de que constitui um prolongamento extremo-atlântico - em detrimento do uso da madeira, ou das massas de terra;
b) é uma casa telhada, com uso de cobertura com duas a quatro águas, sobre armação de madeira, com baixo ângulo de inclinação, como é próprio do referido habitat mediterrâneo;
c) é uma casa com forno, articulado este directamente com o espaço da cozinha, sendo sistemático o uso do sistema lar-forno, com a presença frequente da chaminé a ele associada.
Para além destes aspectos, a casa açórica apresenta uma pequena escala, na dimensão global, na modulação dos seus compartimentos, na expressão geral dos seus elementos constituintes que faz de imediato ligação à escala igualmente reduzida do ambiente geográfico e paisagístico insular como se dele fosse um reflexo.
De seguida, há que fazer distinção entre a casa urbana e a casa rural, dado que, embora a partir da matriz comum atrás referida, elas se podem também distinguir por via de aspectos concretos.
A casa urbana exibe dois tipos claramente distintos em termos de proporção a casa estreita e alta, mais conotada com a função comercial e a base social burguesa, como é patente em Angra do Heroísmo e a casa atarracada e larga, que correspondendo ao solar terratenente, apela a uma origem aristocrática ou clerical.
Os elementos morfológicos mais significativos na casa urbana são: as coberturas de remate graciosamente sanqueado em curva, saliente das fachadas, sobre cornijas e com a pombinha cerâmica no encontro de beirais em esquina; volumes de cobertura por vezes em telhados múltiplos, de 4 águas cada, correspondendo cada um a um compartimento interno da habitação (ex.: solares em Vila do Porto e na Ribeira Grande); a presença de torres, torreões ou mirantes nas partes superiores das habitações de maior dimensão, torres de ver o mar (como em Ponta Delgada); o emolduramento dos vãos principais das fachadas com sentido profusamente decorativo, desde os desenhos conopiais-manuelinos (Vila do Porto) aos de feição classicizante-chã, passando pelos de expressão mais barroca e curvilínea e assumindo por vezes a dimensão simbólica (como no chamado Estilo Micaelense dos séculos XVII-XVIII, na Ribeira Grande, com os seus rombos, suásticas e rosetas, e até os trabalhados óculos de escada).
Finalmente, é ainda possível apreciar o preenchimento dos vãos da fachada com elementos em madeira, constituindo avarandados, nomeadamente as chamadas reixas, treliças ou rótulas, os quais ao que parece constituem vestígios dos mais antigos e desaparecidos muxarabis (verdadeiras caixas de madeira, revestidas com uma rede de madeira, e que há séculos cobriam completamente os vãos de sacada nos pisos superiores dos edifícios mais notáveis, na procura de uma privacidade de olhar de dentro da habitação para a via pública); estas reixas são hoje ainda visíveis na Horta, em Angra do Heroísmo e na Praia da Vitória.
Da casa rural conhecem-se os tipos mais primevos, que actualmente deixaram de existir, ou foram relegados para funções meramente complementares e utilitárias: a casa escavada na rocha, a furna, ligadas aos mais antigos e costeiros habitats do povoamento; e a casa de pedra à vista, com cobertura de palha, de que ainda nos inícios dos anos 1980 se podiam ver exemplos habitados na Candelária, ou já em ruínas, nos Mosteiros ambos os casos na Bretanha micaelense (OA, 2000: 126-127). A casa rural actual, porém, é sistematicamente coberta com telha, e apresenta as suas paredes de pedra revestidas e caiadas ou pintadas, dentro dos modelos atrás descritos.
A casa rural, de feição mais popular, é sem dúvida um dos valores mais interessantes e originais da paisagem açoriana; por um lado, é de uma constante clareza formal, assentando num desenho geométrico, com planta de base rectangular, ou por articulação de vários corpos rectangulares; por outro lado, ela apresenta ainda uma diversidade de modelos e de variantes que enriquecem a compreensão da sua longa evolução no tempo.
Podem sistematizar-se três grandes grupos de casas populares sobretudo patentes no meio rural, mas igualmente em áreas proto-urbanas e urbanas agrupáveis em função da relação espacial e volumétrica que se estabelece entre as áreas dos quartos e a da cozinha (OA, 2000: 26-27):
- a casa com cozinha dissociada, onde este compartimento tanto pode estar fisicamente separado, como unido por um telheiro, como encostado (com ou sem comunicação interna);
- a casa linear, com uma única frente, em que os compartimentos se sucedem em linha (simples ou em L), ocupando a cozinha sempre um dos extremos;
- a casa integrada, com um volume unitário e uma composição espacial frequentemente simétrica (correspondente a uma fachada de janela-porta-janela), geralmente dobrada (com compartimentos para a frente e para trás), ficando a cozinha englobada na volumetria geral onde só o forno se salienta.
Estas características estruturais (
) estendem-se frequentemente às casas rurais mais abastadas e às [casas] de influência erudita (e, em parte, às habitações urbanas) que se distinguem, sobretudo, pelas dimensões e pelo desenvolvimento dos elementos compositivos externos.
Note-se que cada um destes tipos ou grupos principais de casas açorianas populares tem presença geograficamente diferenciada: a área de maior presença das casas com cozinha dissociada coincide com as ilhas onde o forno interior é mais frequente e onde é mais frequente a associação entre ambos [os temas] (Flores, Pico, Faial e S. Jorge) (OA, 2000: 542); a casa linear, com a sua fachada característica sempre com duas portas, pode-se considerar um tipo de transição entre o de cozinha dissociada e o integrado ( ) ocorre em todas as ilhas menos em Santa Maria e no Corvo (OA, 2000: 543); e a casa com cozinha integrada constitui um tipo ligado às ilhas mais orientais e, enquanto modelo vernáculo, não existe nas ilhas onde se salienta a cozinha dissociada e se encontra o forno interior: no Grupo Ocidental (Flores e Corvo) e em parte do Grupo Central (S. Jorge, Pico e Faial). (OA, 2000: 544.
Para além deste tríptico de casa popular açórica, há que salientar a importância das inúmeras variantes de inserção do forno na casa ou na sua cozinha separada dependendo da relação estabelecida entre o forno, o lar e a chaminé (quando esta existe). De facto, com o forno e a cozinha estamos perante uma verdadeira dupla de elementos morfo-tipológicos, já que a sua articulação permite incluir a casa em diferentes tipologias, imprimindo ao mesmo tempo forte expressão formal e plástica a cada uma das suas variantes.
O sistema lar-forno ou seja, a bancada de preparo de alimentos, dentro da cozinha, ligada directamente à boca do forno de cozer pão, e por vezes com o escoamento de fumos garantido pela caixa da chaminé sobre ambos os elementos (forno-lareira-chaminé) - remete ainda para uma fusão entre a tradição da cozinha de lar baixo, do Norte europeu, com a cozinha de lar alto próprio das terras do Sul (Fernandes, 1996: 318-319) síntese que teria sido agenciada em Portugal Continental e daqui levada para as ilhas.
Depois destas considerações sobre a casa mais tradicional das ilhas, há que referir ainda a presença de diversos tipos de habitações mais recentes, dos séculos XIX e XX, englobáveis genericamente num conceito de casa moderna. O tipo de casa imitando certos cânones da casa centro-europeia, romântica e oitocentista, como o chalet (na Lagoa da Furnas, e em Vila Franca do Campo, em S. Miguel; ou nos arredores de Angra do Heroísmo, na Terceira), e a casa modernista, geométrica e em betão armado, dos anos 1930-40 ou 1950-60 (arredores de Ponta Delgada e de Lagoa, em S. Miguel; arredores de Angra do Heroísmo); estes tipos mais recentes têm já exemplos de qualidade considerável nas ilhas dos Açores, devendo por isso ser consideradas num inventário de referência geral à casa insular mais característica. José Manuel Fernandes (Abr.2001)
Bibl. Fernandes, J. M. (1996), Cidades e Casas da Macaronésia. Porto, Faculdade de Arquitectura/ FAUP Publicações. Oliver, P. (ed.) (1997), Encyclopedia of Vernacular Architecture of The World. Cambridge: Cambridge University Press. Ordem dos Arquitectos (2000), Arquitectura Popular dos Açores. Lisboa, OA.
