Canto, António Pires do

 [N. Angra, 11.6.1511 – m. Ibid., ?.5.1565] 2º provedor das armadas nas ilhas. Filho primogénito de Pero Anes do *Canto e de Joana de Abarca, nasceu e residiu na cidade de Angra. Faleceu pouco antes de 11 de Maio de 1565, data em que foi feito o inventário de seus bens a mando dos juízes dos orfãos. Obteve alvará de filhamento de moço fidalgo, com moradia de mil reais por mês e um alqueire de cevada por dia, a 12 de Setembro de 1527. Esteve presente nas campanhas norte-africanas, indo em socorro de Tânger no ano de 1531 e passando a Arzila em 1537. Pelos serviços prestados em nome da fé obteve a comenda de S. Domingos de Jeremelo, arcebispado de Braga, a que renunciou no ano 1551. Foi, pelos mesmos motivos e por renúncia da anterior, comendador de S. Cosme de Azere, Arcos de Valdevez, pelo qual recebia rendimentos ainda em 1564. Neste mesmo ano, e em seu testamento, invocou o arrendamento de outra comenda de S. Domingos, esta, ao que parece, no termo da Covilhã. Serviu de capitão mor das armadas que aguardavam e protegiam as naus provenientes da Índia, Mina, Guiné e Brasil. Foi nomeado provedor das armadas das ilhas por alvará régio de 26 de Março de 1560, sucedendo a seu pai. Teve contudo autorização para exercer o cargo desde 6 de Abril de 1552, ainda em vida do progenitor e em caso de ausência ou impedimento deste último (na altura já com 80 anos). Não obstante, pelo menos em 1546 foi dado como «provedor», no quadro de uma acusação grave que lhe fez o feitor régio João Simão de Sousa. Segundo este último, António Pires e outros, a mando de Pero Anes do Canto, ter-se-ia envolvido na fuga da prisão do contador Manuel Pacheco, detido por incorrecções no desempenho das respectivas funções. Para além deste episódio, e agora no desempenho oficial da provedoria foi, em 1562, chamado à presença régia pela acusação de «ter feito o que não devya», provavelmente por ter ido com D. Jorge de Santiago, bispo de Angra, junto do galeão da Mina da armada de 1561, do qual caso foram inquiridas testemunhas. Casou-se, em 1544, na cidade de Lisboa, com Catarina de Castro, filha de D. Francisco de Castro, Governador de Santa Cruz do Cabo de Gué, e de D. Joana da Costa. Foi dotado pelo pai com cem mil reais por ano, para fazer face às despesas com o casamento, e na condição de herdeiro de morgadio. Apesar disto, desde cedo (antes de 1540) vemo-lo investir em propriedades do progenitor e no ano de 1554 foi mesmo referido como administrador de Pero Anes do Canto. Teve pelo menos seis filhos legítimos, alguns falecidos de tenra idade, dos quais deixaram geração: Jerónima de Castro, Joana de Castro do Canto e Pedro Anes do Canto (segundo de nome) ou Pedro de Castro do Canto. De Isabel Duarte, que mais tarde dotou e casou com Pedro Ribeiro, teve um filho natural de nome António do Canto, reconhecido por testamento. A António Pires do Canto se deve a construção da ermida de Nossa Senhora dos Remédios em Angra, acabada de eregir em 1540 (ainda em vida de seu pai) e com primeira missa de 25 de Março do mesmo ano. Junto a esta igreja, e a partir de algumas casas já existentes ao tempo do progenitor, erguer-se-ia mais tarde o solar do mesmo nome. Foi administrador do primeiro vínculo instituído por Pero Anes do Canto, cuja cabeça era a quinta de S. Pedro nos Biscoitos (Terceira). O mesmo morgadio compunha-se ainda de terra nos Altares (Ribeira da Lapa, S. Roque) e por terras, casas e foros do Corpo Santo (Angra). Em termos de rendas anuais podia o mesmo, e segundo os seus próprios cálculos, ultrapassar o valor de um conto. Herdou igualmente inúmeros prédios rústicos e urbanos na Terceira, S. Jorge, Faial e Pico, não vinculados, tal como bens móveis, gado e escravos. Por sua morte reverteu duas partes da terça dos seus bens de raiz, então significativamente cumulados, para o dito morgadio que passou a seu filho menor (e nas pessoas de seus procuradores) Pedro de Castro do Canto, futuro provedor das armadas. Rute Dias Gregório (2002)

 

Bibl. Biblioteca Pública e Arquivo Regional (Ponta Delgada), Fundo Ernesto do Canto. Manuscritos da Casa de Miguel do Canto e Castro, vol. VII, nº 204 e 209. Id., Ibid., Colecção de papéis de Pero Anes do Canto e de seu filho António Pires do Canto, nº 10 e 11. Arquivo dos Açores (1980-1981), Ponta Delgada, Universidade dos Açores, I: 138, IV: 142, VI: 282-285. Forjaz, J. P. (1978), O Solar de Nossa Senhora dos Remédios: História e Genealogia. Reconstituição erudita (histórica e genealógica) da família Canto e Castro. Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, XXXVI: 5-210; Gregório, R. D. (2001) Pero Anes do Canto: um homem e um património (1473-1556). Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada.