caravelão

Num documento dos finais do século XVI, presumivelmente de cerca de 1590, dá-se conta da existência de um orçamento para o apresto de dois caravelões de 40 até 50 tonéis “para recados”, cada um com 25 membros de tripulação: capitão, mestre, piloto, 2 bombardeiros, 8 marinheiros, 6 grumetes e 6 soldados; ou seja, 16 homens do mar, mais o capitão, bombardeiros e soldados. Estes caravelões deveriam ir armados com dois falcões e quatro berços cada, com três câmaras a servir cada boca de fogo, além das armas pessoais e dos mantimentos necessários.

O porte, a tripulação e as armas denotam uma evidente proximidade à caravela latina de dois mastros (“caravelão” tem sido entendido como diminutivo da “caravela”, apesar do sufixo), e Henrique Quirino da Fonseca (1973) chegou mesmo a supor que se trataria de uma caravela mais grosseira. Cumpre porém reconhecer que estes elementos, e escassas indicações das fontes quanto a ocorrências relativas à sua utilização, não chegam para suportar grandes conclusões: tratar-se-ia sem dúvida de embarcação latina, do tipo da caravela de dois mastros, com funcionalidade semelhante, quer dizer, embarcação auxiliar empregue como aviso, em reconhecimentos, ou em pequenos transportes, de uma forma algo indiferenciada. Mas há notícia de aparecerem também nas armadas da Índia, com certeza no apoio de embarcações de maior porte.

Como as referências a esta pequena embarcação surgem pelo século XVI, vindo até aos inícios do século XVIII, não resulta clara a distinção com a caravela latina de dois mastros (que continuava a marcar presença no quadro naval português), quer em termos tipológicos, quer em termos funcionais. Poder-se-á todavia aceitar que tivesse tido uma utilização geograficamente indiferenciada, com predominância no espaço atlântico.

No caso do Brasil, os estudos de Carlos Francisco Moura mostraram que o caravelão esteve presente desde os inícios do século XVI, sobretudo em transportes junto e ao longo da costa, registando-se também a sua utilização militar em pequenas frotas (o que mais uma vez sugere a proximidade com a caravela latina). O mesmo se passaria nos Açores, onde a preponderância das embarcações de pequeno porte, ideais para transportes e comunicações a curta distância, de construção relativamente pouco dispendiosa e exigente nos requisitos técnicos, e capaz de ser manobrada por tripulações pequenas, garantiu a sobrevivência tardia do caravelão, tal como aconteceu no Brasil; de resto, e ainda segundo o autor citado, os fluxos migratórios do arquipélago para o território brasileiro levaram os construtores e as embarcações propriamente ditas, mas não há elementos que permitam garantir que seja açoriana a origem do caravelão brasileiro.

De tudo resulta portanto que esta pequena embarcação latina seja tipológica e funcionalmente difícil de enquadrar no conjunto dos meios navais da época em que surgiu e foi empregue, por ser possível afirmar as semelhanças com a caravela latina de dois mastros, mas não as características que necessariamente as teriam de distinguir. Francisco Contente Domingues (Fev.2002)

 

Bibl. Fonseca, H. Q. (s.d.[1973]), A Caravela Portuguesa e a Prioridade Técnica das Navegações Henriquinas. 2ª ed., Lisboa, Ministério da Marinha. Martins, A. S. (2001), A Arqueologia Naval Portuguesa (Séculos XIII-XVI). Uma aproximação ao seu estudo ibérico. Lisboa, Universidade Autónoma de Lisboa. Mendonça, H. L. (1971), Estudos sobre navios portugueses dos séculos XV e XVI. Lisboa, Ministério da Marinha. Moura, C. F. (1974), Os Caravelões Brasileiros. Sep. de Navigator, Rio de Janeiro.