Caldeira do Faial

Trata-se de uma caldeira vulcânica formada no topo do actual vulcão central da ilha do Faial. Tem cerca de 2 km de diâmetro, profundidade média de 400 m e forma quase perfeitamente circular. O seu rebordo situa-se a altitudes que variam entre os 1045 m (no Cabeço Gordo) e os 874 m (no bordo norte). No fundo, quase plano, existe um cone de escórias basáltico que emitiu pequeno derrame, cujos pontos mais elevados emergem ainda, aqui e ali, do preenchimento vulcano-sedimentar. As paredes da depressão apresentam-se muito íngremes, sendo praticamente verticais a leste, norte e oeste. Encontram-se talhadas em derrames lávicos (escoadas basálticas a benmoreíticas) até cerca de meia altura e em depósitos de pedra pomes na sua metade superior. A quase inexistência de depósitos de vertente no sopé das paredes, não obstante os materiais incoerentes que constituem a porção superior, é indicadora de formação muito recente.

Na história da evolução geológica do vulcão central do Faial podem definir-se duas fases. A primeira originou um edifício do tipo vulcão escudo, essencialmente constituído por derrames lávicos, cuja actividade predominantemente efusiva se desenrolou desde há cerca de 400 mil anos até há 10 mil anos atrás. Seguiu-se-lhe uma mudança de estilo eruptivo em que o vulcão apresentou actividade quase exclusivamente explosiva, a qual é responsável pelos vastos depósitos de pedra pomes e outros materiais piroclásticos que cobrem a quase totalidade da ilha. A formação da caldeira, relacionada com a evolução mais recente, parece ser o resultado de dois episódios de colapso. Um episódio inicial, de que apenas resta o bordo sul da caldeira e um doma traquítico (altar) que se terá desenvolvido no seu interior na fase terminal da erupção pliniana que originou o colapso, e um segundo evento causado por outra erupção muito violenta que ocorreu há 1200 anos atrás. Esta erupção pliniana, cujos produtos se encontram dispersos pelos flancos norte e leste do vulcão, iniciou-se com actividade freato-magmática caracterizada por explosões rítmicas, seguindo-se o estabelecimento de uma coluna eruptiva sustentada que deu origem a queda de pedra pomes. No topo da pedra pomes observam-se níveis com características freato-magmáticas alternando com pedra pomes de queda, sugerindo instabilidade da coluna eruptiva. Finalmente ocorreu colapso da coluna com emissão de volumoso ignimbrito que se dirigiu para norte (os seus depósitos encontram-se preservados desde a Fajã da Praia do Norte até ao Salão) e para leste, pelo interior do “Graben de Pedro Miguel”, canalizado entre as escarpas da Espalamaca e Lomba Grande. É provável que o colapso da caldeira tenha ocorrido durante ou imediatamente após a emissão do ignimbrito.

Após este violento episódio vulcânico mais de 40% da área do Faial ficou coberta com materiais piroclásticos e a maior parte da cobertura vegetal (senão a totalidade) soterrada, arrancada ou destruída pela queda de cinzas. Alguma desta vegetação encontra-se representada por abundantes troncos carbonizados englobados no depósito ignimbrítico. Seguiram-se vários episódios de enxurrada (lahares) que resultaram de precipitação intensa (resultante do aumento da condensação em torno das poeiras vulcânicas presentes na atmosfera) sobre um relevo íngreme e desflorestado, coberto por materiais incoerentes. Quatro destes depósitos encontram-se expostos nas arribas da praia da Fajã.

Posteriormente, há cerca de mil anos, ocorreu pelo menos mais um episódio explosivo na caldeira. Desconhece-se qual a idade do cone que existe no seu interior e se está genéticamente relacionado com a caldeira ou com o alinhamento vulcânico do Capelo.

A progressiva alteração dos materiais que constituem o fundo da caldeira, associada à deposição de sedimentos arrastados pelos barrancos que drenam as paredes da depressão, originaram a sua impermeabilização e a formação de uma lagoa. A descrição da caldeira do Faial por Gaspar Frutuoso mostra que a paisagem da caldeira no final do século XVI não seria significativamente diferente da que existiu até à erupção dos Capelinhos. No decurso da crise sísmica de Maio de 1958, abriram-se fendas que romperam a impermeabilização do fundo da caldeira. Esse facto levou ao desaparecimento da lagoa; o escoamento das suas águas para o interior do edifício vulcânico desencadeou fortes explosões freáticas (pelo contacto da água com rochas a temperaturas elevadas) e a ocorrência de actividade fumarólica temporária. José Madeira (2001)