cantar às almas

Devoção popular das mais antigas que se manteve entre nós até meados do século XX. Na ilha de S. Miguel, dizem: “Cantar às almas”, “Lembrar as almas” e “Apregoar as almas”. Na Terceira, empregam a expressão: “Pedir para as almas”.

Esta devoção, em que o clero não tinha lugar, ocorria durante a Quaresma, em certos dias da semana, divergindo, em alguns aspectos, dumas localidades para outras. De noite iam três, cinco ou sete homens pedir para as almas, sempre em número ímpar, de xailes ou mantos pela cabeça e sem poderem falar a mais ninguém. Juntavam-se num sítio combinado que, segundo alguns, era junto às Estações da “Via Sacra” e, outros, à porta da igreja. Daí partiam, de preferência, para três pontos mais elevados da freguesia, a fim de que pudessem ser ouvidos pelas pessoas. Donde quer que saíssem, diziam numa cantilena arrastada e monótona: “Devotos e fiéis cristãos, amigos de Nosso Senhor Jesus Cristo, pousai os joelhos em terra e os olhos em Jesus Cristo, e rezemos um Padre Nosso e uma Avé Maria à Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo!”. E sob o toque insistente e quase sinistro duma campainha, convidavam as pessoas que estavam ali ou em suas casas, a rezar com eles. Depois diziam: “Rezemos outro Padre Nosso e outra Avé Maria pelas Almas que sofrem nas penas do Pregatório. Rezemos outro P.N. e outra A.M. pelas criaturas que estão nas agonias da morte. Rezemos outro P. N e outra A.M. pelos que estão em pecado mortal. Rezemos outro P.N. e outra A.M. por todos os que andam sobre as águas do mar, p’ra que Nosso Senhor os deixe chegar a porto e salvamento. Rezemos outro P. N. e outra A. M. ao Senhor Esp' rito Santo pelos seus devotos.” Quando os penitentes se dirigiam para os locais onde pediam pelas almas, diziam alguns versos. Borges Martins (Abr.2001)