cagarra

Nome vulgar da espécie de ave nocturna Calonectris diomedea, sub-espécie C. d. borealis, também conhecida por cagarro (Bannerman e Bannerman, 1966; Faria, 1997; SNPRCN, 1990; Hartert e Ogilvie-Grant, 1905; Machado, 1991). Mencionada por Frutuoso em 1561 (Frutuoso, 1963), como esporádica, especialmente em Santa Maria, foi considerada muito comum, nos mares dos Açores, no começo do século XX, por Hartert e Ogilvie-Grant (1905) que a encontraram entre as diferentes ilhas formando grandes bandos ou descansando sobre a água ou deslizando sobre as vagas, no seu modo característico. É actualmente a ave marinha mais abundante nos Açores (Monteiro et al., 1996). Estimativas baseadas na reprodução sugerem a existência de 49 000 a 89 000 pares reprodutores no arquipélago, representando a maior população da sub-espécie borealis (Tucker e Heath, 1994). A alcunha de cagarros dada aos habitantes de Santa Maria relaciona-se com a abundância desta espécie em redor desta ilha que localmente tem este nome (Chavigny, J. e Mayaud, N., 1932; Bannerman e Bannerman, 1966).

Tem íris castanha; bico de ponta amarelada, narinas, base e extremidade da ranfoteca escura; patas cor de carne clara, negras na parte externa do tarso, dedo do pé exterior, articulações e membrana que une os dedos (Hartert e Ogilvie-Grant, 1905). Dorso e superfície superior das asas de cor castanha-acinzentada, branca no peito, abdómen e superfície inferior das asas (Machado, 1991).

Ictiófaga, alimenta-se de modo oportunista sobre uma grande variedade de peixes voando próximo da superfície da água, movimentando pouco as asas (Machado, 1991; Monteiro et al., 1996; Bannerman e Bannerman, 1966). Durante a noite atroam os ares com o seu canto monótono, composto de três sílabas, seguidas de uma pausa curta (uá-uá-uá...) (Machado, 1991).

Parece ser a única espécie de ave marinha ocorrendo no arquipélago que ainda se reproduz, regularmente, nas ilhas principais (Monteiro et al., 1996). Nidifica ao longo da costa de todas as ilhas e em muitos ilhéus, usualmente, em cavidades, que podem ter alguns metros de profundidade, inacessíveis, em arribas, que podem atingir 250 m de altura, formadas, geralmente, por estratos sucessivos de basalto, lava vulcânica e cinzas vulcânicas. A cagarra faz algumas vezes o ninho nas cinzas, mas também pode tirar vantagem das escavações naturais que ocorrem entre a camada mais baixa de basalto e a camada mais superior de cinza. A altura a que os seus buracos ocorrem varia muito, dependendo da ocorrência dessas camadas de basalto e de cinza (Bannerman e Bannerman, 1966). Estas aves põem um ovo branco com cerca de 77-80 mm por 48-52 mm. A incubação, que demora dois meses, ocorre entre Maio e Julho. Os jovens não voam antes de Setembro. As colónias vão para o mar de Novembro até ao fim de Fevereiro, altura em que comparecem para nova postura (Bannerman e Bannerman, 1966; Monteiro et al., 1996).

São várias as ameaças a esta espécie, nomeadamente, a predação por mamíferos introduzidos, a perturbação pelas actividades humanas, as alterações na vegetação e até a poluição pelo petróleo devido ao seu comportamento deslizador sobre as ondas. A competição intra-específica por locais de nidificação pode também ser importante na limitação do tamanho das populações (Monteiro et al., 1996). O Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (SNPRCN, 1990) considera-a não ameaçada no arquipélago. Luís M. Arruda (2001)

Bibl. Bannerman, D. A. e Bannerman, W. M. (1966), Birds of the Atlantic Islands, vol. 3: A History of the Birds of Azores. Edimburgo e Londres, Oliver & Boyd. Chavigny, J. e Mayaud, N. (1932), Sur l’avifaune des Açores. Généralités et Etude contributive. Alauda (2), 3: 304-348. Faria, O. S. (1997), O nosso falar ilhéu. Angra do Heroísmo, Ed. Blu. Frutuoso, G. (1963), Livro Terceiro das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Of. Artes Gráficas: 38-42. Hartert, E. e Ogilvie-Grant, W. R. (1905), On the Birds of the Azores. Novitates Zoologicae, 12: 80-128. Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza (1990), Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, vol. I: Mamíferos, Aves, Répteis e Anfíbios. Lisboa, SNPRCN. Machado, F. S. L. (1991), Vocabulário regional colhido no concelho das Lages (ilha do Pico). Lajes do Pico, Associação de Defesa do Património da Ilha do Pico. Monteiro, L. R., Ramos, J. A. e Furness, R. W. (1996), Past and present status and conservation of the seabirds breeding in the Azores archipelago. Biological Conservation, 78: 319-328. Tucker, G. M. e Heath, M. F. (1994), Birds in Europe: their conservation status. Cambridge, Bird Life International.