cabaça

HISTÓRIA NATURAL Fruto da cabaceira ou abóbora cabaça, nomes vulgares da Lagenaria siceraria (Cucurbitaceae). Por vezes também se dá a designação de cabaça à planta que as produz, ou seja, à cabaceira.

Lagenaria deriva do grego lagenos que significa garrafa e é uma referência à forma do fruto. A cabaceira é uma planta herbácea, anual, monóica, trepadora e robusta que pode atingir os 10 m, com ligeiro aroma a amiscar; tem folhas ovado-cordadas, raramente lobadas, sinuado-dentadas, pubescentes; gavinhas bifurcadas; flores de corola branca, rodada, profundamente partida, com os segmentos mucronados, solitárias, pediceladas, as flores masculinas são maiores do que as femininas e têm os pedicelos mais longos; os frutos, de tamanhos e formas variadas, apresentam sempre um estrangulamento, enquanto jovens, têm pele esverdeada, mas à medida que vão envelhecendo vão-se tornando amarelados e a película vai-se tornando mais dura, a polpa é branca; as sementes são brancas e é através delas que a planta se reproduz.

A cultura é idêntica à das outras abóboras mas para os frutos ficarem perfeitos e amadurecerem mais rapidamente, deve-se-lhes proporcionar uma latada. Largamente cultivada nas zonas quentes, foi domesticada separadamente no Novo e no Velho Mundo e encontra-se naturalizada em muitas regiões.

Os frutos muito jovens são comestíveis e saborosos. Depois de maduros, esvaziados e secos transformam-se em cabaças. Podem ser arredondadas ou mais alongadas, e, até podem ser moldadas, introduzindo os frutos ainda pequenos em moldes, técnica usada na China e no Turquestão. Noutras regiões são embelezadas com pinturas, incrustações de madrepérola ou de vários metais.

Na falta do sol, para lhes endurecer a casca, completava-se a secagem ao fumeiro, dando-lhes assim a necessária resistência. Raquel Costa e Silva (Mai.2001)

ETNOGRAFIA Tem sido usada como caixa de ressonância de instrumentos musicais como bóias mas, sem dúvida, o transporte de líquidos tem sido a sua utilização mais corrente. Nos Açores foram largamente usadas no início do povoamento, serradas, substituíam a louça, muito rara nessa época, forradas de barro, foram usadas para cozinhar e, também, no transporte e conservação de líquidos. Também se encontraram nestas ilhas velhos instrumentos musicais rudimentares em que as cabaças serviam de caixas de ressonância. As cabaças com a capacidade de 10-12 l eram usadas no transporte e venda de leite, particularmente nas Ilhas Terceira, S. Jorge, Flores e no Corvo. Nesta ilha ainda eram usadas em época recente.

Quando atingia o tamanho adequado, era apanhada, abria-se-lhe a boca, era lavada com água e pedras até não restar nenhum vestígio de miolo, raspada e seca no fumeiro. Na ilha do Corvo a cabaça era marcada em verde com as iniciais do dono.

As cabaças foram sobretudo usadas para o transporte do leite até aos postos de recolha onde se fazia a manteiga, ou para a venda porta a porta, no caso da cidade de Angra do Heroísmo, onde o homem do leite foi visto até ao princípio do século XX. Há porém um relato oitocentista do capitão Boid, oficial inglês que incorporou as tropas liberais, sobre o seu uso no fabrico da manteiga nos arredores de Angra, que dizia assim: “põe-se uma certa quantidade de nata numa cabaça, que é agitada e mantida em constante movimento de rotação por mulheres que andam de um lado para o outro”.

Este elemento da cultura tradicional insular ficou na tradição, fazendo parte da referida figura do homem do leite terceirense, com o seu traje de barrete de borla, camisola e as suas cabaças ao peito e presas pelo sedanho (cordão de pêlo do rabo de bovino). Helena Ormonde (Mai.2001)

Bibl. Boid, C. (1949), O Distrito de Angra. Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, Angra do Heroísmo, 7: 264 [Trad. dos caps. III, IV e V (pte. II) da obra A Description of the Azores, Londres, 1835, por H. Anglin]. Costa, C. (1952), O emprego da «Lagenaria Vulgaris» nos Açores. Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores. Ponta Delgada, 15, 1º sem.: 165-166. Coutinho, A. X. P., (1913). A Flora de Portugal. Lisboa: 598. The New Royal Horticultural Society Dictionary of Gardening (1992), Londres, MacMillan Press, 3: 9. Pires, A. M. B. M. (1976), A Pastorícia dos Bovinos na Ilha Terceira (1969). Ibid., 24-32: 231-398.