Califórnia

A primeira viagem de exploração da costa californiana teve lugar em 1542. Por ordem do vice-rei da Nova Espanha, organizou-se em Navidad, no México, uma expedição marítima cujo comando foi entregue a Juan Rodriguez Cabrillo - ou João Rodrigues Cabrilho, a aceitar a nacionalidade portuguesa que lhe é atribuída por um historiador espanhol, Antonio de Herrera. A biografia de Cabrilho não está no entanto documentada antes da sua chegada às Américas. Sabe-se todavia que foi capitão de besteiros em Cuba, que veio para o México na expedição de Pedro de Alvarado e que mais tarde lhe foram concedidas terras na Guatemala.

A pequena esquadra sob o comando de Cabrilho largou para o norte a 27 de Junho desse ano de 1542 e a 28 de Setembro arribou a uma baía a que, por ser esse o santo celebrado no dia, foi dado o nome de San Miguel, anos depois mudado para San Diego. Mais ao norte Cabrilho foi a terra numa das ilhas do Canal de Santa Bárbara para socorrer alguns dos seus homens que estavam sendo atacados por um grupo de índios e, ao saltar para as rochas, deu uma queda em que fracturou uma perna ou um braço. (Os relatos da época mostram-se contraditórios sobre a natureza da lesão.) Declarou-se gangrena e o capitão faleceu pouco depois, a 15 de Janeiro de 1543.

A verdadeira emigração portuguesa para a Califórnia, no seu sentido actual, arrancou apenas em 1814, quando o minhoto António José Rocha desertou da escuna inglesa Columbia, ancorada no porto de Monterey. Entretanto foram chegando à Califórnia outros portugueses. Até à Corrida ao Ouro, iniciada em 1849, documentam-se uns 20. De alguns quase mais nada se sabe do que o nome e por vezes a ocupação. De outros é possível coligir alguns dados biográficos, como é o caso do baleeiro jorgense Joseph Miller (José de Sousa Neves). Chegado cerca de 1836, colaborou em 1846 na tomada do porto de Monterey pelas forças americanas. Viveu algum tempo na Nova Inglaterra mas regressou à Califórnia em 1849, presumivelmente motivado pela Corrida ao Ouro. Adquiriu então uma propriedade agrícola em Freeport, perto de Sacramento, e distinguiu-se pela sua actividade cívica. Faleceu em 1899. Manuel Dutra de Vargas, decerto açoriano, talvez faialense, a julgar pelos seus sobrenomes, foi secretário do Governador Alvarado e depois abriu uma loja e taberna em Monterey. De José Serradela, florentino, sabe-se que trabalhou como servente em Los Angeles.

Foi a descoberta de depósitos auríferos perto de Sacramento, em 1848, que muito incrementou o afluxo de açorianos à Califórnia. Por essa altura a frota baleeira da Nova Inglaterra, um terço de cujas tripulações era de um modo geral composto por açorianos e cabo-verdianos, actuava já no Pacífico e utilizava o porto de San Francisco, não muito distante da zona de mineração. Os baleeiros portugueses começaram então a desertar, seduzidos também eles pela Corrida ao Ouro.

Não seria contudo como prospectores que mais se afirmaram, embora núcleos mineiros se tivessem mantido por algum tempo. Os portugueses, na sua quase totalidade açorianos, inseriram-se em vez disso numa rede de apoio logístico à mineração: horticultura, avicultura, um modesto artesanato, comércio e hotelaria, pesca do salmão no Rio Sacramento e transportes em pequenas embarcações na Baía de San Francisco.

Dentro em pouco começaram a fixar-se em outras zonas. Por volta de 1854 teve início a sua concentração na cidade de San Leandro, onde muitos se dedicaram à criação de galinhas. Cultivaram alcachofras, em Half Moon Bay, e na década de 1880 já estavam a trabalhar nas vinhas de Santa Clara. Em 1888 o jorgense John B. Ávila introduziu a cultura da batata doce no Vale de Sacramento. A produção de leite atraiu também um alto número de açorianos, que estabeleceram “leitarias” (granjas de criação de gado vacum, no falar açor-californiano) desde a Baía de San Francisco até ao Vale de San Joaquin e às cercanias de Los Angeles.

O sistema funcionou sobretudo à base da fragmentação destas empresas, com cada parcela entregue a um arrendatário, que pagava ao proprietário $27.50 por ano por cada vaca que cuidava. Encarregava-se também de todas as despesas, entre elas o salário mensal de $30.00 (mais cama e mesa) para cada ordenhador. Destes, muitos iam assim acumulando poupanças que eventualmente lhes permitissem tornar-se arrendatários e mesmo proprietários, embora à custa de enormes privações e sacrifícios.

No Vale de San Joaquin, possuindo uns já vastas extensões de terra antes quase estéril, só apropriada para a pastorícia, adquirindo-a então outros, os açorianos puderam reconvertê-las para o cultivo da luzerna e para a criação de gado leiteiro. Em 1923, nos Condados de Merced e Stanislaus, 85% das pessoas ligadas à produção de leite eram de origem açoriana.

A entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, em 1941, teve profundos efeitos nesta actividade. Muitos dos ordenhadores abandonaram as "leitarias", chamados para prestar serviço militar ou atraídos pela economia de guerra. Com a difícil obtenção de trabalho manual desapareceram as antigas explorações de 20 ou 30 vacas. As que ficaram mecanizaram-se como único meio de sobrevivência, podendo assim aumentar as suas manadas e empregar um mínimo de trabalhadores.

No que concerne à origem regional dos "leiteiros" verifica-se uma muito maior presença daqueles com raízes no grupo central dos Açores. Em 1962 os terceirenses constituíam 63% do total, os jorgenses 15% e os picoenses 11%. A representação das outras ilhas mantinha-se abaixo de 4% para cada uma delas. Com toda a probabilidade esta incidência terceirense deve-se ao facto de vários donos de "leitarias" se terem também dedicado a partir da década de 1970 à criação de touros de lide.                   

 Calculava-se há poucos anos que os açor-americanos da Califórnia eram proprietários de 365 500 cabeças de gado leiteiro, o que, acrescentado ao valor dos terrenos, construções e equipamento, representava um capital de cerca de 1 466 200 000 dólares.

Na década de 1980 factores diversos, entre eles um drástico decréscimo da emigração açoriana, vieram alterar o perfil da implantação portuguesa na indústria californiana de lacticínios. Ordenhadores mexicanos substituíram em muitos casos os açorianos. Por outro lado, várias "leitarias" começaram a deslocar-se para os estados de Nevada e Idaho, onde encontraram terrenos mais baratos e um sistema fiscal mais favorável.

Apesar de todos os seus altos e baixos, a produção de leite ainda continua a ser uma importantíssima ocupação de emigrantes açorianos e seus descendentes, agora controlando eficientes mecanismos de processamento e distribuição. Foi a actividade que, a par da actualmente extinta pesca do atum em San Diego, permitiu a fulgurante ascensão económica e social de muitos açorianos chegados à Califórnia apenas com cinco dólares no bolso e sem saber inglês e que, com o tempo, dominaram uma sofisticada tecnologia e marcaram a sua presença, de tal maneira que, em muitas áreas, "leiteiro" tem sido e ainda é quase sinónimo de açoriano.

A última entrada maciça de imigrantes começou a assinalar-se a partir de 1957, quando as autoridades americanas concederam facilidades para a admissão no país dos sinistrados da erupção dos Capelinhos. Estes faialenses, assim como outros açorianos que de algum modo emigraram ao abrigo das novas disposições, radicaram-se sobretudo à volta de Turlock e no Vale de Santa Clara.    

A partir da década de 1880 concentrou-se em San Diego, na ilha de Point Loma (hoje uma península, devido a aterros mais tarde efectuados), um núcleo de pescadores picoenses, o primeiro dos quais parece ter sido Manuel Madruga, que chegara de Gloucester, Massachusetts, com a sua família. Estes homens dedicavam-se em especial à pesca de peixe miúdo, que era depois conservado em salmoura e enviado para San Francisco, onde o adquiriam os agricultores portugueses e italianos do norte do Vale de San Joaquin. Esporadicamente pescava-se atum mas o valor comercial desta espécie era limitado, pelo que muitas vezes o peixe se lançava de novo ao mar. A dificuldade em içar o atum para as pequenas embarcações então utilizadas acentuava também o desinteresse por este tipo de pesca.

No seguimento da Primeira Guerra Mundial as fábricas de conserva de sardinha em San Diego tentaram também o enlatamento do atum e, em face do êxito obtido, começou a constituir-se uma flotilha de unidades destinadas apenas à captura de tunídeos. O iniciador da pesca comercial do atum parece ter sido o picoense Manuel de Oliveira Medina, conhecido em San Diego como M. O. Medina que, por volta de 1919, começou a sua actividade no Beauty, por conta de um conserveiro de San Diego conhecido como "Old Man Steele".

Pouco a pouco a indústria foi-se desenvolvendo. O Oceana, construído para M. O. Medina, foi o primeiro barco destinado em exclusivo à pesca do atum. Nos fins da década de 30 a frota dispunha já de um bom número de unidades de alto mar, dispondo de sistema de refrigeração para o pescado e de tanques onde se conservava viva a isca, sardinha ou "anchoveta", que se utilizava nesses tempos de pesca à linha.

Os barcos, com casco de madeira, oscilavam entre os 50 e os 145 pés de comprimento. Dispunham de um raio de acção que podia chegar a 10 000 milhas e permaneciam no mar até sete semanas sem necessidade de reabastecimento. As suas tripulações eram em geral compostas por 17 homens. Da pesca costeira nas imediações de San Diego passaram para os bancos da costa mexicana e por fim para os da América Central e do Sul. Entre os tripulantes desta frota predominavam em absoluto os naturais da ilha do Pico, embora se registasse também uma pequena participação de pescadores do Paul do Mar (Madeira) e da Fuzeta (Algarve).

O sucesso económico de M. O. Medina levou a que membros da sua família e conterrâneos se estabelecessem em San Diego, tendo assim chegado aí mais três irmãos e o pai, que o acompanharam no seu rápido ascenso a capitão e armador. Depois do Oceana, vieram o Atlantic, em 1926, de sociedade com Joseph Azevedo, a primeira unidade atuneira a estender o seu raio de acção até mais além da linha do Equador, o Mayflower em 1928, o Cabrilho em 1930 e o Normandie em 1939, este dotado com um hidroavião para detecção de cardumes de atum ou de sardinha para engodo. M. O. Medina aposentou-se em 1957 e faleceu em 1986.

Outro clã atuneiro foi constituído pelos Garcia da Rosa, cinco irmãos e duas irmãs mais os seus descendentes. Um dos irmãos, António, nascido em 1899, emigrou para os Estados Unidos em 1922. No ano seguinte fixou-se em San Diego. Começando como pescador, em breve se tornou capitão e armador. Junto com o seu irmão Manuel, comprou por 5 200 dólares, emprestados por uma fábrica de conservas, o Peerless, um barco que tinha sido arrestado por contrabando de álcool durante a Lei Seca. António era conhecido pelo seu afinco, trabalhando sempre lado a lado com os seus homens e nunca lhes exigindo tarefas que ele mesmo não pudesse executar.

Ainda outro irmão, Leonel, fez-se também um conceituado capitão atuneiro. Manuel e António faleceram em San Diego, respectivamente em 1972 e 1980. Os Garcia da Rosa, sós ou associados a outros, criaram uma flotilha de sete atuneiros, quase todos com nomes que recordavam a origem dos seus proprietários: Lusitânia, Picaroto, Belle of Portugal, Azoreana, Portuguesa e Favorita. Nas décadas de 1920 e 1930 raros foram os picoenses de San Diego que de um modo directo ou indirecto não estiveram ligados à indústria atuneira.

Com o desenvolvimento da pesca criaram-se também importantes actividades subsidiárias. Entre os que a elas se dedicaram sobressai a figura de outro picoense, Lawrence Oliver. Lourenço Oliveira, de seu nome de baptismo, nasceu na Calheta do Nesquim e em 1903, no dia em que fez dezasseis anos, embarcou a salto em S. Miguel rumo a Boston. Tendo chegado a San Diego em 1906, começou por distribuir peixe, pão, encomendas e ferragens ao domicílio com uma carroça. O seu primeiro empreendimento independente foi o fornecimento de gelo aos barcos de pesca. Depois veio o aluguer de guindastes para descarga de pescado, a seguir negócios de peixe salgado e lagosta, cinemas, farinha de peixe e abastecimento de pesqueiros.

Oliver tornou-se também proprietário ou sócio de uns oito barcos atuneiros, o primeiro dos quais o Princess, adquirido em 1925. Cerca de 1930 mandou construir o Amor da Pátria, em sociedade com Manuel Silva. O Azoreana foi o primeiro atuneiro munido com um sistema completo de refrigeração. Outro foi o Belle of Portugal.

Num variadíssimo leque de actividades, Oliver tornou-se ainda criador de porcos e de gado vacum para abate, membro do conselho administrativo de um banco e da Companhia de Gás e Electricidade de San Diego e proprietário de um clube de golfe. Faleceu em 1978.

A Segunda Guerra Mundial iria trazer contudo um interregno na indústria atuneira. A marinha americana, afectada das perdas sofridas em Pearl Harbor, começara a mobilizar barcos mercantes. Os atuneiros, devido à sua fácil capacidade de manobra e às suas instalações de frio, tornaram-se especialmente desejáveis para uma adaptação a unidades de patrulha e reabastecimento. Muitos dos seus antigos tripulantes, picoenses ou açor-americanos, participaram assim na contenda e vários perderam a vida em operações no Pacífico.

Terminado o conflito, os métodos foram pouco a pouco aperfeiçoando-se. Abandonou-se a pesca à linha, com isca viva, sempre difícil de capturar e manter, e começaram a aparecer os cercadores, dotados de enormes redes que envolvem todo o cardume. Os barcos passaram então a dispor de helicópteros para a detecção do peixe e do mais recente equipamento de navegação e de refrigeração e a alargar o seu raio de acção até águas africanas e neo-zelandesas.

O auge da indústria atingiu-se pelos princípios da década de 1970. Por essas alturas estimava-se em 2 500 o número de pescadores portugueses. Remunerados pelo sistema de quinhões, após a dedução das despesas de manutenção do barco, os pescadores mais experientes faziam de 50 000 a 80 000 dólares anuais. Viviam em casas luxuosas, conduziam Cadillacs e alcançaram um nível de vida quase faustoso. Os capitães dos melhores barcos, sem que neles tivessem participação, podiam ganhar por volta de um quarto de milhão de dólares por ano.

Nos primeiros anos da década de 1980 a frota atuneira, composta por 146 unidades, contava com uma participação portu­guesa de cerca de 70%, tanto ao nível de investimento como de tripulação.

As actividades relacionadas com a pesca prosperavam. Nos estaleiros da Campbell Industries trabalhavam uns 60 portugueses, que ganhavam uma média de 85 dólares por dia. Por outro lado, só a fábrica de conservas Van Camp Sea Food, uma das muitas da cidade, empregava cerca de 300 mulheres e 100 homens, na sua maioria de origem açoriana, que recebiam de sete a nove dólares por hora e gozavam de excelentes benefícios sociais. No total, calcula-se que os portugueses contribuíam anualmente com nove biliões de dólares para a economia de San Diego.

Uma figura de relevo nestas actividades subsidiárias foi a de José Vitorino da Silva, nascido no ano de 1926 em Santo Amaro, ilha do Pico. Desde criança que mostrara interesse pela construção de barcos. Aos dezoito anos já tinha construído o seu primeiro barco de pesca. Em 1959 veio para San Diego com a família. Obteve trabalho como carpinteiro na construção civil mas dois anos depois foi admitido nos estaleiros Campbell, onde desenhou diversos tipos de embarcações. Em 1968 foi responsável pela adaptação de um navio hidrográfico a atuneiro, o Mermaid, de 600 toneladas. Logo a seguir desenhou outro atuneiro, o Ocean Queen, com o dobro da tonelagem. Vieram então mais dois, de 1 500 toneladas cada um. Dirigiu também a construção do American Queen, o maior atuneiro da época.             

A segunda parte da década de 1980 marcou o início da decadência da indústria atuneira de San Diego. Para além da competição estrangeira, dois outros factores agravaram esse declínio, o estabelecimento, por parte de países latino-americanos, de um limite de 200 milhas para as suas águas territoriais e a campanha lançada por movimentos ecologistas contra a captura de golfinhos.

Os armadores picoenses e açor-americanos conseguiram reduzir substancialmente as capturas de golfinhos mas o mal já estava feito. Numerosos atuneiros passaram a navegar com bandeira de conveniência, tais como holandesa, mexicana ou de vários países sul-americanos. Quando era feita opção por uma bandeira estrangeira, por vezes o país de matrícula exigia que 50% da tripulação fosse da sua nacionalidade, o que fez perder numerosos postos de trabalho aos pescadores de raiz açoriana. Em 1986 restavam apenas uns 200 deles. Vários reinseriram-se em diferentes actividades tais como a jardinagem, a carpintaria e a limpeza de edifícios. Os que tinham acumulado algum capital abriram pequenos negócios, sobretudo restaurantes e pizarias, ou firmas de construção civil. Outros aposentaram-se, mudaram-se para o norte da Califórnia ou regressaram aos Açores. Nos atuneiros, dos portugueses ficaram geralmente apenas o capitão, o piloto e o maquinista. O resto da tripulação completava-se com homens de outros países, dispostos a aceitar salários muito inferiores.

O encerramento das fábricas de conserva da cidade, que financiavam a construção e o funcionamento dos atuneiros, veio dar o golpe de misericórdia à indústria. Por 1991 a frota atuneira, reduzida a 17 unidades, tinha as suas bases em Samoa e Guam e só vinha a San Diego para reparações. Pouco depois a presença açoriana nesta actividade extinguiu-se por completo.

As sociedades fraternais representam, sem dúvida, um dos mais poderosos e dinâmicos mecanismos de união, sociabilização e entreajuda de que dispõem os emigrantes açorianos na Califórnia. Tendo surgido por processos rudimentares de auxílio a necessitados, por exemplo a famílias de imigrantes falecidos, seguiram um impressionante itinerário que as levou a transformarem-se numa combinação de verdadeiras companhias de seguros, clubes sociais e centros culturais. Começando a constituir-se umas escassas duas dezenas de anos após o início da emigração açoriana maciça para a Califórnia, as sociedades fraternais atestam já neste período de génese o apreciável estádio de consolidação social por esses anos atingido pela comunidade.

Hoje em dia as duas mais importantes sociedades fraternais são a União Portuguesa do Estado da Califórnia, a mais antiga entre elas, e a Irmandade do Divino Espírito Santo. A primeira foi criada em 1880 por um grupo de 29 açorianos e um continental.

A preocupação quase exclusiva dos dirigentes da UPEC consistia em assegurar um adequado auxílio económico em caso de falecimento de um sócio ou de sua consorte. As tradicionais cotizações de um dólar por morte de um membro e de cinquenta centavos pela de sua esposa mantiveram-se por vários anos. Presentemente a UPEC conta com 66 conselhos por toda a Califórnia e na Nevada, englobando um total de 12 500 sócios, e um Centro Cultural, dotado de uma excelente biblioteca. A organização tem concedido bolsas para a promoção de estudos portugueses. As suas reservas financeiras orçavam em 1999 por 60 milhões de dólares.

A Irmandade do Divino Espírito Santo arrancou da necessidade de promover a mais vigorosa manifestação religiosa açoriana na Califórnia. A actual IDES originou-se de um modo informal, cobrando um dólar por ano aos seus apoiantes para prover ao custo da organização da festa. Mais tarde a associação iria enveredar por uma via mais sistemática de mutualismo e alcançar proporções semelhantes às da UPEC.

 Um curioso binómio marca o período formativo destas sociedades: a inspiração religiosa e a adopção de estruturas e práticas maçónicas. Entre as mais significativas sociedades estabelecidas até aos princípios do século XX só poucas não se associam a qualquer faceta do culto católico.

Embora talvez a mais antiga da Califórnia entre os diferentes grupos nacionais, a comunidade de ascendência açoriana é também das mais ignoradas. Constituída na sua vasta maioria por emigrantes de extracção rural, gente humilde, inapetente a contestações sindicais e políticas ou mesmo a uma projecção pública, passa de tal modo despercebida no mosaico étnico californiano que muitas vezes se dilui numa vaga classificação como hispânica. Tem pois jus a ser incluída no estatuto de "minoria invisível" que a investigadora M. Estellie Smith atribui em termos gerais à comunidade lusa dos Estados Unidos.

Acatador da lei, apegado à religião, conservador, não contribuindo em absoluto para os índices de criminalidade, quase ausente do rol da beneficência pública, desde o momento da chegada o arquetípico emigrante açoriano tem sempre feito girar as suas preocupações à volta da busca de trabalho, do pagamento de dívidas relativas à deslocação, de uma alimenta­ção mais abundan­te, da aquisição de uma casa e de bens de consumo e mesmo da criação de capital de investimento, assim como da manutenção dos seus padrões ancestrais. 

A nostalgia leva-o a ocasionais visitas ao arquipélago natal. A hipótese do retorno definiti­vo, contudo, raras vezes se levanta e menos ainda se concretiza. Trata-se sem dúvida de um processo migratório de fixação, de todo alheio ao conceito europeu do Gastarbeit­er. Isto não significa no entanto uma integração social ou emocional. O afastamento em relação à sociedade envolvente revela-se quase total. Embora adaptado ao nível material da vida e às exigências tecnológicas dos circuitos profissionais em que se insere, mantém um completo alheamento espiritual. A civilização que encontra no novo continente é admirada mas só muito perifericamente assimi­lada.

A preservação da identidade ancestral numa atmosfera cultural adversa tem sido sempre uma constante na sua existência. É fácil compreender como o distanciamento linguístico e sócio-cultural em relação ao ambiente "anglo" circundante tem consolidado a perduração de muitas atitudes e tradições trazidas do outro lado do Atlântico. Na sua ausência um vácuo emocional e mesmo social difícil de suportar ter-se-ia por força criado. 

Afigura-se pouco factível prever por que trajectória enveredará a emigração portuguesa para a Califórnia. Nas últimas décadas as chegadas diminuíram substancialmente. A persistir este decréscimo será pois de conceber um envelhecimento da comunidade e um progressivo domínio da vida social por uma geração de açor-descendentes. Não é porém de crer que com facilidade desapareça a tradição cultural que os emigrantes trouxeram e que com tão espantoso vigor tem marcado a sua presença por mais de século e meio. Eduardo Mayonne Dias (Mai.2001)