Cabral, José Manuel de Medeiros
[N. Ponta Delgada, 7.9.1955 m. Porto, 20.12.1979] Pintor, também se dedicou à escrita, tanto ao nível de experiências poéticas, como de reflexão sobre convicções de ordem estética e social, em textos dispersos, nomeadamente nos catálogos das exposições que realizou ou em que participou. Nas actuações que desenvolveu, foi constante a preocupação de caucinar o lugar do artista na sociedade, tendo defendido ser, ele próprio, um artesão da liberdade criativa. Em 1 de Maio de 1975, num evidente esforço para desmistificar a produção artística tradicional e o respectivo consumo reservado a elites sócio-culturais, organizou uma exposição individual, ao ar livre, com pinturas, esculturas e objectos, na Praça Gonçalo Velho em Ponta Delgada. Durante esse evento, que denominou Exposição Para Trocar, o artista trocou as próprias obras por ferramentas, por víveres ou pelos mais diversos objectos que os transeuntes lhe oferecessem.
A obra pictórica deste artista surge simples porque despojada de efeitos rebuscados, técnicas complexas reservadas a iniciados ou decorativismos, em assumida postura contra a sedução do supérfluo. De facto, só uma grande economia de meios podia ser compatível com a Utopia que o levava a considerar a Arte como a melhor via para uma perfeita realização dos ideais de Igualdade, Liberdade e Paz. Trata-se de uma prática reveladora da coerência do pintor, com os seus ideais humanos, qual nostalgia de quebrar o isolamento do Artista, pela associação da criatividade à solidariedade humana. Para além do quadro Morte dum Intelectual por Isolamento, adquire particular significado, neste contexto, o tríptico intitulado Esclavagismo, Feudalismo e Capitalismo. No quadro Chuva Padrão compromete, através de uma obsessiva proposta rítmica de repetição de formas, a tradicional quietude de uma das mais paradigmáticas paisagens da sua ilha (Lagoas das Sete Cidades). Em Auto-Retrato, o jovem aluno da Faculdade de Belas Artes do Porto representa-se, pouco tempo antes de perecer, com um olhar de angustiante serenidade, em contraponto à perturbação visual causada pela vibração da complementaridade cromática aplicada nas formas que compõem o fundo. A sua competência técnica afirma-se na harmonia estrutural das composições pictóricas e na intencional marcação expressiva do desenho, em consonância com o que proclamava como propósito de rejeitar o bonito a favor do original.
Expôs individualmente no Museu de Ponta Delgada em 1977, ano em que ingressou na Faculdade de Belas Artes do Porto. Passou a integrar exposições nessa Instituição, na Universidade do Minho, assim como em galerias e outros espaços, em Braga, Viana do Castelo e Amarante. Conjuntamente com A. Barros, A. Modesto e M. Bismarck, organizou a mostra Pintura com Pés e Cabeça, prefaciada por João Dixo, Professor Assistente da Faculdade de Belas-Artes do Porto (Galeria de O Primeiro de Janeiro; Casino da Póvoa de Varzim e Faculdade de Economia do Porto).
Em 1980, o Museu da Faculdade de Belas-Artes do Porto organizou uma exposição dos seus trabalhos, como homenagem póstuma. O catálogo é prefaciado pelo Pintor Júlio Resende, decano daquela Faculdade. Em Dezembro de 1989 foi organizada uma exposição retrospectiva na Galeria Arco 8, em Ponta Delgada. Os trabalhos de sua autoria têm estado presentes em mostras colectivas, como Meio Século de Arte nos Açores, Horta, 1989 e está representado no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, com o auto-retrato acima referido. Tomaz Borba Vieira (Mai.2001)
