Carvalho, Rodrigo António Leal de

 [N. Praia da Vitória, Terceira, 20. 11. 1932] Magistrado, escritor. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa (1956), ocupou, sucessivamente, na magistratura, os cargos de Delegado do Procurador da República, interino, na Comarca da Ilha do Pico (1958-59), provisório, na de S. Tomé (1959-63) e na Macau (1963-65); Juiz de Direito na Comarca da Guiné (1965-66), na de Nova Lisboa (1966-70), na de Macau e na de Luanda (1970-73); Ajudante do Procurador da República, em comissão, no Tribunal da Relação de Lourenço Marques e de Juiz Desembargador no mesmo Tribunal (1973-75, data da independência de Moçambique); Procurador da República, em comissão, na Comarca de Macau (1976-79), Procurador-Geral-Adjunto, continuando na mesma comissão (1979-1993), Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça (1995-2000), em comissão de serviço, no território de Macau, entre 1995 e 1999.

Foi director do Gabinete dos Assuntos Jurídicos em Macau, entre 1975 e 1976, e Presidente do Tribunal de Contas (1995-99). A seu pedido, foi aposentado e depois jubilado em 4 de Março de 2000 (D.R. nº 54, da mesma data), situação em que se encontra. Joaquim Henriques de Matos

Como escritor, a sua obra oferece, nos anos 90, uma notável experiência de leitura no que diz respeito às estórias que ao longo do século XX se entretecem em Macau, tradicional porto de abrigo para aqueles que a sorte abandonou: gente fugida de revoluções e guerras que ali vai ficando por falta de alternativa, como em Requiem por Irina Ostrakoff (1993), ou em trânsito para outras paragens, como A Mãe (2001); gente que parte de Portugal em busca de melhores condições de vida, funcionários do aparelho administrativo colonial, em confrontos, por vezes trágico-cómicos, com as comunidades mais numerosas, a chinesa e a miscigenada (os macaenses), como tão exemplarmente é ficcionado em Os Construtores do Império (1994), A IV Cruzada (1996), Ao Serviço de Sua Majestade (1996) e o Senhor Conde e as Suas Três Mulheres (1998).

Embora possa ser classificada como Literatura Colonial, a sua obra desenha com desenvoltura e mestria uma extensa crónica de costumes afirmando-se ainda, e sobretudo, como memória activa de uma comunidade mestiça (a macaense) ainda pouco produtiva em termos ficcionais.

Apesar da sua longa permanência no Território e do estreito convívio com a comunidade macaense, raramente, na sua ficção, assume o papel do narrador primeiro, colocando a responsabilidade do contar da estória na voz de um outro, o macaense, o filho da terra, guardador de memórias investido da tradição.

Pertence, com Venceslau de Morais e Camilo Pessanha, ao universo dos asiatas, aqueles a quem, no dizer do romancista Jean Hougron, a Ásia se lhes cola à pele, lhes penetra os sentidos lhes molda a inteligência. Perdem o estatuto de estrangeiros, ganham uma nova pátria interior. Margarida Duarte (2001)

Obras (1993), Requiem por Irina Ostrakoff. Macau, Livros do Oriente. (1994), Os Construtores do Império. Macau, Livros do Oriente. (1996), A IV Cruzada. Macau, Livros do Oriente. (1996), Ao Serviço de Sua Majestade. Macau, Livros do Oriente. (1998), O Senhor Conde e as Suas Três Mulheres. Macau, Livros do Oriente.(2001), A Mãe. Macau, Livros do Oriente.

 

 

Adenda
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O Romance de Yolanda (2005) e As Rosas Brancas do Surrey (2007) são as últimas obras publicadas. Este último foi parcialmente escrito em Portugal e já após Macau ter passado para soberania chinesa.
Requiem por Irina Ostrakoff está traduzido em búlgaro e chinês. Ranu Costa (2022)