carangídeos
Nome dado aos peixes marinhos da família Carangidae. Esta família é notável pela diversidade e a variedade dos seus representantes no mundo oceânico. Pode avaliar-se em cerca de 160 o número de espécies inventariadas, embora a sua identificação seja objecto de controvérsia devido à extrema variabilidade dos caracteres analisados, à definição dos géneros e aos casos de sinonímia (Aboussouan, 1975).
Segundo Smith-Vaniz (1986) os indivíduos desta família têm o corpo de forma extremamente variável, desde alongada e fusiforme a fortemente comprimida; pedúnculo caudal de largura média a acentuadamente fino, nalgumas espécies com quilha lateral moderada, quilhas bilaterais pares ou goteiras dorsais e ventrais; cabeça variando de moderadamente longa e arredondada a curta, alta e muito comprimida; focinho agudo a embotado; olhos pequenos a grandes, com membrana adiposa de tamanho reduzido a bem desenvolvida; ossos operculares lisos; maxila inferior protráctil ou mais saliente do que a superior; aberturas branquiais grandes; escamas pequenas, algumas vezes difíceis de observar, e cicloides mas ctenoides em duas espécies; linha lateral arqueada ou elevada anteriormente e direita posteriormente, estendendo-se sobre a barbatana caudal.
Em geral, formam cardumes; algumas espécies têm distribuições continentais e ocorrem, especialmente quando jovens, em ambientes salobros, outras são pelágicas, encontradas, geralmente, à superfície ou próximo dela, principalmente em águas oceânicas e têm distribuições circunglobais; alguns géneros, Trachurus incluído, ocorrem, geralmente, formando cardumes densos, próximos do fundo, a profundidades de 100 a 200 m mas que se pode estender até 500 m; alimentam-se de invertebrados planctónicos, principalmente copépodes, camarões e moluscos bênticos.
Os Carangidae, especialmente os chicharros e os írios, estão entre as principais contribuições para a grande importância das capturas comerciais, pelágicas e demersais. Algumas espécies são valiosas como alimento, outras são utilizadas para produção de farinha e óleo de peixe, outras ainda são procuradas pelos pescadores desportivos.
Para os Açores estão registadas as espécies Caranx crysos, por Wirtz (1994), C. hippos, por Hilgendorf (1888), Decapterus macarellus, por Smith-Vaniz (1986), Elagatis bipinnulata, por Azevedo e Heemstra (1995), Naucrates ductor, Pseudocaranx dentex e Seriola dumerili, por Hilgendorf (1888), como Nauclerus compressus, Caranx georgianus e Seriola dumerilii, respectivamente, S. rivoliana, por Wirtz (1994), Trachinotus ovatus, por Hilgendorf (1888), como Lichia glauca, e Trachurus picturatus, por Lütken (1880).
Mais, Caranx lugubris está citada por Albuquerque (1954-56) de Fowler (1936: 699). Todavia, este autor sinonimiza C. ascensionis de Zugmayer (1911b: 106) da Baía do Tarrafal, Santo Antão, Cabo Verde, com C. lugubris e localiza, erradamente, aquele lugar nos Açores.
Mais ainda, Seriola lalandi foi registada por Wood e Williams (1974) como S. zonata. Trata-se de uma espécie subtropical, circunglobal, que tem a ilha de Santa Helena como limite norte de distribuição geográfica no Atlântico Oriental e cuja ocorrência junto aos Açores necessita de confirmação.
Também Wood (1974) refere ter encontrado Lichia amia, ocasionalmente, perto da costa, a meia água sobre áreas rochosas (abaixo dos 5 m), geralmente formando cardumes mas, segundo Santos et al. (1997), a presença desta espécie necessita de ser confirmada.
A presença da espécie T. trachurus, registada por Drouët (1861) como Caranx trachurus e referida por diversos autores (Hilgendord, 1888; Lampe, 1914; Clark, 1915; Fowler, 1936; Paes-da-Franca e Correia, 1979), necessita de ser confirmada e por enquanto deve ser tratada como sinónimo de T. picturatus.
C. crysos, segundo Smith-Vaniz (1986), é uma espécie com a pálpebra adiposa bem desenvolvida; maxila superior com uma série irregular de caninos de tamanho moderado, flanqueada por uma série mais interior; dentes na maxila inferior essencialmente numa fiada única; segunda barbatana dorsal com 1 espinho seguido de 22 a 25 raios e segunda barbatana anal com 1 espinho seguido de 19 a 21 raios; raios terminais das barbatanas dorsal e anal posicionados muito próximo dos raios adjacentes e completamente fixados pela membrana inter-radial; porção direita da linha lateral com 46 a 56 escudos. Ocorre no Mediterrâneo e no Atlântico, geralmente, próximo do fundo até profundidades de pelo menos 100 m.
C. hippos, segundo Smith-Vaniz (1986), é uma espécie com a pálpebra adiposa bem desenvolvida, mais extensa posteriormente; maxila superior com com uma série irregular de caninos fortes a moderados, flanqueada por uma série mais interior; dentes na maxila inferior essencialmente numa fiada única; segunda barbatana dorsal com 1 espinho seguido de 19 a 22 raios e segunda barbatana anal com 1 espinho seguido de 16 a 18 raios; barbatanas dorsal e anal terminando em raios posicionados muito próximo dos raios adjacentes e completamente fixados pela membrana inter-radial; porção direita da linha lateral com 23 a 37 escudos. Ocorre no Mediterrâneo e no Atlântico, formando cardumes de tamanho moderado a grande, geralmente, em águas pouco profundas mas os indivíduos de maiores dimensões podem ocorrer até 350 m de profundidade.
Decapterus macarellus, segundo Smith-Vaniz (1986), é uma espécie com a maxila superior, sem dentes, direita por cima e com a extremidade posterior moderadamente arredondada e inclinando antero-ventralmente; segunda barbatana dorsal com 1 espinho e 33 a 37 raios; segunda barbata anal com 1 espinho e 28 a 32 raios; raios terminais das barbatanas dorsal e anal claramente separados dos raios adjacentes e sem membrana interradial; porção curva da linha lateral com 70 a 84 escamas, porção direita com 20 a 36 escamas seguidas de 27 a 37 escudos. Espécie circuntropical, ocorre, formando cardumes, no mar aberto, entre 20 e 40 m, e, especialmente, nas regiões insulares; nos Açores ocorre, ocasionalmente, durante a captura de T. picturatus, para isco vivo, pelas embarcações da pesca do atum.
Em Elagatis bipinnulata, segundo Smith-Vaniz (1986), a extremidade da mandíbula superior termina distintamente antes do olho; os dentes são pequenos em ambas as mandíbulas, numa banda larga, anteriormente, mas afilando de modo progressivo, posteriormente; segunda barbatana dorsal com 25 a 30 raios; anal com 18 a 22 raios; pínula terminal com dois raios, sem membrana inter-radial, presente após as barbatanas dorsal e anal; base da parte mole da barbatana anal distintamente mais curta do que a parte mole da barbatana dorsal; linha lateral ligeiramente arqueada sobre as barbatanas peitorais tornando-se direita posteriormente, sem escudos. Espécie pelágica, cosmopolita nos mares tropicais, ocorre, raramente no Atlântico Oriental, próximo do litoral ou ao largo.
Na espécie Naucrates ductor, conhecida vulgarmente por peixe-piloto (ICN, 1993; Santos et al., 1997) ou romeiro (Collins, 1954; Sampaio, 1904; Santos et al., 1997), segundo Smith-Vaniz (1986), a maxila termina por baixo da margem anterior do olho; os dentes são pequenos em ambas as maxilas, formando uma banda larga, anteriormente, mas afilando de modo progressivo, posteriormente; base da parte mole da barbatana anal de comprimento distintamente menor do que a base da barbatana dorsal; segunda barbatana dorsal com 1 espinho e 25 a 29 raios e segunda barbatana anal com 1 espinho e 15 a 17 raios; quilhas cutâneas bem desenvolvidas lateralmente sobre o pedúnculo caudal; linha lateral sem escudos, ligeira a moderadamente arqueada sobre as barbatanas peitorais, tornando-se direita, posteriormente. Pelágica em águas oceânicas, ocorre no Atlântico, desde as ilhas Britânicas até à costa de África.
Em Pseudocaranx dentex, espécie conhecida vulgarmente por encharéu (Collins, 1954; ICN, 1993; Martins, 1981; Sampaio, 1904; Santos et al., 1997) ou xaréu (Santos et al., 1997), segundo Smith-Vaniz (1986), a pálpebra adiposa é pouco desenvolvida; a maxila superior termina antes da margem anterior do olho; ambas as maxilas têm, essencialmente, uma fiada única de dentes cónicos embotados, mas uma fiada mais interna de dentes cónicos também mais pequenos presentes na maxila superior dos jovens; segunda barbatana dorsal com 1 espinho e 24 a 26 raios e segunda barbatana anal com 1 espinho e 22 a 23 raios; parte direita da linha lateral com 6 a 15 escamas seguidas de 20 a 32 escudos. Ocorrem, geralmente perto da costa, no Mediterrâneo, junto aos arquipélagos do Atlântico e ainda em águas temperadas ou subtropicais do Pacífico e do Índico. Patzner et al. (1992) referem a ocorrência de jovens pelágicos, muitas vezes associada com seixos rolados, e de adultos, geralmente menos orientados para aspectos topográficos, ocasionalmente em grandes cardumes, a profundidades entre 5 m e 20 m, algures junto às ilhas do Faial e do Pico, em Junho-Julho de 1989.
Seriola dumerili, espécie conhecida vulgarmente por írio (ICN, 1993; Martins, 1981; Santos et al., 1997), lírio (Collins, 1954; ICN, 1993; Martins, 1981; Sampaio, 1904; Santos et al., 1997) ou eiró (Collins, 1954). Segundo Smith-Vaniz (1986), tem a extremidade da maxila superior larga; segunda barbatana dorsal com 1 espinho e 29 a 35 raios e segunda barbatana anal com 1 espinho e 18 a 22 raios; base da parte mole da barbatana anal de comprimento distintamente menor do que a base da barbatana dorsal; margem anterior do primeiro pterigióforo da barbatana anal moderadamente côncavo; linha lateral sem escudos. Pelágica e epipelágica, ocorre muitas vezes próximo de rochedos ou ao largo, a maiores profundidades, em buracos ou afundimentos, geralmente em cardumes de tamanho pequeno ou moderado, mas muitas vezes os indivíduos ocorrem isoladamente. Patzner et al. (1992) referem a ocorrência de jovens com cerca de 20 cm de comprimento, associados com cardumes de Balistes carolinensis (peixe-porco, cf: Collins, 1954, Santos et al., 1997) A sua distribuição não é bem conhecida devido a anterior confusão com S. carpenteri, mas ocorre no Mediterrâneo e no Atlântico até ao Golfo da Biscaia.
Na espécie Seriola rivoliana, segundo Smith-Vaniz (1986), a extremidade da maxila superior é larga; a segunda barbatana dorsal tem 1 espinho e 27 a 33 raios e a segunda barbatana anal 1 espinho e 18 a 22 raios; a base da parte mole da barbatana anal de comprimento distintamente menor do que a base da barbatana dorsal; a margem anterior do primeiro pterigióforo da barbatana anal é recta; e a linha lateral não tem escudos. Pelágica e epipelágica, possivelmente mais oceânica do que outras espécies do mesmo género, é raramente encontrada em águas próximas da costa. É conhecida a sua ocorrência na costa portuguesa, nos Açores e na Madeira.
Os indivíduos da espécie Trachinotus ovatus, conhecidos vulgarmente por pombreta (Sampaio, 1904), prombeta (Collins, 1954; ICN, 1993; Martins, 1981; Santos et al., 1997), plombeta (ICN, 1993; Santos et al., 1997) ou *cabra (ICN, 1993; Santos et al., 1997), têm, segundo Smith-Vaniz (1986), dentes pequenos em ambas as mandíbulas, formando uma banda estreita, anteriormente, afilando de modo progressivo, posteriormente; a barbatana dorsal com 6 mais 1 espinhos e 23 a 27 raios e a barbatana anal com 2 mais 1 espinhos e 22 a 25 raios; as bases das partes moles das barbatanas dorsal e anal de comprimento aproximadamente igual; linha lateral geralmente arqueada sobre as barbatanas peitorais e direita posteriormente, sem escudos. Pelágicos, os adultos e os jovens formam, geralmente, cardumes na zona de rebentação, ao logo das praias arenosas. Ocorrem no Mediterrâneo e no Atlântico, desde a Escandinávia, onde é rara, até ao Sul de Angola, incluindo as ilhas ao largo. Patzner et al. (1992) referem a sua ocorrência, a profundidades entre 1 m e 10 m, algures junto às ilhas do Faial e do Pico, em Junho-Julho de 1989.
Trachurus picturatus, conhecido vulgarmente por chicharro (Collins, 1954; ICN, 1993; Martins, 1981; Sampaio, 1904; Santos et al., 1997) ou chicharro-do-alto (Santos et al., 1997), tem, segundo Smith-Vaniz (1986), linha lateral dorsal acessória terminando por baixo dos 5 a 10 raios da parte mole da barbatana dorsal; segunda barbatana dorsal com 1 espinho e 30 a 35 raios e a segunda barbatana anal 1 espinho e 27 a 30 raios; 52 a 58 escamas semelhantes a escudos na parte curva da linha lateral e 39 a 46 escudos na parte direita. Pelágico-demersal, forma cardumes até, pelo menos, 370 m de profundidade, muitas vezes confinada à zona nerítica das plataformas das ilhas e bancos. Ocorre no Mediterrâneo Ocidental e no Atlântico, desde desde o Golfo da Biscaia até, pelo menos, à ilha de Tristão da Cunha, nos Açores, na Madeira e nas Canárias. Luís M. Arruda (2006)
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