canário-da-terra

Nome vulgar da espécie de ave Serinus canarius, sub-espécie S. c. canarius (Fringillidae), segundo Bannerman e Bannerman (1966), também conhecida por canário (Chavigny e Mayaud, 1932; Godman, 1870). Esta espécie habita as Canárias e a Madeira de onde, segundo Bannerman e Bannerman (1966), se terá expandido ou de onde terá sido introduzida no arquipélago açoriano. É muito frequente em todas as ilhas, embora menos comum nas Flores e no Corvo. Pelo menos em S. Miguel, ocorre desde o nível do mar até às regiões mais altas em todos os tipos de terreno, cultivados ou abertos e mesmo em matas de criptoméria, preferencialmente em jardins e campos nas partes mais baixas das ilhas, muitas vezes em bando mas frequentemente isolado.

Tem íris castanha; bico com a ponta da mandíbula superior escura e a da inferior clara; patas de cor castanha clara (Hartert e Ogilvie-Grant, 1905).

Alimenta-se, preferencialmente, de sementes de relva, de ervas daninhas e de culturas mas é conhecido o seu gosto particular por sementes de figo (Godman, 1870; Bannerman e Bannerman, 1966).

A época de reprodução começa cedo. Hartert e Ogilvie-Grant (1905) encontraram, em Março, um ninho em construção, em Ponta Delgada, e jovens capazes de voar, em Maio, no Pico. Não termina antes de Julho. A Oxford Women's Expedition (Bennell, 1963) encontrou jovens com os pais em Julho. Os ninhos são quase totalmente construídos com musgo e forrados, interiormente, com penas e pêlos (Hartert e Ogilvie-Grant, 1905) mas também por outros materiais, como fibras de raizes, relva e gravetos de Erica, variando de acordo com o disponível nas proximidades (cf. Bannerman e Bannerman, 1966) e geralmente colocados sobre árvores, nomeadamente, laranjeiras, faias, cameleiras e bananeiras, entre 2,5 m e 6 m acima do solo, mas também podendo ocorrer em mato cerrado a altura inferior.

Os ovos são de cor variável, em fundo, ou acinzentado-esbranquiçado ou branco tingido de pequenas manchas e linhas onduladas irregulares, mal definidas, tendo por base a cor purpúrea-castanha; outros são cobertos irregularmente com pequenos pontos e manchas de cor purpúrea-vermelha pálida ou manchas e pontos pequenos, indistintos, de vermelho claro (Hartert e Ogilvie-Grant, 1905; Bannerman e Bannerman, 1966).

Quando a estação de postura termina, juntam-se com verdilhões e pintassilgos que divagam em bandos mistos.

Sempre em movimento, os machos perseguem-se, constantemente, uns aos outros e às fêmeas. Cantam sucessivamente, tanto em repouso como em vôo, com as gargantas distendidas e as asas batendo compassadamente (Hartert e Ogilvie-Grant, 1905). Devido ao seu canto era, frequentemente, capturado e mantido em cativeiro. Muitos foram vendidos a bordo de barcos que escalavam as ilhas para aprovisionamento (Godman, 1870). Ainda recentemente eram apanhados com redes e outras armadilhas e vendidos nalguns restaurantes como manjar (Bannerman, 1973). Considerada uma ave nociva para a agricultura, a sua sobrevivência tornou-se ameaçada pela caça que lhe foi dirigida. Também as mudanças na cobertura vegetal das ilhas e a substituição da agricultura tradicional por outras actividades, nomeadamente pelo estabelecimento de pastagens, levou à destruição extensiva do habitat da espécie. Todavia, é considerada não-ameaçada pelo Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (SNPRCN, 1990). Luís M. Arruda (2001)

 

Bibl. Bannerman, D. (1973), On the great interest to zoologists of the fauna of the Portuguese islands of the eastern Atlantic and the importance attached to their conservation, with special relation to the birds In Livro de homenagem ao Prof. Fernando Frade por ocasião do seu 70º aniversário. Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar: 99-117. Bannerman, D. A. e Bannerman, W. M. (1966), Birds of the Atlantic Islands, vol. 3: A History of the Birds of Azores. Edimburgo e Londres, Oliver & Boyd. Bennell, J. (1963), Report of the Oxford University Women's Azores Expedition, 1960. Chavigny, J. e Mayaud, N. (1932), Sur l’avifaune des Açores. Généralités et Etude contributive. Alauda (2), 4: 416-441. Godman, F. C. (1870), Natural History of the Azores or Western Islands. Londres, John van Voorst. Hartert, E. e Ogilvie-Grant, W. R. (1905), On the Birds of the Azores. Novitates Zoologicae, 12: 80-128. Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza (1990), Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, vol. I: Mamíferos, Aves, Répteis e Anfíbios. Lisboa, SNPRCN.