Capelo

Freguesia do concelho da Horta situada no extremo ocidental da ilha do Faial, e limitada pela freguesia de Praia do Norte, a oriente. GEOGRAFIA Destacam-se os lugares de Capelo, a sede de freguesia, Norte Pequeno, Ribeira do Cabo e Varadouro. A topografia é acidentada por cones de piroclastos vulcânicos e escoadas lávicas, como o *Cabeço do Canto (346 m), o *Cabeço do Caldeirão (346 m), o *Cabeço Verde (488 m) e *Cabeço do Fogo (571 m), com vertentes muito inclinadas. As mais recentes modificações morfológicas desta freguesia datam da última erupção do vulcão dos capelinhos, em 1954. A costa é pouco sinuosa, com saliências da arriba baixa, das quais se destacam a ponta dos Capelinhos e a Comprida. Em 1991 tinha 427 habitantes, entre 636 homens e 705 mulheres (INE, 1991). M. Eugénia S. de Albergaria Moreira (2001)

HISTÓRIA, CULTURA, SOCIEDADE, ECONOMIA Estende-se por uma área de 25,93 km2, ao longo do litoral oeste da ilha e distando da cidade (sede de concelho), cerca de 20 kms.

Fundada no fim do século XVI (1600), tem como orago Nossa Senhora da Esperança, e cujo primitivo templo evocativo, foi totalmente arrasado na erupção que a assolou em 1672.

O nome de Capelo, ao que consta, advém-lhe de amiudadamente surgir, nas elevações que lhe ficam adjacentes, (Cabeço Gordo, Cabeço Verde, Cabeço do Fogo, Cabeço do Trinta), um envolvimento de nuvens com a configuração daquele artefacto religioso.

A erupção de 1958, com uma espectaculosidade alguma vez vista ou pressentida mais recentemente na ilha, alterou profundamente a freguesia numa grande extensão da sua topografia, o que levou a uma perda significativa de rendibilidade da sua fonte económica mais significativa, a terra.

A erupção dos Capelinhos foi, pela sua intensidade e características, manchete na comunicação social do mundo. Surgiu pouco depois uma ilha para além do farol, que deu o nome ao evento, e que ainda lá permanece de pé, solitário e mutilado, a reclamar respeito, que mais não seja pelo seu “orgulho” em manter-se ali firme e, talvez, por durante muitas dezenas de anos, ter sido a conhecença amiga, no acertar de agulhas e no firmar de rotas, para a profusão de navios que lhe perpassaram ao largo, aventurando-se nos mares mais procelosos da Terra, a caminho de Novos Mundos e de mundos novos. Esse conjunto, árido, insólito, medonho e belo, [enquadramento de farol, envolvimento adjacente e Vulcão de Capelinhos, (considerável elevação, construída com escórias e matérias inertes vindas do centro da Terra, constituindo vulcão extinto ou adormecido)], é impar atracção turística e o grande ex-libris da comunidade.

A freguesia, pelo seu clima seco e salubre, pela sua natural ruralidade e preservação dos bens da natureza, (fauna e flora), é zona de veraneio por excelência, (Areeiro, Varadouro) e roteiro obrigatório do crescente Turismo que demanda a ilha, dela fazendo ainda parte, os seguintes povoados e lugares, todos com essa mesma preocupação e apetência, que são a Ribeira do Cabo e o Norte Pequeno.

Do alto das suas maiores elevações (Cabeço Gordo, 1043 m; Cabeço do Trinta; Cabeço do Fogo e Cabeço Verde), em miradoiros estrategicamente localizados, a freguesia oferece diversificadas e bonitas paisagens, encrostadas no verde luxuriante da sua flora intacta (faias, urzes, pau branco, incenso), arribas e vertentes densas de vegetação, indo terminar num mar envolvente e sem fim, de um azul profundo e cismador, que se lhe espraia imenso, para baixo e pela frente.

O Varadouro, com imensa e exuberante baía de costa inacessível, alta e alcantilada, em que o período chuvoso lhe redobra o fascínio (fazendo brotar do cimo, varias cascatas, que se despenham em catadupas no calhau rolado e no mar), possui, para além de um pequeno porto, uma estação termal e balneária (águas hipersalinas com temperaturas que rondam os 35,5º) e uma piscina natural engastada no basalto, sendo a zona de vilegiatura por excelência do Faial. Zona porosa e pedregosa, de Verões quentes e secos, detentora de um apreciável multiclima, que após a grande erupção de 1672 foi aproveitada para a plantação de extensos vinhedos, estes também desaparecidos com o oídio (1854).

Como património arquitectónico possui as igrejas do Capelo (Santa Ana) e do Norte Pequeno (Nossa Senhora da Esperança, 1ª Padroeira da freguesia, em 1600). Ainda a Ermida de Nossa Senhora da Saúde (Varadouro); farol dos Capelinhos (em ruínas, aguardando recuperação para possível instalação de um museu de vulcanologia); Museu do Vulcão; Impérios do Divino Espírito Santo do Capelo; de Norte Pequeno, da Ribeira do Cabo; casa do Conselheiro Terra Pinheiro; e uma Escola Básica.

Festas e Romarias: Santa Ana (3º Domingo de Julho); Divino Espírito Santo (domingo de Pentecostes); Nossa Senhora da Esperança (3º Domingo de Agosto); Nossa Senhora da Saúde (1º Domingo de Setembro).

Com uma população que rondará os 427 habitantes, o que lhe dá o índice de densidade populacional mais baixo da ilha (16,5 por km2, pelo censo de 1991), contrastando com os 1327 habitantes em 330 fogos a que se refere Silveira de Macedo (1871) é, presentemente, apesar das suas características vincadamente rurais e do “êxodo” resultante das várias catástrofes sismológicas, desde 1672 até 1958, (a primeira que a destruiu totalmente, a segunda que derrubou grande parte do seu parque habitacional, e a maior parte da sua área produtiva, subterrando-a com escórias e inertes queimados), é, apesar de tudo, uma das freguesia que se vêm distinguindo pelo marcado dinamismo e pela reconhecida apetência com que encara e desenvolve actividades de carácter sociocultural e de lazer.

Sendo esta uma das freguesias que mais danos sofreu com a erupção de 1958, assistiu, a posteriori, a um desmedido surto de emigração em direcção aos Estados Unidos e Canadá, que terá mesmo ultrapassado os 40 % da população activa, (notando-se nalguns casos, a desertificação de algumas zonas), o que vem sendo paulatinamente compensado com o regressar de alguns emigrantes e a consequente recuperação das suas antigas habitações, destruídas ou abandonadas.

É no sector primário (agricultura e pesca) que a população mais se ocupa e vai buscar a maior parte das fontes de sustento. Outras actividades como restauração, pequeno comércio, artesanato (trabalho em miolo de figueira, escamas de peixe, vide, pintura em seda, rendas, bordados), complementam as fontes económicas mais directas.

Possui uma agremiação desportiva de futebol com campo próprio (União Vulcânico de Futebol); uma associação que zela pela preservação dos valores na zona do farol dos Capelinhos (Amigos do Farol dos Capelinhos); e a Casa do Povo do Capelo. Possui ainda grupos de voleibol, feminino e masculino (Grupo de Voleibol do Capelo); tuna; rancho folclórico. Há periodicamente exposições de pintura, de fotografia, artesanato, e outros eventos de índole cultural, atingindo a maior dimensão na celebração dos 400 anos de elevação a freguesia.

No Porto do Comprido (um pequeno porto e varadouro a nascente do vulcão) existem reminiscências de que a caça ao cachalote era também uma actividade ali bastante praticada há escassas dezenas de anos, actividade que ajudava a complementar a subsistência de um largo sector da população, prática hoje extinta e abandonada por imposição de normas comunitárias.

É nesta freguesia que existe o mais conhecido e aprazível parque da ilha (Parque Florestal do Capelo), em que a par de toda uma flora devidamente identificada e catalogada, onde as endémicas se evidenciam, existe todo um conjunto de artefactos de lazer (edificações típicas, mesas, grelhadores, e respectivos utensílios), para confeccionar refeições ao ar livre, num ambiente paradisíaco, onde não falta o silêncio ou o aliciante gorjeio das aves ali presentes (tentilhões, canários, melros, toutinegras), ou até a presença repousante e amiga de pacíficos e anafados gamos, refastelando-se nos troncos nus, de uma cercania de pinheiros ali a dois passos, vivendo em comunhão com a harmonia da natureza. Humberto Moura (Mar.2001)

 

Bibl. Cortesão, J. (1975), Os Descobrimentos Portugueses. Lisboa, Ed. Livros Horizonte, II. Frutuoso, G. (1963), Livro Sexto das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Instituto Nacional de Estatística (1991), XIII Recenseamento Geral da População. III Recenseamento Geral da Habitação. Dados definitivos. Lisboa, INE. Lima, M. (1943), Anais do Município da Horta. Famalicão, Of. Gráficas Minerva. Macedo, A. L. S. (1981), História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta. Ponta Delgada, Secretaria Regional de Educação e Cultura, III.