Caldeira das Lajes
Situa-se no litoral norte da ilha Terceira, próximo à povoação das Lajes. Trata-se de uma zona deprimida, rodeada de arriba rochosa excepto pelo lado do mar, a norte. A depressão tem cerca de 850 m na direcção N-S e 850 a 500 m de largura (E-W). A designação deve-se à sua forma deprimida, não constituindo, no entanto, uma caldeira vulcânica. Já no final do século XVI aquele local era assim designado, conforme se pode ler em Saudades da Terra de Frutuoso.
O fundo da depressão é constituído por lavas basálticas muito recentes provenientes do derrame emitido pelo cone do Algar do Carvão, há cerca de 2000 anos (2115 ± 115 anos BP). A escoada lávica, que preencheu quase totalmente o fundo da Caldeira de Guilherme Moniz e transbordou pelo bordo leste daquela depressão vulcânica, dividiu-se em dois braços, um que seguiu para sul em direcção à Feteira e outro que se dirigiu para nordeste em direcção às Lajes. No local onde se situa actualmente o topo norte do aeroporto, o derrame entrou no vale de uma pequena ribeira que o dirigiu para o mar onde formou uma plataforma lávica no interior de uma baía de costas alcantiladas.
Actualmente, nem no terreno nem nas fotografias aéreas mais antigas, efectuadas em 1955 pela marinha norte-americana (altura em que as obras do aeroporto já tinham sido iniciadas), é possível observar a continuidade do derrame das Lajes até ao mar em resultado das movimentações de terras executadas para a construção do aeroporto e, também, em consequência da erosão marinha. Contudo, observações de carácter geológico mostram que aquele derrame é a origem das lavas recentes que atapetam o fundo da Caldeira das Lajes. A leitura das descrições da ilha Terceira efectuadas por Frutuoso demonstram que esta interpretação coincide com as deduções daquele notável autor do século XVI. Com efeito, pode ler-se em Frutuoso (1978): «porque corre pelo meio dela um biscoito [derrame lávico], que desce do interior da serra, do meio da ilha, que chega até ao mar, o qual, entrando no mar, segundo o que agora parece das ilhas que arderam [em que houve erupções], afastando o mar abaixo da rocha [arriba litoral], fez uma grande caldeira (que assim se chama), toda de biscoito, de quantidade de quinze moios de terra, onde dantes parece claro que era baía do mar».
Também António Cordeiro se lhe refere na sua História Insulana (no que parece ser uma síntese dos escritos de Frutuoso): «he terra muito fertil de trigo, & vinho plantado em biscouto, que veyo do interior da Ilha, & chega ao mar fazendo huma caldeyra».
Trata-se, portanto, de uma fajã lávica que fossilizou um antigo recôndido da costa, posteriormente separado do derrame que a originou pela erosão litoral e acção antrópica. José Madeira (2001)
Bibl. Frutuoso, G. (1978) Livro Sexto das Saudades da Terra. 2ª ed., Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada: 44, 49-50.
