caprinos

Consideracões Gerais Os caprinos foram enviados para os Açores no século XV juntamente com outras espécies, pelo infante D. Henrique. Entregues a si próprios, sujeitaram-se ao novo ambiente, talvez sem grandes dificuldades porque o clima era ameno, a vegetação abundante e as raças a que pertenciam revelavam rusticidade . Existem diversas publicações a dar-nos conta da evolução dos caprinos no arquipélago e através delas percebe-se que nem todas as ilhas mostraram um grande interesse por eles. S. Miguel, Terceira, Pico e S. Jorge tiveram uma fase de maior desenvolvimento da caprinicultura, possivelmente por oferecerem melhores condições económicas e naturais. S. Miguel chegou a ter mais 3.000 caprinos do que ovinos. À medida que as pastagens iam sendo instaladas, os caprinos passavam a constituir quase uma necessidade, pela protecção que lhes davam, devorando as silvas e outras espécies botânicas daninhas. É conhecida a capacidade dos caprinos de se alimentarem com vegetação grosseira e às vezes até tóxica para outras espécies. Embora sejam bastante sensíveis à chuva e ao vento, defendem-se procurando com grande facilidade abrigos apropriados. O tempo não os modificou. Ainda aparecem rebanhos com centenas de cabeças, protegidos apenas por vegetação arbustiva ou por pequenos acidentes do terreno e com uma alimentação constituída exclusivamente por erva das sobras de estradas ou de baldios ou mesmo de propriedades privadas onde o gado bovino acabou de pastar. E o mais extraordinário é que produzem razoáveis quantidades de leite, à volta de dois litros diários, durante duzentos dias, e às vezes mais. As explorações existentes em nossos dias, no arquipélago, ainda respeitam os hábitos tradicionais. Mas o pastoreio de duas ou três cabras, em simultâneo com as vacas, começa a ser uma realidade. As explorações estabuladas, do tipo doméstico, são raras.

Os caprinos tiveram de enfrentar algumas dificuldades, como as parasitoses e os ataques de cães vadios. O aparecimento de antiparasitários eficientes e um maior cuidado na guarda dos rebanhos normalizou a situação.

Raças O aspecto exterior, o chamado fenótipo, destes ruminantes é extremamente variável na cor e na conformação, e daí o não poder afirmar-se que pertençam a qualquer raça. São híbridos resultantes dos cruzamentos livres dos caprinos ali desembarcados, na sua grande maioria oriundos do continente português. Todavia, ainda existem entre eles características comuns, próprias do tronco originário europeu. Há uns anos atrás, os caprinos portugueses constituíam uma só raça, a charnequeira. Eram animais de tamanho médio, castanhos, de chanfro côncavo, orelhas pequenas, chifres quase constantes no macho e frequentemente ausentes na fêmea, compridos, finos, levantados mas levemente curvados para trás e para fora ou elevados em forma de lira. Distinguiam-se entre eles as variedades serrana e saloia, o que parecia ter resultado de formas diferentes de criação. Com o andar dos anos e naturalmente com algumas intervenções zootécnicas, foram aparecendo no continente raças definidas como a serpentina, a algarvia, a brava, a serrana e a charnequeira propriamente dita. Nos Açores não houve uma orientação zootécnica bem definida para caprinicultura mas, ultimamente, esboçam-se algumas tendências inovadoras.

Classificação morfológica Na classificação zootécnica francesa, os caprinos pertencem a três troncos de origem, o europeu, o africano e o asiático. O tronco europeu, originário dos Alpes, engloba animais na sua grande maioria braquicéfalos, concavilíneos, com pelagem castanha, malhada ou branca, orelhas de tamanho médio, úberes verticais e de boa produção. Este tronco engloba as raças alpinas suíças, francesas, espanholas e portuguesas. Para muitos zootecnistas, as raças portuguesas são derivadas das pirenaicas, que são um dos ramos das alpinas. Algumas cabras francesas e suíças atingem pesos de 80 a 93 kg, comprimentos de 1,15 a 1,33 m e alturas ao garrote de 93 cm. O tronco africano é constituído por caprinos dolicocéfalos, convexilíneos, em geral sem cornos e com grandes orelhas pendentes, úberes globulosos de boa produção e são originários da Núbia. O tronco asiático envolve os caprino dolicocéfalos, rectilíneos, com pelagem abundante de cor variável, sem chifres ou com eles dirigidos obliquamente para trás e retorcidos com uma só espiral.

Sanson divide as espécies pecuárias em dolicocéfalas e braquicéfalas; nas primeiras, o diâmetro transversal do crânio é inferior ao longitudinal; o contrário sucede nas segundas. Para Baron, os animais de peso médio são eumétricos, os mais pesados são hipermétricos e os mais leves são elipométricos. Quanto ao perfil, particularmente ao nível da cabeça, podem ser concavilíneos, rectilíneos ou convexilíneos. Finalmente, quanto às proporções gerais do corpo, quando os animais guardam entre si um justo equilíbrio entre o comprimento, a largura e a altura, são mediolíneos; quando há predomínio do comprimento, são longilíneos e quando há um retraimento do comprimento e da altura em favor da largura são brevilíneos. Infelizmente existem poucos dados publicados que nos permitam adoptar tais classificações.

As serpentinas são subcôncavas, orelhas compridas pendentes, cornos abertos em espiral e dirigidos lateralmente, são brancas, malhadas de preto no focinho, nas faces, no interior das orelhas, na metade inferior das pernas e na parte traseira do dorso. Os machos pesam de 60 a 75 kg e as fêmeas de 45 a 60 kg. São animais de carne.

Nas serranas os machos pesam de 50 a 55 kg e as fêmeas de 40 a 45 kg. São também subcôncavas, pretas ou castanho escuras por vezes com pequenas malhas, de pelo curto, de cornos compridos, direitos ou ligeiramente dirigido para trás.

A brava é mais pequena. Os machos pesam de 35 a 40 kg e as fêmeas de 25 a 32 kg. São animais de carne.

As cabras algarvias são concavilíneas, castanhas claras, malhadas, com chifres semelhantes aos das serpentinas. Os machos pesam de 50 a 70 kg e as fêmeas de 45 a 55 kg.

As cabras charnequeiras são rectilíneas, castanhas claras, com cornos em espiral, longos e divergentes. Os machos pesam de 55 a 60 kg e as fêmeas de 45 a 50 kg.

Com estes dados não é fácil imaginar-se a estatura e a conformação dos seus descendentes ilhéus que se cruzaram em plena liberdade durante os seus cinco séculos de convivência. Numa visão global parecem pertencer ao tronco europeu. Com o tempo foram feitas algumas importações de raças estrangeiras que só muito ligeiramente marcaram a sua presença. É o caso das doze cabras nubianas recebidas da América do Norte em 1964, como oferta do Programa People to People aos Serviços Veterinários da ilha Terceira. São ainda as cabras alpinas importadas de França, em 1980, pelos Serviços Veterinários de Angra do Heroísmo em número de 25 fêmeas e 6 machos e, logo de seguida, as 250 alpinas importadas por particulares de S. Miguel e Terceira. De então para cá registaram-se mais algumas importações que incluíram as raças Saanan e Toggembourg, do tronco europeu, mas em número bastante reduzido.

Pode assim imaginar-se a grande variedade de fenótipos existentes no arquipélago, mas não se vislumbra nos caprinos dos Açores qualquer influência do tronco asiático ou africano. Todavia é clara uma certa vocação leiteira.

Bovinos versus caprinos e ovinos Ao longo dos cinco séculos da vida açoriana verificou-se sempre um maior interesse pelos bovinos em relação às restantes espécies pecuárias. A experiência foi mostrando que os bovinos forneciam trabalho, carne, leite e as tão apreciadas peles. Além disso, a abundância de pastagens, a benignidade do clima e as solicitações dos mercados favoreciam o fomento destes ruminantes. É certo que os ovinos e caprinos também ofereciam algumas vantagens, pois o borrego, o cabrito e a lã sempre foram muito apreciados, mas estavam longe de dar rendimentos competitivos. Nas explorações modernas até já se compreendeu que as rações de conservação de ovinos e caprinos são proporcionalmente maiores do que as dos bovinos, o que logo à partida favorece estes últimos. Acontece, porém, que ultimamente, a nível mundial, e de uma forma particular nos países em desenvolvimento, vem surgindo um interesse crescente pelos ovinos e caprinos, não só devido às novas conjunturas económicas, mas também como consequência de uma investigação científica intensa. O leite destes pequenos ruminantes vem sendo muito valorizado e os caprinos em particular oferecem enormes vantagens de maneio. Se antigamente eram quase considerados uma praga para a agricultura, porque roíam toda a vegetação, hoje, tanto os países ricos como os pobres estão fomentando a sua exploração. Nos Açores, começam a surgir sinais de uma tendência semelhante. Diversos lavradores têm estado a adquirir uma ou duas cabras para criação simultânea com as vacas, porque aproveitam o que estas não comem. Todavia, os mercados ainda não ditaram uma revisão dos preços das produções, nem um reordenamento das explorações. As experiências já realizadas no domínio da estabulação e da ordenha mecânica revelaram-se prematuras.

Estatística Como se pode verificar pelo quadro, são as ilhas de S. Miguel, Terceira e Pico as que vêm mantendo um maior número de caprinos. É possível que o turismo venha a provocar, ou já está mesmo provocando, uma certa diversificação das produções agro-pecuárias da Região. Não será também de estranhar que a própria população comece a alterar os seus hábitos alimentares, perante a elevação do seu poder de compra, a agressividade da oferta comercial e a divulgação dietética.

Segundo a FAO, de 1998 a 2000, existiam em Portugal 793.000 caprinos e no mundo 714.174.801. As produções de leite e de carne variam com as raças, a alimentação e as condições ambientais. As cabras alpinas importadas pelos Açores têm uma produção leiteira á volta de 1000 l/ano, segundo a informação de origem. Mas tal quantitativo não foi obtido nos Açores. As produções de carne dos caprinos, no arquipélago, são insignificantes. Em 1988, registaram-se 591 abates de caprinos e em 1998, contaram-se 830. As carcaças dos cabritos variam de peso, entre 2 e 12 kg, e as dos adultos entre 13 e 47, conforme as idades e o regime alimentar. José Leal Armas (Fev.2001)

 

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Caprinos

 

Ano

1977

1978-79

1980-81

1985

1989

1993

1995

1997

Santa Maria

179

179

25

148

198

176

224

190

S. Miguel

1197

3416

564

2283

2409

2604

2257

2299

Terceira

2200

3131

2200

1391

1776

1751

1485

1704

S. Jorge

1435

2011

1435

1112

1170

903

809

472

Graciosa

169

338

169

271

488

391

484

409

Pico

2594

4151

3594

2809

3164

2594

1817

1656

Faial

481

732

481

560

677

693

614

508

Flores

226

219

226

426

846

972

783

513