carrão
Este tipo de transporte existiu nas ilhas do arquipélago com dimensão geográfica e económica para justificar a circulação de bens e de pessoas em transportes de aluguer, entre os meios rurais e os núcleos urbanos.
Para a ilha do Faial estão registados quatro: um na Feteira e três em Castelo Branco. Segundo informação do antigo dono do carrão da Feteira, este era puxado por três muares, tinha quatro rodas raiadas e toldo fechado por cortinados que, quando chovia, eram descidos. Transportava doze passageiros e o condutor. Fazia viagens para a cidade da Horta, voltas à ilha pelo Espírito Santo e era alugado para ir às festas do Varadouro.
Em S. Miguel, Matos (1980) dá conta de dois carrões: um da Vila Franca a Ponta Delgada e outro da Ribeira Grande. Falando do primeiro, Urbano Mendonça Dias diz que aquele terá sido o primeiro a existir na ilha e que foi inicialmente chamado carrinho dos Padres. De facto, os primeiros transportes de aluguer açorianos estavam muito ligados ao serviço religioso, médico e social, aos funerais, à assistência médica e aos casamentos. O mesmo escritor acrescenta também que o carrão servia para trazer e levar as notícias, tendo-se tornado «uma das distracções da Terra (...) ir esperar o carrão».
Na ilha Terceira terá existido um na Praia da Vitória, outro na vila de S. Sebastião e vários em Angra do Heroísmo, alguns de toldo bastante simples uma armação fechada com cortinados sobre a estrutura da carroça e outros maiores e mais cómodos, com um habitáculo para os passageiros, conhecidos por charabans.
Charabam, charabem ou charabã são formas de aportuguesamento do termo francês char-à-bancs. Os veículos asseguraram a circulação de bens e de pessoas entre a vila da Praia da Vitória e a cidade de Angra do Heroísmo, dos finais do século XIX até às primeiras décadas do século XX.
Char-à-bancs é aliás o termo utilizado por Vitorino Nemésio ao falar das «viagens de cidade» no Corsário das Ilhas. Dizia ele a propósito: «deslocávamo-nos em char-à-bancs antediluvianos, a que se atrelavam três muarzitos cabisbaixos e negros como grilos, para ajudar os quais, ao subir das ladeiras, era obrigação do passageiro apear-se de boamente». Já em Festa Redonda emprega uma expressão mais popular, charabem pechinchinho.
Os charabans foram pois contemporâneos de outros meios de transporte de aluguer de passageiros oitocentistas trens, coupés e vitórias nas principais ilhas dos Açores, até serem afastados pelos veículos motorizados. A fotografia guardou a sua memória e um exemplar pode ainda ser visto no Museu de Angra do Heroísmo. Helena Ormonde (Mai.2001)
Bibl. Dias, U. M. (1944), A Vida dos Nossos Avós. Vila Franca do Campo, 4: 99-101. Matos, A. T. (1980), Transportes e Comunicações em Portugal, Açores e Madeira (1750-1850). Ponta Delgada, Universidade dos Açores: 384-391. Merelim, P. (1983), Os Transportes de outrora na Ilha Terceira (4 e 5). Revista Ilha Terceira, Angra do Heroísmo, Tip. Moderna, 52: 4, 56: 5.
