Canto, João da Silva do

 [N. Lisboa, 10.3.1518 – m. 30.11.1577] Nasceu na Castanheira, termo de Lisboa, e residiu em Angra. Era filho do segundo casamento de Pero Anes do *Canto com Violante da Silva, filha das segundas núpcias de Duarte Galvão, cronista-mor do reino, com D. Catarina de Meneses e Vasconcelos (por alguns dada por Catarina Silva). Obteve alvará de filhamento de moço fidalgo, com moradia de mil reais por mês e um alqueire de cevada por dia. Pelo serviço de dois anos em Ceuta, entre 1546 e 1548, recebeu comenda da Ordem de Cristo da igreja de Coja, bispado de Coimbra, a 25 de Fevereiro de 1551. Foi capitão mor das armadas nas ilhas, provedor da fazenda, provedor das fortificações, capitão mor de Angra e também serviu de provedor das armadas. Conhecemo-lo ocupando as ditas funções na ausência de seu irmão António Pires do *Canto e por provisão de 1562, mas também após o falecimento daquele (1565), em lapsos de tempo anteriores à nomeação do sobrinho (1575), Pedro de Castro do Canto, na altura menor de idade e de quem foi, aliás, um dos tutores. Casou com Isabel Correia, de S. Miguel, filha de Jácome Dias Correia e de Brites (Beatriz) Rodrigues Raposo. Do enlace nasceu Violante do *Canto, heroína célebre da causa de D. António, Prior do Crato. Regista a tradição ter tido ainda três filhas fora do casamento, destacando-se uma delas, Maria da Silva, legitimada e que veio a casar-se com Manuel Borges da Costa. Por documento de 1626, confirma-se a existência reconhecida de uma filha bastarda, Vitória da Silva, com descendência e já falecida. Já por testamento apenas reconheceu um filho natural, de nome António da Silva. A este destinou, por quinze anos, uma renda anual de doze mil reais para formação num colégio jesuíta. Deixou larga fazenda própria a sua única herdeira, a qual também foi sucessora na administração do segundo vínculo instituído por Pero Anes do Canto. Levantou «protestações» e manifestou discordância no tocante aos bens vinculados por seu pai, nomeadamente por cédula testamentária, apesar de ter subscrito, em 1544, com seu irmão, concordância relativa às disposições vinculares. Após a morte do progenitor terá pautado o relacionamento com o irmão por «malquerenças e quebras», isto segundo o testamento de António Pires do Canto. Por sua própria cédula testamentária reconhece, também, que nas partilhas dos bens não vinculados havia perdido muito do que por direito lhe assistia. Manteve assim, e como ficou documentado, uma atitude de insatisfação e de injustiça no concernente à respectiva herança. Infelizmente, nada se conseguiu até hoje encontrar que comprovasse a sua razão. Foi no entanto, e como já referimos, senhor de imensa fortuna, herdada e própria, constituída por bens móveis e imóveis, prédios rústicos e urbanos, escravos e gado, localizada nas ilhas da Terceira, S. Jorge, Faial e Pico. Foi também, e por disposição testamentária de sua mulher, administrador da respectiva terça antes da maioridade da filha de ambos, constando dela alguns quinhões e herdade em S. Miguel. Para além do destaque a nível patrimonial, foi homem de imenso prestígio na ilha Terceira, inclusive no âmbito da sua acção em prol da comunidade e das instituições da época. Interveio no processo da iniciativa de construção da Sé nova de Angra, consignou um fundo para o efeito, foi fundador, doador benemérito e provedor da Misericórdia da mesma cidade, cedeu as casas e igreja onde se fundou o Colégio dos Jesuítas e, em grande parte, às suas custas foi construído o cais do porto das pipas. De Frutuoso a Drummond, os cronistas das ilhas não deixaram de destacar estes seus empenho, poder, riqueza e perfil elevados. Rute Dias Gregório (2002)

 

Bibl. Biblioteca Pública e Arquivo Regional (Ponta Delgada). Fundo Ernesto do Canto, Colecção de papéis de Pero Anes do Canto e de seu filho António Pires do Canto, nº 10. Id., ibid., Manuscritos da Casa de Miguel do Canto e Castro, vol. VIII, nº 224, vol. X, nº 291. Id., ibid., Provedoria dos Resíduos de Ponta Delgada, Autos de Prestação de Cartas de Instituições Vinculares e Legados Pios, maço nº 61, processo nº 535. Arquivo dos Açores (1980, 1981), Ponta Delgada, Universidade dos Açores, I: 135-137, IV: 141-142. Chagas, D. (1989), Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores. [S.l.], Direcção Regional da Educação e Cultura/Universidade dos Açores. Drummond, F. F. (1981) Anais da Ilha Terceira. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura, I. Id. (1990), Apontamentos Topográficos, Políticos, Civis e Eclesiásticos para a História das nove ilhas dos Açores servindo de suplemento aos Anais da Ilha Terceira. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira. Frutuoso, G. (1978), Livro Sexto das Saudades da Terra. 2ª edição, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Forjaz, J. P. (1978), O Solar de Nossa Senhora dos Remédios: História e Genealogia. Reconstituição erudita (histórica e genealógica) da família Canto e Castro. Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, XXXVI: 5-210. Gregório, R. D. (2001), Pero Anes do Canto: um Homem e um Património (1473-1556). Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Maldonado, M. L. (1989), Fenix Angrense. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, I.