Capelas

1 GEOGRAFIA Freguesia do concelho de Ponta Delgada, situada na costa setentrional da ilha de S. Miguel, entre as freguesias de Santo António (a ocidente), Feteiras (a sudoeste), Relva e Arrifes (a sul) e S. Vicente Ferreira (a oriente). Toda a superfície da freguesia é uma encosta pouco inclinada, com uma plataforma quase plana ao longo do litoral, onde se localiza a povoação das Capelas, sede da freguesia. Na parte mais alta situa-se a pequena lagoa de Paul Pique, ainda do sistema das Sete Cidades; os cursos de água , mesmo os principais (ribeiras do Maranhão e das Capelas), são pouco encaixados. O litoral apresenta uma arriba alta, contínua, com um grande calhau na pequena enseada a que fica sobranceira à freguesia; pouco recortado, dele se salienta a grande ponta das Capelas. Em 1991 contava 3509 habitantes, dos quais 1759 homens e 1750 mulheres (INE, 1991). M. Eugénia S. de Albergaria Moreira (2001)

HISTÓRIA, ACTIVIDADES ECONÓMICAS E CULTURAIS Dista cerca de 12 km da sede do concelho. Altas falésias a separam do mar, formando uma recortada baía que oferece condições de abrigo à navegação, faz trepar os seus arruamentos até à serra, cuja semelhança com uma mão espalmada, se faz notar do sobranceiro morro que a domina.

As condições especiais do seu relevo e da sua situação geográfica permitem a esta localidade ter um clima sadio e ameno, por muitos classificado como um autêntico micro-clima, cujo ar puro, seco e perfumado, a que não é alheia a sua cobertura vegetal, onde dominam as quintas de variadas espécies frutíferas, fazem das Capelas um lugar procurado por nacionais e estrangeiros que necessitam de repouso e apreciam a calma ambiental. Com 3879 habitantes, ocupando mil e duzentos fogos, faz distribuir sectorialmente os seus activos pelos serviços, agro-pecuária, comércio e construção civil. A proximidade da cidade de Ponta Delgada, principal centro económico, social e político da ilha de S. Miguel e dos Açores, garantem o equilíbrio sócio-económico da sua população e fazem das Capelas um lugar apetecível para residir.

As Capelas a cuja origem do nome Gaspar Frutuoso nas Saudades da Terra se refere nos seguintes termos: «Dizem alguns que se chamam Capelas, não porque tenham naquela parte feitas algumas igrejas nem capelas, senão porque um dia de S. João fizeram uns homens ali umas capelas, deixando-as por esquecimento dependuradas numa árvore; quando depois nomeavam aquele lugar, lhe chamavam as Capelas, pelas que nele deixaram. Outros dizem com mais verdade chamarem a estas terras Capelas, porque eram criações de gado vacum e miúdo; [...]; antre o qual gado [...] duas vacas toucadas ou pintadas de branco pela cabeça, à maneira de capelas, pelo que lhe chamavam de capelas por assim parecerem com aquela malha branca que tinham na cabeça, [...] dos nomes das vacas tão celebrados entre eles, ficou ao sítio, onde andavam, Capelas por nome».

Os irmãos Bullar (1995), referem também a sua opinião acerca do nome Capelas: «Na manhã seguinte, com tempo quente e agradável, sem vento nem sol, partimos cedo a ver as Capelas, rochedos que se estendem pelo mar, e cujas formas caprichosas, moldadas pela acção das ondas e do tempo, lhes deram remota semelhança com capelas ou ermidas».

Povoada no século XVI e elevada a paróquia a 11 de Julho de 1592 sob proposta do Bispo de Angra, D. Manuel Gouveia, as Capelas foram desanexadas do concelho de Vila Franca do Campo em 1515, passando a pertencer ao concelho de Ponta Delgada, até à data em que foi elevada à categoria de vila sede de concelho, conforme Carta de Lei sancionada por D. Maria II, a 3.7.1839.

Sob a administração do novel concelho ficaram as freguesias de Capelas (cabeça de concelho), Fenais da Luz, S. Vicente, Santo António e Bretanha, ficando o exercício da justiça na dependência da comarca da Ribeira Grande e a coordenação eclesiástica a cargo do priorado de Nossa Senhora da Apresentação das Capelas.

Na formação do concelho das Capelas foi determinante a influência política do barão das Laranjeiras, ao tempo administrador-geral do Distrito Oriental dos Açores e de cidadãos ilustres do concelho de Ponta Delgada, também eles desejosos de juntar influência política à sua riqueza fundiária, como foram os casos do comendador Francisco Lopes Soeiro de Amorim, que foi procurador fiscal e administrador do novo concelho e o morgado André Manuel Álvares Cabral, que foi membro da Comissão Instaladora do Concelho e vereador municipal.

Volvidos poucos anos e verificando-se a carência de recursos que obrigava os munícipes a excessivas contribuições e perante o mau funcionamento da administração local, o governador civil de Ponta Delgada, em conselho de distrito, propôs a supressão do concelho das Capelas, proposta que foi bem acolhida no Ministério dos Negócios do Reino que, estando a realizar uma reforma administrativa do país aproveitou a proposta e, por Decreto-Lei datado de 2.7.1853, suprimiu o concelho das Capelas, determinando que as suas cinco freguesias passassem a pertencer ao concelho de Ponta Delgada. Tal supressão não foi contudo extensiva à sua titulação de vila, nobilitação que ainda hoje ostenta.

Um fontanário destinado ao abastecimento público de água na freguesia dos Fenais da Luz, com data de construção de 1851, situado a sul da Igreja Paroquial daquela localidade, testemunha o efémero período do concelho das Capelas.

Marcando presença ordenadora do espaço envolvente, a igreja matriz de invocação a Nossa Senhora da Apresentação, com data de fim de construção em 1780, bem como pequenas ermidas e capelas como as de Nossa Senhora da Conceição, Anjo da Guarda, Santa Rita, Nossa Senhora do Rosário e Santa Ana, todos com data de fim de construção no século XVIII, que conjuntamente com os seus pequenos templos de invocação ao Divino Espírito Santo, construídos em datas mais recentes, dão testemunho do profundo sentimento religioso das suas gentes e enriquecem o património arquitectónico da freguesia.

Tal como outras localidades da ilha de S. Miguel, as Capelas viveram grande parte do século XIX, sob o signo da “economia da laranja”. Este citrino que era cultivado em quintas muradas a pedra, constituindo também hoje um património paisagístico a preservar, chegava ao porto de Ponta Delgada, para posterior exportação, por via terrestre e por via marítima, fazendo-se neste último caso os embarques no chamado “baixio da laranja”, hoje designado por “baixio do pesqueiro”.

Assinalando esse período de pujança económica, foram construídos nas Capelas belos e harmoniosos solares, como o do conde dos Fenais e um conjunto apreciável de casas apalaçadas representativas da arquitectura civil do século XIX, para onde ilustres famílias da sociedade micaelense se deslocavam em prolongadas estadias, procurando conciliar uma gestão de proximidade dos extensos laranjais, com a amenidade climática da zona, muitas vezes recomendada clinicamente.

A paisagem da freguesia é ainda hoje marcada pelo que foram «Altos, grandes e esbeltos», moinhos de vento de “torre”, como diz Ernesto Veiga Oliveira nas notas do livro Açores e Porto Santo, cuja tipologia se divide entre o tipo “holandês” e o moinho francês das regiões do norte, os moulins, moinhos que indiciam que nos finais do século XIX princípios do século XX, a principal riqueza retirada da terra passava a ser o milho.

Foi também no último quartel do século XIX que se deu o início da actividade baleeira na freguesia no lugar designado de Calhau Miúdo, onde chegaram a operar duas companhias, a Companhia Velha e a Companhia Nova, cada qual laborando em fabriquetas artesanais, visando essencialmente a produção de óleo de baleia destinado à exportação.

Já no segundo quartel do século XX, mais precisamente em 1945, as duas companhias sujeitaram-se a um processo de fusão empresarial, para levarem a cabo a construção de uma grande “fábrica da baleia”, situada no lugar dos Poços, sendo este lugar escolhido pela sua fácil acessibilidade quer por terra, quer por mar.

A actividade baleeira prolongou-se até 1973, altura em que passou a ser condenada pelas leis internacionais e foi posta em causa a sua rendibilidade económica. De salientar que a caça à baleia sempre conviveu de perto com a actividade piscatória que se desenvolveu na freguesia, sem contudo serem confundidas, uma vez que os baleeiros reservavam para si um estatuto sócio-económico mais elevado, decorrente do carácter assalariado que tinham e da coragem que reclamavam ser dotados para serem baleeiros. O desejo de transformação da já degradada fábrica em museu baleeiro continua a ser uma das principais reivindicações da freguesia.

Esquecida do gosto pelo teatro e da música das orquestras, que marcaram uma intensa actividade cultural nos finais do século XIX e início do século XX e das folias do Espírito Santo, a agenda cultural da freguesia é presentemente marcada pela já centenária filarmónica Banda União dos Amigos, (fundada em 1879), pelo Grupo Folclórico da Escola Básica 2, 3 de Capelas, pelo Grupo de Cantares Belaurora e pelos sempre apreciados cantadores ao desafio.

Mais voltada para as questões sociais, as Capelas têm como referência a casa de Trabalho Jesus, Maria e José, onde funciona uma creche, e a Casa do Gaiato, para acolhimento de crianças e jovens, tendo em anexo O Calvário, para acolhimento de idosas.

Dotada de razoáveis equipamentos escolares para a educação das suas crianças e jovens, a freguesia possui hoje dois núcleos de Ensino Básico 1, uma Escola Básica 2, 3 e uma Escola de Formação Profissional.

Beneficiando de uma considerável área classificada no Plano Director Municipal reservada a investimentos na área do turismo, as Capelas, tal como toda a Região, fazem as suas apostas de desenvolvimento nesse sector, nomeadamente procurando dar resposta a um turismo mais vocacionado para apreciação das envolvências ambientais. André Viveiros (2001)

2 Lugar sede da mesma freguesia, onde se concentra a população. Ponta das Capelas Saliência estreita da costa da ilha de S. Miguel, situada na parte oriental de Morro das Capelas (freguesia das Capelas), limitada por uma arriba alta que culmina a 72 m de altura. Ribeira das Capelas Curso de água da costa norte da ilha de S. Miguel (freguesia das Capelas), que nasce no planalto central, entre os picos do Boi e dos Espigões, junto à lagoa das Achadas. Recebe, na margem direita, um pequeno afluente; desce a encosta num vale pouco encaixado e desagua a oriente da ponta das Capelas. M. Eugénia S. de Albergaria Moreira (2001)

 

Bibl. Apontamento Histórico Etnográfico - São Miguel/Santa Maria (1992), Ponta Delgada/ Direcção Escolar de Ponta Delgada, V. Bullar, J. e Bullar, H. (1995), Um Inverno nos Açores e um Verão no Vale das Furnas. 2ª ed., Ponta Delgada. Instituto Nacional de Estatística (1991), XIII Recenseamento Geral da População. III Recenseamento Geral da Habitação. Dados definitivos. Lisboa, INE. Supico, F. M. (1995), Escavações. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, I-II.