Canárias, relações com as

O arquipélago das Canárias foi o primeiro a ser conhecido dos europeus e a merecer a ocupação europeia. Das expedições do século XIV ficaram apenas os relatos, enquanto no século XV com Jean de Betencourt inicia-se o processo de vinculação europeia. Às Canárias sucedeu a Madeira que mereceu ocupação portuguesa. Foi a partir daqui que os portugueses a mando do Infante D. Henrique intervieram no processo de conquista de algumas ilhas, sem sucesso.

Os Açores surgem depois, mas só na década de setenta do século XV vão ser alvo de atenção dos europeus. Deste modo os Açores ficaram de fora do processo que esteve na origem das pretensões hierárquicas pela posse das Canárias. Todavia isto não impediu os açorianos de se aproximarem de algumas ilhas das Canárias, como foi o caso de Tenerife, Lanzarote, Fuerteventura, Gran Canaria e La Palma. A presença açoriana far-se-á notada ao longo do século XVI fruto do estreitamento das relações entre as diversas ilhas de ambos os arquipélagos. Embora os contactos incidam nas ilhas mais destacadas (S. Miguel, Terceira, Tenerife e Gran Canaria) a presença de vizinhos nas e das outras ilhas é visível.

O movimento das populações açorianas rumo às Canárias revela que estas exerciam uma certa atracção. Agricultores, marinheiros, mercadores, gentes do ofício ou assalariados são uma constante na vida destas ilhas das Canárias. Ao inverso o movimento é distinto e sem o mesmo vigor. Das populações indignas surgem dados avulsos sobre escravos guanches em S. Miguel. Dos europeus o de mais significativo foi Maria Betencourt que por ser casada com Rui Gonçalves da Câmara, filho do primeiro capitão do Funchal, acompanhou o marido na posse e administração da capitania da Ilha de S. Miguel.

A maior parte dos açorianos que saem são do sexo feminino e acabam por estabelecer segunda família nas ilhas onde se fixam. De entre estes alguns foram acusados pela inquisição de Las Palmas por bigamia.

Emigração A mobilidade social é uma característica da sociedade insular. O fenómeno da ocupação atlântica lançou as bases da sociedade e a emigração ramificou-a e projectou-a além Atlântico. As ilhas foram assim, num primeiro momento, pólos de atracção, passando depois a actuar como áreas centrífugas. A novidade aliada à forma como se processou o povoamento, activaram o primeiro movimento. A desilusão, as escassas e limitadas possibilidades económicas e a cobiça por novas e prometedoras terras, o segundo surto.

Nesta diáspora atlântica, iniciada na Madeira, é de referenciar o caso da emigração inter-insular dos arquipélagos do Mediterrâneo Atlântico. As ilhas, pela proximidade e forma similar de vida, aliadas às necessidades crescentes de contactos comerciais, exerceram também uma forte atracção entre si. Madeirenses, açorianos e canários não ignoravam a condição de insulares e, por isso mesmo, sentiram necessidade do estreitamento destes contactos.

Um dos aspectos reveladores das conexões madeirenses e açorianas foi o relacionamento com as Canárias. Para Perez Vidal a presença portuguesa no arquipélago resultou da sua intervenção em dois momentos decisivos: um primeiro, demarcado pelas acções da coroa e do infante D. Henrique, nos séculos XIV e XV que terá o seu epílogo em 1497 com o tratado de Alcáçovas; o segundo, de iniciativa particular, abrangendo os séculos XVI e XVIII, em que os impulsos individuais se sobrepõem à iniciativa oficial. Este último foi o momento de expressão plena da presença lusíada e do seu paulatino definhar em face da Restauração da monarquia portuguesa e da guerra de fronteiras mantida até 1665.

A expedição de Jean de Betencourt em 1402 marca o início da conquista das Canárias enquanto a sua subordinação à soberania da coroa castelhana e o reconhecimento em 1421 pelo papado desta nova situação fez reacender a polémica do século XIV. Ao infante português restavam apenas duas possibilidades: a solução diplomática, fazendo valer os seus direitos junto do papado e o recurso a uma intervenção bélica, legitimada pelo espírito de cruzada que a ela se pretendia associar. Desta última situação resultaram as expedições de D. Fernando de Castro (1424 e 1440) e de António Gonçalves da Câmara (1427). Mas em todas as frentes as conquistas foram efémeras e de pouco valeu, por exemplo, a compra em 1446 da ilha de Lanzarote a Maciot de Bettencourt, por 20.000 reais brancos ao ano e regalias na ilha da Madeira. Disso apenas resultou a ramificação desta importante família à Madeira e, depois, aos Açores. O litígio encerra-se em 1480 com a assinatura de um tratado em Toledo. Desde então a coroa portuguesa abandona a sua reivindicação pela posse dessas ilhas com garantias de que a burguesia andaluza não se intrometerá no trato da Guiné.

Esta corrente migratória resultante do descontentamento gerado em face da conquista e ocupação do arquipélago canário iniciara-se já por volta de meados do século XV, sendo seu arauto Maciot de Bettencourt. O sobrinho do primeiro conquistador das Canárias, amargurado com o evoluir do processo e em litígio com os interesses da burguesia de Sevilha, cedeu o direito do senhorio de Lanzarote ao infante D. Henrique mediante avultada soma de dinheiro, de fazendas e regalias na Madeira. Iniciava-se assim uma nova vida para esta família de origem normanda que das Canárias passa à Madeira e aos Açores, relacionando-se aí com a principal nobreza da terra, o que lhe valeu uma lugar de relevo nas sociedades madeirense e micaelense do século XV.

Acompanharam o desterro de Maciot de Bettencourt a sua filha Maria e os sobrinhos e netos Henrique e Gaspar. Todos eles conseguiram uma posição de prestígio e avultadas fazendas mercê do relacionamento matrimonial com as principais famílias da Madeira. D. Maria Bettencourt, por exemplo, casou com Rui Gonçalves da Câmara, filho segundo do capitão do donatário do Funchal e futuro capitão do donatário da ilha de S. Miguel.

A compra em 1474 por Rui Gonçalves da Câmara da capitania da ilha de S. Miguel implicou a ramificação da família aos Açores. Com D. Maria Bettencourt seguiu para Vila Franca o seu sobrinho Gaspar, que mais tarde viria a encabeçar o morgadio da tia em S. Miguel, avaliado em 2.000 cruzados.

O impacto lusíada nas Canárias surgiu muito cedo tendo a Madeira como um dos principais eixos do movimento. A presença alargou-se às ilhas de La Palma, Lanzarote, Tenerife e Gran Canaria. Os portugueses assumiram um lugar de relevo, situando-se entre os principais obreiros da valorização económica das ilhas. Eles foram exímios agricultores, pescadores, pedreiros, sapateiros, mareantes, deixando marcas indeléveis da portugalidade na sociedade canária.

Uma vez que os contactos entre a Madeira e as Canárias foram mais frequentes é natural a presença de uma importante comunidade madeirense nesse arquipélago, com principal relevo para as ilhas de Lanzarote, Tenerife e Gran Canária. Aí foram agentes destacados do comércio e transporte entre os dois arquipélagos ou artífices, nomeadamente sapateiros. Os açorianos, maioritariamente das ilhas Terceira e S. Miguel, surgem em menor número e preferentemente ligados à faina agrícola.

A comunidade portuguesa em Canárias propiciou inúmeras influências, hoje ainda visíveis nas aportações linguísticas e etnográficas. Neste caso é evidente os portuguesismos na nomenclatura dos ofícios, utensílios e produtos a que estiveram ligados: açúcar, vinho, pesca, construção civil e fabrico de calçado. No inverso também temos alguns testemunhos da presença dos aborígenes de Canárias na Madeira e Açores. A sua presença como escravos ou os assíduos contactos entre as ilhas favoreceu estas aportações. Na ilha de S. Miguel, não obstante estarem testemunhados apenas dois guanches – um pastor e outro mestre de engenho – a sua presença deixou rastro na toponímia com o pico e lagoa do canário.

Os contactos entre as ilhas dos dois arquipélagos não assumiram a dimensão das situações supracitadas. Aqui as migrações são mais evidentes no sentido dos Açores para Canárias. Os emigrantes açorianos, oriundos na sua maioria da Terceira e S. Miguel, fixam-se nas ilhas de Gran Canaria, Lanzarote e Tenerife. Nesta última ilha estão associados à introdução do pastel.

No decurso do século XVIII e princípios da centúria seguinte a frequência mais assídua era a dos corsários ingleses e americanos que vagueavam entre estas ilhas. A sua intervenção assume-se como um extensão da acção de represália com os países em guerra.

Comércio O movimento das populações é concomitante com o movimento de trocas comerciais, sendo evidentes as inter-relações. Os produtos da terra são o principal móbil do processo. O vinho e os cereais estão na origem deste movimento nos dois sentidos. A referência mais antiga reporta-se ao fretamento em 1511 de uma embarcação para conduzir ao Faial 1000 fanegas de cevada. Mas durante a primeira metade do século XVI o cereal foi o principal produto que os açorianos conduziram às canárias em troca de vinho, que surge com alguma frequência na Terceira. Os Açores contribuíram no século XVII para o abastecimento de cereais às Canárias. Os primeiros registos conhecidos referem a exportação 1716 moios de cereal entre 1620 e 1640. A isto sucede-se um intervalo marcado pelas guerras da Restauração, sendo o movimento retomado a partir de 1669. Daqui até ao final da centúria assinalam-se 4693 moios de trigo.

O período da União das duas coroas deverá ter contribuído para o reforço destas relações e para o estabelecimento de uma rede de negócios que tinha vértices em S. Miguel, Tenerife e Inglaterra. Dentro deste contexto o porto de Ponta Delgada revela alguma vitalidade neste relacionamento surgindo, para o período de 1620 a 1676, 31 embarcações chegadas das Canárias contra 28 que partiram rumo a este arquipélago.

Nos séculos XVIII e XIX o movimento comercial das ilhas atlânticas assentava no comércio do vinho tendo como destino preferencial o mercado norte-americano. Aqui a tendência foi para a desvalorização das ligações inter-insulares em favor das intercontinentais, fazendo com que o movimento inter-arquipélagos se tornasse cada vez mais esporádico.

A partir do último quartel do século XX este relacionamento foi marcado mais pelo intercâmbio científico e governamental. O último surge como consequência da dimensão particular assumida pelas ilhas atlânticas no contexto da União Europeia. Alberto Vieira (2001)

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