Calheta do Nesquim
Freguesia do concelho de Lajes do Pico, situada no extremo oriental da ilha, e limitada pelas freguesias da Piedade (a norte e leste), de Santo Amaro (a norte) e de Ribeiras (a oeste). A topografia é acidentada, com um alinhamento este-oeste de pequenos cones vulcânicos, como os cabeços da Rocinha, do Lopes, da Lagoinha, da Lança, do Silvado, do Caminho, das Covas e da Escaleira. A vertente sul é regular, declivosa, terminada por uma linha de costa sinuosa, com pequenas arribas e plataformas rochosas orladas por calhaus de blocos. Destaca-se a enseada quase circular, ou calheta, em cujo rebordo ocidental se localiza o aglomerado urbano da sede da freguesia da Calheta do Nesquim. Em 1991 esta freguesia contava 492 habitantes residentes, dos quais 252 homens e 240 mulheres, distribuidos pelos lugares de Calheta do Nesquim (184 habitantes), Fetais (87 habitantes), Jogo da Bola (76 habitantes), Foros (71 habitantes), Feiteira (66 habitantes) e Canadas (8 habitantes). M. Eugénia S. de Albergaria Moreira (2001)
HISTÓRIA, ACTIVIDADES ECONÓMICAS E CULTURAIS Calheta, como estreita reentrância costeira que facilita a aportagem de barcos de reduzido calado, é designação usada em muitas localidades açorianas, sendo que uma delas é sede de concelho na ilha de S. Jorge. Esta do Nesquim, segundo velhíssima tradição, adoptou o nome do cão que acompanhava o primeiro colono que nessa paragem se aventurou terra dentro. Segundo Machado (1936), já em 1506 havia notícia de ser habitado o lugar da Calheta, que havia de fazer parte da freguesia da Piedade até que ganhou a sua autonomia administrativa em 1680. Todo o seu desenvolvimento lhe veio através do seu porto que ligava a Ponta da ilha do Pico com as mais próximas do arquipélago, na movimentação de pessoas e bens. Tão frequentes os contactos com a ilha Terceira que, no dizer do povo, ir à cidade se tratava de rumar a Angra e não à Horta.
A Calheta do Nesquim era escala obrigatória da frota de cabotagem que escoava os produtos excedentes da zona e a abastecia do necessário que importava. Quando do seu lançamento, foi mesmo porto armador da célebre lancha Calheta, actualmente peça de museu, que durante muitas décadas navegou no canal entre o Pico e o Faial.
Do seu porto sempre arriaram muitas embarcações de pesca que, no Verão, iam apanhar peixe de fundo na ilha Terceira, com base na Praia da Vitória, que traziam escalado para vender no Pico.
Da Calheta do Nesquim saíram nas baleeiras americanas muitos jovens a tentar fortuna, atingindo vários deles o posto de capitão, tal o caso do famoso capitão Anselmo Silveira da Silva que, regressando à sua terra natal, participou na criação da primeira armação baleeira legalizada nos Açores, continuando como oficial dos seus botes. Recentemente, foi inaugurado um busto seu no centro da freguesia junto ao mar.
Sucessivas gerações de calhetenses se distinguiram nessa arriscada faina até que foi proibida nos anos 60 do século findo. Entre todos, pelas suas façanhas, deve salientar-se Mestre José Faidoca.
Nascido na Calheta do Nesquim é o laureado escritor Dias de Melo que em vários dos seus livros, melhor do que ninguém, tratou da epopeia picarota da caça à baleia.
Por iniciativa do Pe. António Silveira d'Ávila Furtado foi erguida, entre os anos de 1852 e 1856, a actual igreja paroquial, dedicada a S. Sebastião. Por essa mesma altura e por influência desse sacerdote, foi beneficiado o cais acostável da Calheta do Nesquim, que havia de sofrer apreciáveis melhorias em 1950. Apesar dos seus méritos, está reduzido em nossos dias ao apoio a alguns pescadores profissionais e aos praticantes da pesca desportiva.
Recorde-se ainda que, em 1741, entraram no porto da Calheta do Nesquim quatro lanchões com piratas argelinos provenientes dos navios que pairavam ao largo, saqueando a velha igreja e muitas casas. Levaram também muita gente cativa com mira no resgate. Tomaz Duarte Jr. (2001)
Bibl. Instituto Nacional de Estatística (1991), XIII Recenseamento Geral da População. III Recenseamento Geral da Habitação. Dados definitivos. Lisboa, INE. Machado, F. S. L. (1936), História do Concelho das Lages. Figueira da Foz, ed. do autor
