Carnaval

Também designado por Entrudo, é uma das festas mais marcantes da nossa civilização. Até há bem pouco tempo, as teorias dominantes afirmavam que provinha das festas de Ísis e do boi Àpis, das bachannaes gregas e das saturnaes e lupercaes romanas. Esta teoria clássica das origens do Carnaval, muito divulgada desde o Renascimento, foi questionada recentemente. Heers (1987) concorda com a transmissão de antigos cultos pagãos para o cristianismo, que recuperou e absorveu muitas das suas festas, mas defende que as características mais gerais da festa de Carnaval se definiram ao longo da Idade Média. Essas características relacionam-se com divertimentos ligados ao ciclo litúrgico, herdando, imitando ou até mesmo rivalizando com as festas dos clérigos, mas também em jogos cómicos de carácter satírico proporcionados pela cidade ou pelas companhias burlescas. No Carnaval encontram-se dois tipos de festejos, ambos com raízes no passado: a festa popular, que se caracteriza por um surto de excesso que atinge todos os campos da vida humana, individual e colectiva, e a festa mais civilizada que privilegia a passividade dos cidadãos. Quer nos meios urbanos, quer rurais, o Carnaval apresenta algumas características comuns: festa de abundância, durante a qual o homem come, bebe e se diverte pondo em relevo valores pagãos da vida, em contraste com o período imediato em que se exaltam valores cristãos. Neste contexto se percebe o esforço desenvolvido pela Igreja contra a quadra de Carnaval.

Nos Açores, desde os tempos mais recuados, se festeja o Carnaval com um mês de antecedência, com as quintas-feiras de amigos, amigas, compadres e comadres, com assaltos, danças e convívio entre amigos. Era também usual, nalgumas localidades, iniciá-lo no dia de S. Sebastião.

carnaval “arcaico” ou “bruto” Uma das suas características mais primitivas reside na violência de certas brincadeiras e o desrespeito pela ordem e valores estabelecidos. Este Carnaval “arcaico” ou “bruto”, como era designado no século XIX, vamos encontrá-lo nos Açores logo nos primórdios do povoamento. Fructuoso faz referências ao jogo do entrudo com laranjas e ovos, na ilha de S. Miguel, e no século XVII já eram condenados a multa os que iniciavam o jogo do entrudo com laranjas contra a procissão de S. Sebastião. Ao longo dos séculos utilizou-se também farinha, milho, tremoços e, sobretudo, a água que a todos atingia. Se no início era despejada em baldes ou alguidares, no século XIX já se fazem referências a seringas, bisnagas e cabacinhas de cera. Posteriormente, a luta nas ruas passou a incluir “luvas de areia ou farelo”, cocotes, bombas e bichas de rabiar. Estas brincadeiras violentas, praticadas por todos os grupos sociais, foram desde sempre sujeitas a proibições que, na prática, não eram respeitadas.

A razão do desaparecimento gradual da violência nas ruas está mais relacionada com a transformação operada na sociedade, na época contemporânea. O indivíduo passou a ter mais tempos livres e deixou de sentir menos a necessidade da festa, como nas comunidades que tinham de compensar a raridade das suas alegrias pelo estrondo e pela intensidade que aquelas davam às suas vidas.

carnaval “civilizado” Coexistindo com o Carnaval “bruto”, desenvolveu-se o Carnaval “civilizado”. Inicialmente, era uma espécie de festa oficial, organizada pelas cidades e que se caracterizava por alienar a participação popular e privilegiar o espectáculo e a passividade dos cidadãos. Era, portanto, uma festa mais contida e séria, característica da civilização burguesa, e que não punha em causa os valores em vigor. O “novo” Carnaval começou por revelar-se nas festas em casas particulares ou nas sociedades de cultura e recreio. No início do século XIX, existem referências para os Açores de que era tradição realizarem-se bailes e pequenas representações teatrais nos ambientes frequentados pelas classes mais abastadas. Mas as mesmas fontes referem também o gosto destas classes pelas brincadeiras com água, mas entre elementos dos mesmos estratos sociais. A imprensa açoriana, a partir de 1880 divulgou uma série de críticas ao “velho” carnaval e iniciou a propaganda de novos divertimentos usados no estrangeiro, com o objectivo de mudar comportamentos. Deste modo, as elites das três cidades açorianas procuraram dar o exemplo e conquistar as ruas com as suas brincadeiras modernas e menos brutas, mas não conseguiram vingar. No início do século XX, promoveram as primeiras batalhas de flores (Ponta Delgada, 1907; Angra, 1910, e Horta, 1928) que também não se enraizaram. O Carnaval nas ruas das cidades continuou impregnado de alguma violência, tal como o era nos meios rurais. O grau de violência variou conforme as diferentes conjunturas, mas existem um conjunto de factores que contribuíram para a sua diminuição. Em primeiro lugar, refira-se a popularidade dos bailes. No século XIX, estes realizavam-se apenas em algumas casas particulares e sociedades de recreio, onde pontificavam sectores das classes média e alta. No início do século XX, começaram a proliferar as sociedades recreativas abertas às classes populares. Os bailes transformaram-se no ponto alto do Carnaval urbano e para eles se canalizavam todas as emoções, energias e reservas monetárias. Para além dos bailes, também se promoveram outras festas em recintos fechados, nomeadamente, teatro, animatógrafo e cinema, que acabaram por aliviar a pressão nas ruas. Em espaços abertos surgiram também, de forma irregular, outras diversões que ganharam adeptos: gincanas, jogos de futebol entre solteiros e casados, desfiles de carros alegóricos, e na Terceira, a tourada dos estudantes.

trajo carnavalesco O homem para além de ser festivus é também homo phantasia, e encontra no Carnaval a época propícia para dar largas à sua imaginação. A fantasia, elemento de arte e de criatividade consciente, encontra no riso uma das suas melhores formas de expressão. A máscara desempenha aqui um papel fundamental, um sinal de transferência social, desejo de imitar e macaquear. A máscara e o mascarado dão força à corrente satírica e burlesca, provocando o riso que é a vida da festa. Na festa de Carnaval encontramos uma componente burlesca e irreverente e outra, apenas, exibicionista. O uso de roupas diferentes marca uma ruptura com o quotidiano e terá sido utilizado desde os tempos mais recuados. A festa de rua caracteriza-se pela existência de grupos de mascarados que dão largas ao seu humor e se entregam às mais desopilantes distracções. A tradição manteve-se ao longo dos séculos, mas tem vindo a cair em desuso na última metade do século XX. O uso de máscaras que pudessem “ofender a moral pública” foram proibidas em várias épocas. Para além do mascarado maltrapilho, começaram a surgir as fantasias mais requintadas. Nos finais do século XIX, surgem anúncios nos jornais de casas que alugam fantasias, mas também uma variedade de produtos para confecções das mesmas, para ambos os sexos e todas as idades. As mulheres, usavam-nas inicialmente nas festas mais privadas e só passaram a exibi-las em público, no início do século XX.

objectos para divertimento Com o desenvolvimento industrial foi produzida uma imensa gama de objectos direccionados para as brincadeiras carnavalescas. De ano para ano surgiam novas ofertas para todos os gostos e bolsas. No início do século XX, já se vendiam estalos chineses, estrelas japonesas, chuvas de prata, confetti, serpentinas, aranhas, serpentes, cornetas, gaitas, guizos, pó de espirrar, bombas, bichas de rabiar, etc. Para ornamentação, anunciavam-se balões chineses e venezianos, fogo de artifício para lançar das janelas. Pela variedade dos anúncios na imprensa constata-se que há um público consumidor ávido de novidades.

a criança no carnaval Esta é uma das festas em que a criança está presente em muitas diversões, ocupando o centro das atenções. Das janelas e varandas entrava no jogo mais violento, lançando sobre os transeuntes objectos mais variados; participava nos bailes dos adultos até finais do século XIX; entrava em representações teatrais e, mais recentemente, participava em desfiles pelas ruas promovidos pelas escolas de todas as ilhas. Para elas são organizadas festas especiais, onde a fantasia desempenha um papel de primeiro plano. Ficaram célebres as matinées Regina, em Angra, entre 1930 e 70, promovidas pelo representante daquela marca de chocolates.

festas de caridade Pelo menos até meados do século XX, foram realizadas nesta quadra muitas iniciativas a favor de casas de caridade. Para elas revertiam o produto de entradas em alguns bailes, jogos de futebol e peditórios feitos pelos elementos das Danças do Entrudo. Algumas instituições deslocavam-se aos asilos e orfanatos para oferecerem às crianças alimentos próprios da época.

gastronomia Nesta quadra come-se e bebe-se em excesso, em contraste com o período da Quaresma que se lhe segue. Por isso, o provérbio popular: «No Entrudo, come-se tudo». A carne de porco era, tradicionalmente, a mais utilizada, não só por ser mais acessível, mas também por ser gorda e a que melhor traduz a ideia do prazer ventral. Para sobremesas destacam-se: filhós, sopas fritas, malassadas, coscorões, suspiros, búzios de massa, rabanadas, etc. Ao longo do século XX, foram introduzidas outras iguarias, principalmente bolos, queijadas e pudins, que se começaram a generalizar na década de 20. Nos meios rurais de algumas ilhas, após a I Guerra Mundial, era hábito “pôr a mesa” para oferecer aos visitantes que andavam a “correr o Entrudo”. Esta prática manteve-se, sensivelmente, até aos anos 60. Para dar um maior ambiente de festa, o chão da sala era enfeitado com feno, e eram pendurados galhos de faia e trepadeiras nos frontais e prateleiras. No campo das bebidas, predominou o vinho, a aguardente e os licores caseiros. Mas as classes mais abastadas tinham uma oferta muito variada no mercado, que se abastecia especialmente para esta quadra.

danças de carnaval Ver Danças de Carnaval. Carlos Enes (2001)

 

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