cangas
As cangas açorianas estão classificadas entre os jugos de tracção jugular, mas é pela acentuação das suas curvaturas que estas se distinguem, segundo E. Veiga de Oliveira (Oliveira et al., 1987).
Estes jugos, destinados à atrelagem do arado, das sóleas do trilho ou do carro de bois, compõem-se basicamente por: um meio ou camalhão que é recortado no bordo superior e nos lados, respectivamente pelos moirões e pelos malhetes, onde passam as correias do tamoeiro; e os lados recortados no bordo inferior por concavidades que pousam sobre os pescoços dos animais, a que se chamam de cangueiras ou tranqueiras. Em cada um dos lados destas concavidades encontram-se os vasados por onde se enfiam os canzis, peças arqueadas para frente, mais grossas na metade superior e dentadas no bordo externo da metade inferior, de modo a prender as correias de couro, as brochas, que ajudam a fixar a canga ao cachaço dos bois.
As diferenças expressas nas curvaturas da trave que as constitui verificam-se no sentido vertical, bordos superior e inferior, ou, no sentido horizontal, frente-costas. Assim, e segundo Veiga de Oliveira, temos um tipo de canga em que o bordo inferior do centro é linear e em que existem, apenas, as curvaturas nos bordos superior e inferior ou, apenas, inferior dos lados; um outro muito frequente em que o bordo inferior do centro tem uma curvatura saliente para baixo; e um último em que o meio é recuado face aos lados. Este caso diz respeito a Santa Maria e à Graciosa, em que o camalhão difere ao formar um bloco saliente para a frente e para cima.
De um modo geral as cangas variam também de acordo com as funções a que se destinam. As mais largas e menos pesadas servem para os arados, grades e trilhos, enquanto as mais estreitas, mas mais pesadas, são usadas para o carro de bois. Carreiro da Costa regista no entanto uma diferença entre a canga de tamoeiro e a canga de fuzil, sendo esta munida de um gancho que substitui o tamoeiro na atrelagem.
Ao contrário de outras regiões do país, as cangas açorianas não apresentam elementos decorativos significativos, à excepção da ilha Terceira, onde Luís Ribeiro observou exemplares representativos de uma verdadeira arte popular, designados por isso cangas de luxo. Enquanto noutras ilhas a decoração da canga se resumia a algumas marcas de posse ou de sorte o sino-saimão, uma cruz ou uma simples roseta , na ilha Terceira algumas cangas eram profusamente trabalhadas à navalha ou à goiva, apresentando sinos-saimão, cruzes com bases triangulares ou semicirculares, rosáceas inscritas em círculo, polígonos estrelados, iniciais, datas de feitura e painéis de motivos geométricos que se estendiam à metade superior dos canzis, e, mais recentemente, um certa diversidade de motivos figurativos. Independentemente destas preocupações artísticas, mais ou menos exclusivas da ilha Terceira, as cangas eram enfeitadas para figurar nas festividades do Espírito Santo em todas as ilhas. Helena Ormonde (Mai.2001)
Bibl. Costa, F. C. (1947), Alfaias agrícolas micaelenses. Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, Ponta Delgada, 6: 85-90. Oliveira, E. V., Pereira, B. e Galhano, F. (1987), Tecnologia Tradicional Agrícola dos Açores. Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica. Ribeiro, L. (1982), Cangas de bois nos Açores In Obras. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura / Instituto Histórico da Ilha Terceira, I: 159-170.
