cantadores
Poetas populares que, nos arraiais, folias e demais festejos, improvisam cantigas para um público que os ouve e aplaude com entusiasmo. Ainda hoje a cantoria, expressão que o açoriano designa por desafio, constitui uma das solicitações do povo das freguesias rurais, praticado nas ilhas do arquipélago, especialmente na Terceira e em S. Miguel.
A cantoria é um autêntico torneio poético em que dois ou mais improvisadores cantam ao ritmo estimulante da viola da terra, usando como única arma ofensiva a redondilha maior. Durante horas seguidas, o par de cantadores defronta-se com um tema que surge de momento. Esta é a principal razão por que não estudam os seus versos, dada a impossibilidade evidente de prever o assunto, condicionado por um dito ou uma referência.
De facto, muitas vezes os cantadores provocam-se, descobrindo mutuamente as suas fraquezas e defeitos, de tal modo que o público menos habituado a esses debates, receia desfechos violentos como, por exemplo, aconteceu quando o Chico da Vila se dirigiu ao Manuel Borges Pêcego: «Já te vi um dia, Borges, / De tal forma embriagado / Deitado numa valeta / E pelos porcos fossado», ao que este respondeu: «Ó homem, andaste mal, / Porque bem não me fizeste; / Foste tu o principal, / Até dentadas me deste.»
Mas no mesmo instante, o clima de tensão desaparece e os cantadores elogiam-se mutuamente, amigos como sempre. E o desafio termina em paz, com um sincero aperto de mãos. Borges Martins (Abr.2001)
