Câmara

GENEALOGIA De S. Miguel – O secundogénito dos primeiros capitães-do-donatário do Funchal, João Gonçalves Zarco e sua mulher Constança Rodrigues, foi Rui Gonçalves da Câmara, cavaleiro da Casa do infante D. Henrique, que serviu nas praças de África, demonstrando o seu valor em diversas ocasiões. Senhor da Lombada, na ilha da Madeira, acabou por vender este senhorio ao flamengo João Esmeraldo, em 28.1.1493, com obrigação deste último pagar 15.000 reis de juro, em perpétuo, no dia de S. João. Mas, anteriormente, havia já adquirido a capitania da ilha de S. Miguel ao segundo capitão-do-donatário desta, João Soares de Albergaria, pela importância de 20.000 cruzados e 4.000 arrobas de açúcar. Esta transacção, bem como a transmissão da capitania da ilha de S. Miguel aos descendentes de Rui Gonçalves da Câmara, veio a ser confirmada por D. João II, em 20.5.1474.

Tornado terceiro capitão de S. Miguel (primeiro na sua família), Rui Gonçalves da Câmara e sua mulher, D. Maria de Bettencourt, filha de Maciot de Bettencourt, que vendera a ilha de Lançarote (nas Canárias) ao infante D. Henrique, fixaram residência em S. Miguel no último quartel do século XVI.

D. Maria de Bettencourt veio a falecer, sem geração, em 1491, em S. Miguel, deixando ao seu sobrinho Gaspar de Bettencourt o morgado de Água de Mel e a capela dos Mártires, na Madeira. Mas seu marido, o terceiro capitão Rui Gonçalves da Câmara, deixou quatro filhos naturais legitimados. O primogénito, João Rodrigues da Câmara, foi filho de uma natural das Canárias, chamada Elvira ou, segundo outros, Catarina Gonçalves, e foi dotado pelo pai, em 26.7.1483, para casar com Inês da Silveira (ou Melo), filha de Rui Dias Pereira, de Serpa, e da mulher deste, Branca de Melo. Herdou a casa de seu pai e veio a ser quarto capitão-donatário de S. Miguel. O bisneto deste casal, na linha primogénita, D. Rui Gonçalves da Câmara, casado com D. Joana de Mendonça, sétimo capitão-donatário de S. Miguel, serviu com valor a D. João III em Marrocos, exerceu o cargo de governador de Safim e foi criado conde de Vila Franca, de juro e herdade, por carta de Filipe I de Portugal, datada de 7.6.1583. O terceiro conde de Vila Franca, D. Rodrigo da Câmara, na sequência de acusações contra ele formuladas, foi preso pela Inquisição em 20.5.1651 e julgado a 20.12.1652, tendo permanecido preso até a sua morte. Em virtude destas graves ocorrências, o filho mais velho deste, D. Manuel Baltazar Luís da Câmara, viu trocado o título de conde de Vila Franca pelo de conde (e marquês em vida do 8° conde, D. Francisco Gonçalves Zarco da Câmara) da Ribeira Grande, também de juro e herdade. Destes titulares, com geração actual, descende parte da nobreza de corte portuguesa, bem como vultos notáveis da administração pública, das armas e da cultura.

Mas de Rui Gonçalves da Câmara, genearca desta família na ilha de S. Miguel, além da linha primogénita, ficou o secundogénito, Antão Rodrigues da Câmara, legitimado por carta de 6.1.1499, cuja mãe, Maria Rodrigues, de acordo com o cronista Gaspar Frutuoso, pertenceria à família dos Albernazes, verosimilmente ligados aos povoadores da ilha do Faial com o mesmo apelido, mas que, segundo outros, teria sido uma “mulher baça”. Antão Rodrigues da Câmara casou na corte com Catarina da Cunha, filha de Álvaro Ferreira, senhor de Cavaleiros, tendo instituído na ilha de S. Miguel o morgado da Ribeirinha que, a 17.4.1508, rendia 120 moios de trigo. Tiveram um filho que morreu sem geração, herdando esta casa uma filha, Mécia Pereira, mulher de D. Gomes de Melo, filho de Diogo de Melo Figueiredo e de sua mulher D. Maria Manuel de Noronha, de quem ficou larga geração.

O filho terceiro de Rui Gonçalves da Câmara chamou-se Pedro Rodrigues da Câmara, e foi legitimado por carta de D. Manuel I em 1510, sendo irmão inteiro do precedente, e portanto filho da mesma Maria Rodrigues. Morou na Ribeira Grande (S. Miguel), e foi, durante os sete anos de ausência deste, loco-tenente de seu sobrinho Rui Gonçalves da Câmara, quarto capitão-donatário. Edificou o convento de Jesus na vila da sua residência. De sua mulher, Margarida de Bettencourt e Sá, filha do já mencionado Gaspar de Bettencourt, teve descendência a que veio somar-se aquela que lhe é atribuída como fruto de um presumível segundo casamento.

Finalmente, a filha de Rui Gonçalves da Câmara, tronco deste apelido na ilha de S. Miguel, D. Beatriz da Câmara, casou com Francisco da Cunha, primo co-irmão do grande Afonso de Albuquerque, e dela vieram a descender os Soares de Sousa pelos quais se continuou a capitania da ilha de Santa Maria.

Das ilhas Terceira e Graciosa – Precisamente na mesma época em que Rui Gonçalves da Câmara abandonava a ilha da Madeira para assumir a capitania de S. Miguel (terceiro quartel do século XVI), fixava-se na ilha Terceira Pedro Álvares da Câmara, cuja ligação à família dos donatários do Funchal, embora quase segura, não parece ainda pacífica. Não consta das listas conhecidas e aceites de filhos de João Gonçalves Zarco, e a ser filho de um seu irmão, chamado Álvaro Gonçalves da Câmara, como refere hipoteticamente o genealogista madeirense Henriques de Noronha, parece não fazer sentido o apelido de Câmara que, tal como as armas de mercê nova que foram concedidas, a 4.6.1460, por D. Afonso V ao povoador do Funchal, caberiam exclusivamente a este e à sua descendência. Mas as primeiras gerações daqueles que usaram o apelido Câmara não estão ainda profundamente estudadas, como se comprova, entre outros exemplos devidamente referenciados, pela existência de uma Brázia da Camara, mulher de Fernão Alvernaz de Mendonça, que residiram na ilha do Faial, possivelmente ainda no século XVI, e cujos descendentes se habilitaram ao uso das armas de Câmara (de Lobos?), sem que tenha sido ainda possível entroncá-las. Seja como for, Pedro Álvares da Câmara viveu à lei da nobreza junto à vila da Praia, na ilha Terceira, e lá instituiu, em 1499, o morgado de Porto Martins, com capela no mosteiro de S. Francisco, na mesma vila. Tinha casado com Catarina de Ornelas de Saavedra, filha do navegador Álvaro de Ornelas e de sua mulher Elvira Hernandez de Saavedra, da casa dos condes de Forteventura e marqueses de Lançarote, de quem ficaram dois filhos e cinco filhas. O primogénito não deixou geração. A filha mais velha, Branca de Ornelas da Câmara, casou com Diogo Paim, filho de Duarte Paim e de sua mulher Antónia Dias d’Arce, com geração; a filha segunda, Isabel de Ornelas da Câmara, foi mulher de Antão Martins Homem, segundo capitão-donatário da Praia da ilha Terceira e fidalgo da Casa Real, deles procedendo numerosa geração conhecida; a terceira filha, Luísa de Ornelas da Câmara, casou com o ouvidor da vila da Praia da ilha Terceira, Álvaro Lopes da Fonseca, e o casal instituiu um morgado, com capela na matriz da vila, e teve geração conhecida; a quarta, Margarida de Ornelas da Câmara, casou com Duarte Ferreira de Teive, filho de Gonçalo Ferreira de Teive, de quem teve também geração conhecida; finalmente, a última, Catarina de seu nome, não deixou descendência.

A linha masculina continuou no ramo da ilha Graciosa, cujo tronco foi o filho segundo Álvaro de Ornelas da Câmara, que se fixou nessa ilha, casando com Maria Vaz, filha do povoador Vasco Gil Sodré e de sua mulher Beatriz Gonçalves da Silva. Este casal teve apenas um filho, Mateus de Ornelas da Câmara, casado nessa mesma ilha com Maria do Coxo, com geração que passou à ilha do Pico e à Índia, perdendo, ao que suponho, a varonia. Das filhas, uma, chamada Bárbara de Ornelas, casou com Gonçalo Pires, do continente; a outra, Sodorneza de Ornelas, casou com o capitão e tabelião do público judicial e notas de Santa Cruz da Graciosa André Furtado de Mendonça, filho de Fernão Furtado de Mendonça e de sua segunda mulher Guiomar de Freitas, de quem ficou geração conhecida. Terão tido ainda Catarina da Câmara, casada com Bartolomeu Furtado, cuja ascendência se ignora, e Margarida de Ornelas, mulher do bacharel André Tavares, mas desconhece-se se as duas últimas tiveram descendência. Manuel Lamas (2001)

HERÁLDICA 1 De negro, com uma torre de prata, assente num monte de verde, sustida por dois lobos rampantes de ouro, afrontados. Timbre: um dos lobos do escudo, passante. 2 (Condes de Vila Franca, ilha de S. Miguel, e Condes da Ribeira Grande) De verde, com uma torre coberta de prata, rematada por uma cruzeta de ouro, e sustida por dois lobos rampantes de sua cor, afrontados. Luís Belard da Fonseca (2001)