Cabouco
1 Freguesia do concelho da Lagoa, ilha de S. Miguel, com cerca de 5,43 km2, limitada pelas freguesias de Rabo de Peixe e Santa Bárbara, a norte, Nª Sª do Rosário, a ocidente e a sul, e Santa Cruz da Lagoa, a oriente. É uma pequena freguesia do interior da ilha, situada no planalto central, pelos 165 m de altitude, no sopé da serra de Água de Pau, circundado por pequenos picos formados por piroclastos vulcânicos, como os picos dos Castelhanos, do Cambado, Cigarreiro e Fonte Velha. A drenagem é muito deficiente, sem cursos de água permanentes.
Em 1991 contava 1405 habitantes, dos quais 710 homens e 695 mulheres (INE, 1991). M. Eugénia S. de Albergaria Moreira (2001)
HISTÓRIA, ACTIVIDADES ECONÓMICAS E CULTURAIS Apesar de só ter sido elevada a freguesia em 1980, o lugar do Cabouco desde cedo foi povoado, pois situa-se na parte central da ilha de S. Miguel, a mais baixa e propícia ao cultivo de vários produtos agrícolas. Trata-se de um vale fértil, circundado por picos altaneiros que o protegem dos ventos que assolam frequentemente os Açores. Nesta zona, encontramos um tipo de terreno característico das ilhas, o biscouto, terreno de lava que por reflectir bem o calor é óptimo para o cultivo de vinha e de árvores de fruto. Frutuoso (1926, II: 118) referindo-se ao Cabouco escreve: «É um deleitoso vale ornado com pequeno tanque, onde chamam cavouco, por ali nos biscoutos dele cavoucarem e tirarem pedra para seus muros e casas», daí o nome de Cabouco. Devido à sua fertilidade, as culturas predominantes eram as que maior riqueza davam à ilha de S. Miguel como o trigo, pastel, batata doce, vinha e frutas, não sendo pois de admirar que os grandes da ilha lá tivessem suas quintas, como foi o caso do capitão-donatário Rui Gonçalves da Câmara que possuía uma quinta na Fonte Velha, onde não faltavam as cerejas e as ginjas, as pêras, as maçãs, as romãs, as nozes, as castanhas e «arvores de espinhos de toda a sorte que nele havia e exquisitas arvores que com muita curiosidade mandava vir de remotas terras». Foi por estar nesta quinta em 1522, que Rui Gonçalves da Câmara se salvou com sua mulher e filho, do terrível cataclismo que soterrou quase por completo Vila Franca do Campo, na altura capital da Ilha e sede da residência principal do referido Capitão-Donatário. O nome de Fonte Velha, deve-se por aí se situar uma nascente, a única que na altura abastecia os habitantes deste lugar. Um ano depois, 1523, o Cabouco voltou a fazer história, devido ao aprisionamento, num dos seus palheiros, do mouro Badaíl, chefe de alguns escravos mouros. Estes, aproveitando a confusão de uma terrível peste, que se difundira a partir de Ponta Delgada, tinhamse revoltado, tornando-se salteadores de caminhos (Frutuoso, 1926, II: 166).
Na segunda metade do século XVII decorreu, no concelho de Lagoa, um assinalável movimento de construção de várias ermidas, por iniciativa de alguns devotos e beneméritos e, também, pela conveniência de corresponder às necessidades de assistência religiosa a determinados núcleos populacionais (Costa, 1974: 26). Inserido neste movimento, construi-se a ermida de Nossa Senhora da Misericórdia, no Cabouco, por Alvará de 22 de Junho de 1690, do Sr. Bispo D. Frei Clemente Vieira, que conferiu a respectiva licença : «Fazemos saber que por sua petição nos enviaram dizer o Capitão Manuel Roiz Canejo e sua mulher Maria de Payva, moradores na Villa de Lagoa de São Miguel, em como por sua devoção e serviço de Deus queriam erigir uma ermida de invocação a Nª Senhora da Misericórdia no sítio do Cabouco, limite da dita Villa de Lagoa e, suffragânea á paróquia de Nª. Sª. do Rosário, onde havia vinte e sinco fogos circunvisinhos e tan pobres que a maioria não ouvia missa nos dias de preceito» (Tavares, 1944: 61). Os fundadores dotaram a ermida com 2$000 réis de foro, imposto em cinco alqueires de vinha no Boqueirão por escritura de 6 de Março de 1690 e ainda, em seu testamento, deixaram 10$000 réis anuais, para o capelão que dissesse as missas na dita ermida, nos domingos e dias santificados. O capitão Manuel Teixeira Rabolo deixou uma esmola para ajuda do pagamento ao capelão que celebrava as ditas missas, ficando assim em 20$000 réis anuais (Tavares, 1944: 59). Em Dezembro de 1690 a ermida foi visitada pelo ouvidor, pe. Manuel Teixeira de Sousa, que a achou capaz e com paramentos próprios, benzendo-a na presença de muitos sacerdotes. No ano seguinte, em Abril de 1691 concedeu o bispo D. Frei Clemente Vieira licença para celebração de missa, sendo os casamentos, baptizados e demais serviços religiosos feitos na Igreja do Rosário. Junto à ermida havia um albergue onde pernoitavam forasteiros e os romeiros no tempo quaresmal, desconhecendo-se os seus fundadores (Tavares, 1944: 208). No século XIX, a ermida já se torrnara muito pequena e o seu cura, o pe. Cosme José de Sousa começou, em 1948, a construção da actual igreja, após autorização dada pelo Governo Civil em 17 de Dezembro de 1846. As despesas da construção foram pagas com o donativo da Junta da Paróquia do Rosário e outros colhidos por toda a ilha. Foi também a pedido do pe. Cosme que a Igreja em 1859 obteve licença para ministrar baptizados e casamentos (Livro de visitas I. Rosário, fol.118). Foi por iniciativa deste padre, que o Cabouco conseguiu a sua primeira escola primária mista em 1856, sendo o seu primeiro professor o Sr. José Francisco da Silva.
Em 1916 e 1917, na Igreja, grandes melhoramentos foram feitos pelo cura Laudalino da Ponte Faria, como o retábulo do altar-mor, com as ajudas do Sº. Joaquim Àlvares Cabral, Sº. José Marques Botelho, marquês Jácome Correia. Nas décadaas de 40 e 50, alguns dos altares laterais foram reconstruídos com ofertas do Dr. Francisco de Ataíde Machado de Família Faria e Maia e sua mulher D. Maria Joana Faria e Maia (Resendes, 1985: 3). Ainda hoje, no último domingo de Setembro, os descendentes destes beneméritos, recebem na sua Quinta do Tanque, toda a população que queira ver passar a procissão de Nª. Sª da Misericórdia sobre um tapete de flores expressamente feito para a ocasião. População muito religiosa, para além da festa da sua padroeira, desde sempre realiza três Impérios, nos dias de Pentecostes, Domingo da Trindade e no dia de S. João (Tavares, 1944: 251).
No Cabouco, a agricultura tem ainda um grande peso na economia e na vida familiar. Apesar de, em 2002, a maioria das terras estar coberta de pastagens e gado bovino, até há pouco tempo se cultivava o milho, trigo, fava, feijão, chicória que era escoada para as fábricas da Calheta, Pópulo, Lagoa e Ribreira Grande; batata-doce que era destilada na fábrica de álcool da Lagoa e beterraba para a fábrica de açúcar de Santa Clara em Ponta Delgada. No século XIX, ficaram célebres os seus pomares de citrínios, fruta que era exportada na maior parte para Londres e Liverpoool, e foi na Quinta do Tanque, que o desembargador Vicente José Ferreira da Costa, exprimentou várias culturas, nomeadamente a do chá e do tabaco (A. A., II: 156-158).
Por decreto da Assembleia Regional dos Açores de 1980, o Cabouco é desmembrado da freguesia do Rosário (Vila de Lagoa) e elevada à categoria de freguesia com uma população de 1200 habitantes. Segue-se em 10 de Março de 1985 a elevação do curato a paróquia.
No 10º aniversário da Junta de Freguesia, esta apresentou à população as suas Armas, com símbolos representativos das suas principais actividades: o arado, a espiga de trigo e a roda de nove dentes, esta últimas a representar a zona industrial da Chã do Rego de Água. O hino da freguesia, composição e letra de Emanuel Frazão Pereira, foi tocado pela primeira vez no auditório da Junta de Freguesia pela banda Lira do Rosário, cantado pela soprano Helena Margarida Oliveira Silva Lavouros, no dia 26 de Outubro de 1997.
Em 2002, a freguesia estava dotada de infra-estruturas como um polidesportivo, um polivalente onde funcionava um centro de dia para idosos, um posto de leitura e um clube de informática. Em 1979, por iniciativa de Maria de Lurdes Faria e Maia, foi inaugurado O Ninho, instituição de apoio sócio-cultural, orientada pelas Irmãs Escravas do Sagrado Coração, com um trabalho relevante na área do ensino pré-primário. Apesar de estar fechado, a Junta de Freguesia não esqueceu esta benemérita, homeneageando-a no 12º aniversário da elevação a freguesia (Jornal Diário dos Açores, 1992).
Instalado na Junta de freguesia, está o Museu Etnográfico, que reúne uma importante colecção de peças representativas da vida de seu povo. Desde 1986, a Junta edita um boletim informativo mensal denominado Haja Saúde. Margarida Vaz do Rego
2 Lugar sede da freguesia com o mesmo nome, do concelho da Lagoa, ilha de S. Miguel, situada na parte oriental da freguesia. 3 Lugar da freguesia de Raminho, concelho de Angra do Heroísmo, ilha Terceira, situado no limite ocidental da povoação, no vale da ribeira da Veiga. 4 Lugar da freguesia de S. Bento, concelho de Angra do Heroísmo, ilha Terceira, situado ao longo da estrada de S. Bento para Praia da Vitória. 5 Lugar desabitado da freguesia dos Mosteiros, concelho de Ponta Delgada, ilha de S. Miguel, situado na cumeeira ocidental da caldeira das Sete Cidades, na nascente da grota de João Bom. 6 Lugar dividido entre as freguesias da Ribeira Quente e da Povoação, concelho da Povoação, ilha de S. Miguel, situado na vertente da ribeira dos Bodes, pelos 150 m de altitude. 7 Elevação de 652 m de altitude, situada a sul das Caldeiras Funda e Comprida, na ilha das Flores. 8 Lugar desabitado da freguesia de Ponta Delgada, concelho de Santa Cruz das Flores, situado no alto da arriba da costa setentrional da ilha, entre as pontas do Ilhéu e dos Abrões. 9 Lugar da freguesia de Flamengos, concelho da Horta, ilha do Faial, situado na vertente sudoeste do pico *Cangueiro, pelos 500 m de altitude, sobranceiro à sede de freguesia. Pico do Cabouco Pequeno cone vulcânico com 391 m de altitude, situado num patamar da vertente nordeste da serra do Cume, na freguesia de Posto Santo, ilha Terceira. M. Eugénia S. de Albergaria Moreira (Mar.2002)
Bibl. Arquivo dos Açores (1980), Ponta Delgada, Universidade dos Açores, II. Costa, F. C. (1974), Memorial da Vila da Lagoa e do seu Concelho. Ponta Delgada. Id. (1989-91), Etnologia dos Açores. Lagoa, Câmara Municipal, I. Frutuoso, G. (1926), Livro Quarto das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Tip. do Diário dos Açores. Instituto Nacional de Estatística (1991), XIII Recenseamento Geral da População. III Recenseamento Geral da Habitação. Dados definitivos. Lisboa, INE. Resendes, M. A. F. (1985), Elementos coligidos sobre a Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia da Freguesia do Cabouco. Cabouco [policopiado]. Tavares, J. (1944), A Vila da Lagoa e o seu Concelho (subsídios para a sua História). Lagoa, Câmara Municipal.
