cabo verde

Nos primórdios da ocupação do espaço atlântico o mundo das ilhas teve um papel fundamental na afirmação da hegemonia portuguesa. Este mundo desde 1433 era definido pela posse e presença do Infante D. Henrique. O senhorio das ilhas englobava os três arquipélagos, ficando criadas as condições para o estabelecimento de relações assíduas. Em qualquer dos casos este relacionamento foi propiciado por esta forma de unidade senhorial, mas só terá possibilidades de se afirmar se outros factores o favorecessem. Neste caso deverá ter-se em conta as condições e formas de navegação como as possibilidades geradas pelo mercado insular. E, no caso de Cabo Verde, apenas o comércio de escravos funcionará como atracção para a presença dos açorianos, enquanto as relações comerciais, quase só num sentido, resultam da necessidade da volta pelo largo na rota de retorno, com paragem ou passagem obrigatória pelos Açores.

O avanço do reconhecimento geográfico ao longo da costa africana colocou o problema do retorno que ficou solucionado com a volta pelo largo com escala obrigatória nos Açores. As condicionantes naturais favoreceram o movimento unidireccional de Cabo Verde, nomeadamente a partir da ilha de Santiago para os Açores. No princípio foram as dificuldades de navegação que definiram este rumo que se manterá por contingência da protecção das embarcações contra os piratas e corsários.

O povoamento de Cabo Verde avançou em finais do século XV mas só teve impacto em algumas ilhas, como foi o caso de Santiago que se afirmou como o principal entreposto do comércio de escravos da Costa da Guiné. O comércio na área era monopólio dos senhores e da coroa, que os arrendava a diversas armações que se dedicavam ao trato de escravos com Cabo Verde e S. Tomé. De entre estes surgem alguns açorianos como Fernando Jorge, Rui Vaz do Gago, conhecido como o “do trato”.

Um breve relance sobre as Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso de finais do século XVI revela-nos a situação dos dois primeiros séculos. A presença de açorianos em Cabo Verde parece ser uma evidência. Muitos dedicavam-se ao comércio com esta área enquanto outros vieram aliciados pelo tráfico negreiro com o continente americano.

Simão Lopes de Almeida que viveu na Ribeira Grande, em S. Miguel, foi capitão da ilha do Fogo. E Gonçalo Tavares, chegando à ilha aliciado por António Fernandes, foi o seu locotenente.

Nas Velas, em S. Jorge, existia em 1559 o ofício de memposteiro-mor dos defuntos nas partes da Guiné, a que estava provido Manuel Fernandez Cabral. Isto resulta certamente da presença de inúmeros açorianos daí oriundos e que por sua morte necessitam de alguém que zelasse pela administração dos bens post-mortem. As condições agrestes à sobrevivência dos europeus, provocadas pelo paludismo, estão na origem desta situação.

A maioria dos açorianos, a darmos crédito ao que diz Gaspar Frutuoso, são de S. Miguel. Aqui realçam-se Sebastião Velho Cabral, Francisco da Costa, Estêvão Gago, Manuel Vaz, Roque Roiz e João Albernaz. Muitos faleceram em Cabo Verde, vítimas de paludismo.

Para além destes outros se destacaram pela actividade comercial. Assim Fernão Jorge, que vivia na Madeira, era um dos principais intervenientes do trato insular que incluía Cabo Verde. Rui Vaz Gago, natural de Beja, que ficou conhecido como do trato, é apresentado como o homem mais rico de Vila Franca com trato na Mina e Cabo Verde.

No decurso do século XVII o porto de Ponta Delgada parece que estava fora da órbita do mercado de Cabo Verde, mas isto não deverá ter contrariado a presença de açorianos nas ilhas, empenhados no comércio de escravos com as Índias de Castela. É o caso de Baltasar de Andrade que em 1699 se relacionava com Domingos Dantas da Cunha & Compª.

A partir daqui escasseiam as informações sobre o relacionamento entre os dois arquipélagos. Para o século XVIII foram as crises frumentárias que incentivaram este relacionamento. Os açorianos recebiam de Cabo Verde o milho capaz de suprir as deficiências, como sucedeu em 1747 com a galera Nossa Senhora do Bom Sucesso e Senhora do Bom Fim.

Nos séculos XVIII e XIX a economia açoriana havia reforçado os laços com o Brasil e a Inglaterra, relegando para segundo plano a rota africana da Costa da Guiné. A baleação a partir do século XVIII fez com que os caminhos se cruzassem entre os dois arquipélagos. Em 1879, António Gonçalves, da Ilha Brava, era trancador da barca baleeira americana Morning Star que encontrou a morte na baía do Faial.

No século XX, por força das alterações políticas e da afirmação do processo de autonomia das ilhas açorianas e independência de Cabo Verde abriram-se novas portas para o relacionamento entre os dois arquipélagos através do intercâmbio científico e político. Alberto Vieira (2001)

Bibl. Meneses, A. F. (1995), Os Açores nas Encruzilhadas de Setecentos (1740-1770). Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 2 vols. Afonso, J. (1998), Mar de Baleias e de Baleeiros. Angra do Heroísmo, Direcção Regional de Acção Cultural. Frutuoso, G. (1983), Livro Terceiro das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Id. (1977-1987), Livro Quarto das Saudades da Terra. Ponta Delgada. Id. (1978), Livro Sexto das Saudades da Terra. Ponta Delgada.