Câmara, Victor Manuel da
[N. Ponta Delgada, 19.10.1921 - m. Paço d'Arcos, 30.11.1998] Caricaturista, retratista e pintor. Começou a revelar tendências artísticas aos 4 anos fazendo a sua primeira exposição aos 15 anos e a segunda aos 17 anos, no atelier de Luís Bernardo Leite *Ataíde, em Ponta Delgada. Depois de ter trabalhado em decoração de montras, feitura de cartazes e cenários, principiou a pintar aguarela. Foram seus professores Viçoso May, dos doze aos treze anos, e Domingos Rebelo, dos treze aos dezoito anos. Em 1957, depois de bem sucedido numa exposição realizada na Sociedade Nacional de Belas Artes, fixou residência em Lisboa, transferindo-se, posteriormente para Paço d'Arcos.
Em 1950, ainda em S. Miguel, apresentou trabalhos algo surrealistas que provocaram grande celeuma no meio, principalmente pela temática e estilo de alguns deles. Esta exposição viria a ser apresentada, em Lisboa, no ano seguinte, bem aceite pela crítica e constituindo um marco na sua vida e motivo de profunda análise pública sobre o conceito de Arte e as novas correntes artísticas que então se divulgavam. O Diário de Notícias considera que «o surrealismo de Victor Câmara não é feito de enigmas. Tem muito simbolismo e por isso mesmo não é difícil compreendê-lo». Para o República, «Como caricaturista o artista é perdulário de cor, de espírito e de fantasia - mas esta última qualidade mais largamente, se exibe na sua galeria de surrealismo, one a imaginação opera sem limites».
Depois de longa ausência da sua terra, em 1985, foi de novo convidado a expôr tendo então apresentado mais de meia centena de obras. No catálogo desta exposição, Eduíno de Jesus considera-o «um dos maiores pintores açorianos de sempre».
Ao longo da sua carreira artística demonstrou uma trajectória evolutiva, tanto de técnica como de temática, que leva a definir-lhe um perfil próprio. A leitura da sua obra permite afirmá-lo como um polivalente que cultivou, com a mesma destreza e facilidade de movimentos, tanto a paisagem como a caricatura, o retrato e a pintura alegórica ou imaginária, utilizando materiais como a aguarela, o pastel ou o óleo. As ilhas permaneceram na sua obra mas evoluiram para referências de quem separou do todo o essencial, bastando apenas subtis pinceladas para que se tornasse possível identificar e reflectir sobre o que está para além do primeiro contacto. Menos acabada, mais liberta e espiritual, a pintura de Câmara é, à data da sua morte, a de um homem que procura definir-se intimamente, onde as formas e os sentimentos nem sempre correspondem à nitidez dos objectos reais.
As inúmeras exposições que realizou, tanto nos Açores como no Continente, constituíram momentos de síntese e de reflexão de uma obra dispersa por várias colecções particulares, nacionais e estrangeiras e museus. Foi galardoado com distinções, prémios e medalhas.
Encontra-se mencionado em várias obras, nomeadamente: Portuguese 20th Century Artists, de Michael Tannock, Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses, de Fernando Pamplona, Dicionário Histórico e Biográfico, de Arsénio Sampaio de Andrade, Tesouro da Caricatura em Portugal, de Paulo Madeira Rodrigues, e Verbo Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura. Margarida Teves de Oliveira e Luís M. Arruda (2001)
Bibl. Açoriano Oriental (1950), 3 de Junho. Ibid. (1950), 10 de Junho. Correio dos Açores (1950), 31 de Maio. Ibid. (1950), 1 de Junho. Ibid. (1950), 4 de Junho. Diário de Notícias (1951), 4 de Janeiro. Museu Carlos Machado (1989), Catálogo da exposição Victor Câmara pintura. República (1951), 11 de Janeiro.
