carapuça
Termo usado para designar um conjunto mais ou menos diferenciado de coberturas de cabeça, desde simples barretes em forma de calote de diversas cores até formas de capuz em tecidos grossos de lã e cores escuras, usadas por homens, mulheres e crianças, nas várias ilhas do arquipélago dos Açores.
Nos documentos mais antigos encontram-se referências a carapuças de diversos materiais lã e linho, e panos que vestiam quando iam os dias de guarda à igreja (Gaspar Frutuoso cit. por Afonso, 1987) e com diversas funções, nomeadamente sociais, como é o caso da carapuça usada por luto ou dó.
Mas quando em meados do século XIX, se começa a descrever e a desenhar esta cobertura de cabeça, trata-se essencialmente de um modelo composto por uma copa armada, uma pala em forma de crescente e de pontas reviradas, e uma capa presa na copa e descida até às espáduas, que é usado pelo camponês de S. Miguel. Este tipo de carapuça é também muito semelhante à utilizada por homens e mulheres em S. Jorge, e mulheres e crianças em Santa Maria. Já no Pico a copa desta cobertura tinha um formato cónico e não possuía aba. Nas Flores e no Corvo tratar-se-ia de uma calote de bicos triangulares, voltados para cima. E na Graciosa, não seria conhecida.
Este tipo de cobertura de cabeça, vista como uma extravagância do traje insular pelos viajantes de oitocentos, constituiu uma peça de luxo para o camponês micaelense. De resto, veja-se em O Trajo dos Açores, as gravuras de camponeses micaelenses de Legrand (1840), Bullar (1841), Weeks (1882) e Walker (1886); e as referências aos pormenores dos bons panos azuis, às guarnições e às fivelas de prata das carapuças usadas por elegantes camponeses de Vila Franca, em momentos festivos, pela mesma época. Isto não significa porém que outras mais modestas não fossem utilizadas pelas classes menos abastadas, como os pescadores, ou nos trabalhos da lavoura. Ataíde (1948) refere-se, por exemplo, a uma carapuça de linho cru que os camponeses micaelenses usavam para proteger as cabeças do sol, durante a lavra. Nas primeiras imagens fotográficas de finais do século XIX, estas coberturas de cabeça aparecem sobretudo em contextos de trabalho, designadamente de transporte de cargas ao ombro ou à cabeça, protegendo obviamente esta parte do corpo. Trata-se, pois, de carapuças de rebuço que desempenharam assim importantes funções de protecção e de agasalho, que estiveram associadas também a momentos particulares da vida dos indivíduos por exemplo, ao luto na ilha de S. Jorge -, e que ficaram retidas para os nossos dias, nas representações do folclore. Helena Ormonde (Mai.2001)
Bibl. Afonso, J. (1987), O Traje nos Açores. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Acção Social. Ataíde, L. B. L. (1918), Etnografia Artística S. Miguel (Açores), Ponta Delgada. Id. (1948), Trechos da Vida Rústica Regional, Ponta Delgada. Costa, F. C. (1949), As antigas carapuças. Insulana, Ponta Delgada, V, 1 e 2: 149-150. Ribeiro, L. (1982), O Trajo Popular Terceirense In Obras. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura / Instituto Histórico da Ilha Terceira, I: 205-214.
