capote
1 Começa por aparecer como peça importante da indumentária dos açorianos mais abastados, feito de ricas fazendas importadas e passado de geração em geração, nos documentos (inventários orfanológicos e testamentos), dos séculos XVIII e XIX, reunidos por Afonso (1987). É porém a partir do século XIX, sob o olhar curioso dos estrangeiros e dos primeiros estudiosos das tradições insulares, que se começa a dispor de descrições mais ou menos pormenorizadas e de registos iconográficos deste traje insular feminino, que é visto como uma extravagância, um arcaísmo a banir ou uma singularidade a registar. São registos que dizem essencialmente respeito ao capote e capelo usado nas ilhas S. Miguel, Santa Maria e Faial.
Com efeito, o capote com capelo é identificado principalmente com o tipo usado nestas ilhas, que se distingue pela capa ampla que cai dos ombros até aos pés e, sobretudo, por um capuz armado de tecido escuro, preto ou azul ferrete, variando de ilha para ilha na amplitude da saia ou da capa mais rodada em Santa Maria e do capelo também maior em Santa Maria e no Faial, e no modo do capelo se prender à capa separados em S. Miguel e Santa Maria e cosidos no Faial. Acrescente-se que foi também identificado na ilha do Pico, embora não abundem referências à sua existência (Ribeiro, 1982).
Sob a mesma designação, mas com características bastante diversas, ocorria nas ilhas Terceira e Graciosa um capote que Luís Ribeiro descreveu, em 1939, como um traje já desaparecido, e sendo composto por uma longa capa de pano grosso de lã, cor de pinhão e às vezes escuro ou preto, abotoada no pescoço com um grande colchete de ferro, sem mangas, com uma gola e cabeção, que ia até aos pés, e o capelo, espécie de travesseiro redondo com uma extremidade aberta enfiada na cabeça e amarrada de baixo do queixo, e a outra fechada, caindo nas costas.
Através dos registos literários e iconográficos, verificamos que, ao longo do século XIX e até às primeiras décadas do século XX, os capotes de capelo armado ou de capuz caído, tal como os mantos terceirenses (cujo desenho se pode reconhecer em notícia datada de 1795, relativa a uma capa usada pelas mulheres do Faial, que cobria a cabeça e que era atada na cintura, assinalada por J. Afonso), foram seguramente peças importantes da indumentária das mulheres açorianas mais abastadas, desempenhando funções de agasalho e de traje de sair ou de arruar. Os capotes e os mantos eram vistos sobretudo nas cidades, ficando assim ligados ao modo de vida urbano das mulheres pertencentes aos estratos mais favorecidos, nomeadamente a momentos sociais mais significativos como sejam as missas. O seu uso acaba porém por se popularizar, a ponto de se falar em verdadeiras nuvens escuras de mulheres embiocadas e mostrando apenas uma mão ao ajeitar o capelo sobre a cabeça.
O uso do capote e capelo parece constituir uma forma de valorização do recato e do pudor femininos, no entanto o efeito de ocultação e de anonimato que promove acaba por suscitar algumas reservas e receios, dando mesmo lugar a campanha contra ele nos jornais de meados do século XIX, sendo ridicularizado e tema de episódios anedóticos. Aliás, os mesmos viajantes que contribuíram para fixar o interesse nesta peculiaridade do traje açoriano consideraram-na pouco elegante e até uma influência nefasta para a mulher dos Açores. A este propósito Leite de Vasconcelos, ao visitar as ilhas em 1924, questiona-se: encafuadas em vestuário tão monótono, como hão-de as mulheres dos Açores andar alegres?
Apesar dessa aparência simultaneamente exuberante e sombria, o capote e capelo foi indiscutivelmente apreciado pelas mulheres açorianas de condição social mais elevada, mas acabou popularizando-se e caindo em desuso. Entretanto foi recuperado pela etnografia que se empenha sobretudo em descobrir a sua filiação, atribuindo-a inicialmente a uma influência flamenga que, não sendo de excluir, se concluiu ser principalmente portuguesa. É ao folclore que se deve actualmente a sua preservação como um dos seus elementos mais elegantes e emblemáticos do traje açoriano.. Helena Ormonde (2006)
2 passar de capote Enganar alguém (Faria, 1997). João Saramago e José Bettencourt (2006)
Bibl. Afonso, J. (1987), O Traje nos Açores. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Acção Social. Giese, W. (1949), Sobre as capas que as mulheres usam nos Açores. Açoreana, Angra do Heroísmo, 4: 302-310. Id. (1961), O Capote. Boletim do Núcleo Cultural da Horta, 2: 379-381. Faria, O. S. (1997), O Nosso Falar Ilhéu. Angra do Heroísmo, Ed. BLU. Ribeiro, L. (1982), O Trajo Popular Terceirense In Obras. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura / Instituto Histórico da Ilha Terceira, I: 205-214. Vasconcelos, J. L. (1926), Mês de Sonho, Conspecto de Etnografia Açórica. Lisboa.
