carro de bois

Foi o principal meio de transporte dos meios rurais açorianos até cerca de meados do século XX, altura em que a agricultura e a vida do arquipélago começou a mecanizar-se. Vitorino Nemésio, que testemunha essas mudanças no Corsário das Ilhas (entre 1946 e 1955), recorda as suas múltiplas funções: “os carros de bois que tudo faziam e levavam; que carreavam a novidade em verde e em seco, em espiga e em grão; a rama, a palha e a vagem; a sacaria e as alfaias; a lenha, os tinotes e as pipas; a pedra e a cal da construção, de longas e obsequiosas “traseadas” ou comboios; transportando o pão e o vinho do bodo, os tarecos das mudanças e os viajantes de longe, os doentes nas enxergas e as moças nas suas cadeirinhas travadas aos fueiros da sebe”.

Passados alguns anos, em 1963, o etnógrafo Ernesto Veiga de Oliveira e a sua equipa recolheram os elementos que lhe permitiram descrevê-lo e classificá-lo como um carro de eixo móvel, na medida em que “forma um bloco único e solidário com as rodas, e de um tipo em que as chedas se unem ao cabeçalho formando uma ogiva”.

Trata-se efectivamente de um carro de bois constituído por dois elementos principais: o leito de formato ogival, em que se distingue uma estrutura formada por duas pranchas laterais, as chedas, reforçadas por outras duas, as chumaceiras, e uma central prolongada para diante, o cabeçalho onde é feita a atrelagem, e, sob as chedas, os dois conjuntos onde gira o rodeiro, formados cada um deles por três peças arqueadas, duas fixas verticalmente – os cocões – e uma terceira horizontalmente – a cantadeira; e o rodeiro com rodas de miúlo e cambas, de aspecto sólido, em que se abrem dois rasgos arredondados, um de cada lado da extremidade do eixo, de secção quadrangular, que sobressai da roda. Este conjunto ficava completo com os fueiros, paus fixos em buracos existentes ao longo das chedas, e diversos tipos de sebes que permitiam prender a carga. Os carregamentos maiores podiam exigir o recurso a duas juntas de bois e a formas suplementares de travamento do carro e de fixação das cargas.

Na feitura deste carro empregavam-se diferentes madeiras para as diferentes peças: o castanho (Castanea sativa Mill.), a acácia (Acacia melanoxylon R. Br.), a roseira (Robínia pseudo-accácia), a faia (Myrica faia Aiton), etc. Apenas uma pintura, que podia ser de verde ou de vermelho, ou mais simplesmente de cinzento, e uma chapa de metal amarelo a forrar o cabeçalho, davam-lhe a aparência final.

O carro de bois açoriano apresenta assim uma estrutura arcaica e sem elementos decorativos, comparada por alguns autores à dos carros quinhentistas mencionados por Gaspar Frutuoso, cronista que nos fala da sua produção em numerosas oficinas de carreiros. Todavia, ainda na primeira metade do século XX, este carro era propriedade e motivo de orgulho dos lavradores mais abastados, orgulho que era associado ao chiar do carro, que veio a ser proibido por posturas municipais. Na verdade, quer a posse quer o chiar, que podia ser provocado pelo peso da carga, constituíam sinais evidentes de riqueza e de abundância. Além disso, o carro de bois, devidamente enfeitado, participava nos principais momentos festivos da comunidade: na recolha e distribuição das esmolas ou pensões do Espírito Santo, em todas as ilhas; na organização do espaço dos arraiais dos domingos de Pentecostes e da Trindade, dos dias de bodo, nos terreiros, junto aos impérios da ilha Terceira, preparado para o efeito com sebes em forma de toldo, cobertas dos melhores lençóis e colchas, o chamado carro de bodo; e mesmo no transporte de pessoas para romarias, tal como é mostrado num postal da ilha Terceira, do princípio do século XX.

Finalmente e como observou Veiga de Oliveira, entre as ilhas, as principais variações verificavam-se sobretudo ao nível da nomenclatura. Chamavam-se, por exemplo, cedeiros, chedeiros ou cedreiros às chedas, em S. Miguel; chamaceira à chumaceira, na Terceira, Santa Maria e Graciosa, e meia, em S. Miguel; moenda à cantadeira, em S. Jorge, e boneca, em S. Miguel; coucões aos cocões, em S. Miguel, coicães na Terceira e em S. Jorge; lumieiras, olhais e ouvidos aos vasados das rodas, em S. Miguel; *arcavém à travessa do topo oposto ao cabeçalho, na Terceira e em Santa Maria.

Outras diferenças ocorriam ao nível do formato e das dimensões: as chedas que acompanhavam o cabeçalho quase até à sua extremidade, nos carros de S. Jorge, Pico e Faial, e o leito do carro da Graciosa, em que as chedas cortavam em ângulo para o cabeçalho, ou ainda o recorte dos vasados das rodas. Restando ainda algumas particularidades relacionadas com a existência de um carro de um só boi, de leito rectangular e varais, na faixa norte da Ilha do Pico. E de um carro de quatro rodas, de leito rectangular e rodas raiadas, em S. Miguel, designado por camboio. Helena Ormonde (Mai.2001)

Bibl. Athaíde, L. B. L. (1948), Trechos da Vida Rústica Regional, S. Miguel (Açores). Ponta Delgada. Costa, F. C. (1949), O carro de bois micaelense. Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores. Ponta Delgada, 9: 91-101. Oliveira, E. V., Pereira, B. e Galhano, F. (1987), Tecnologia Tradicional Agrícola dos Açores. Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica. Ribeiro, L. (1982), Notas sobre a vida rural na ilha Terceira (Açores) In Obras. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura/ Instituto Histórico da Ilha Terceira, I: 117-134.