briologistas

As explorações botânicas no Arquipélago dos Açores foram iniciadas em meados do no século XVIII por Adanson (1757), mas nessa época e praticamente até ao final do século passado, os diferentes naturalistas que exploraram a maioria das ilhas tinham como principal objectivo a preparação de colecções de herbário e carpológicas. Os briófitos, embora tenham feito parte das colheitas efectuadas por naturalistas posteriores, como C. Hochstetter ou H. Watson, só surgem referidos numa primeira publicação em 1862, por Russel. Este autor refere algum material de briófitos colhido na ilha do Faial por Thomas Higginson, integrado numa colecção de criptogâmicas, particularmente líquenes.

Não podemos considerar como briologistas outros naturalistas que exploraram posteriormente os Açores (Palhinha, 1947) e que ao efectuarem colecções de referência colheram também briófitos. Na realidade, muitos desses colectores não eram briologistas, tendo no entanto as suas colheitas sido estudadas pelos mais importantes especialistas europeus que integraram nos seus trabalhos os resultados dessas colheitas.

Na primeira flora açoriana, publicada em 1844 por Moritz Seubert, são incluídos alguns musgos, colhidos por este autor mas identificados por Ph. Schimper. Do mesmo modo, o naturalista inglês Frederick Godman, após ter visitado quase todas as ilhas dos Açores no ano de 1865, preparou uma importante colecção de briófitos que foi estudada, na sua grande parte, por W. Mitten. Parte da colecção de Bruno Tavares Carreiro, realizada nos últimos anos do século passado, foi estudada pelo briologista francês J. Cardot (1897, 1905), e que deverá estar no Museu de História Natural de Paris. Uma outra parte encontra-se hoje por estudar no herbário do Instituto Botânico de Coimbra. A Tavares Carreiro foi dedicada a espécie Campylopus carreiroanus Card.

W. Trelease, que esteve nos Açores nos anos de 1895 e 1896 (Palhinha, 1947),  talvez tenha sido o primeiro briologista estudar as suas próprias colecções e refere o maior número de citações para o arquipélago. A este briologista foram dedicadas as espécies Hyophila treleasii Card. e Leucodon treleasei (Card.) Par.

Há a referir a botânica inglesa Eleanora *Armitage, que entre as suas viagens visitou a ilha de S. Miguel em 1931, onde colheu interessantes briófitos, estudados por H. Dixon.

É no entanto neste século que se pode considerar a briologia como ciência independente, embora abrangendo estudos quase exclusivamente florísticos. Como destaque referimos o briologista A. Luisier, que preparou a primeira flora briológica das ilhas atlânticas (1927-1948), embora grande parte das suas colheitas tenha sido feita na Madeira e no Continente. Esta obra tem sido considerada a mais importante na área da briologia das ilhas atlânticas. Entre as espécies dedicadas a A. Luisier pode ser referido Fissidens luisierii Potier de la Varde, musgo endémico da Macaronésia.

Embora não sendo briologistas, podemos referir Rui de Telles Palhinha e Luís Sobrinho, que efectuaram algumas colheitas de briófitos em quase todas as ilhas açorianas, entre 1934 e 1937 (Palhinha, 1947), juntamente com a importante exploração botânica ao arquipélago. Este material ainda não se encontra totalmente identificado no Herbário do Jardim Botânico de Lisboa.

Foi naquele ano de 1937 que os Açores foi visitado por maior número de briologistas. Estiveram explorando, simultaneamente, Sobrinho, naturalista do Jardim Botânico de Lisboa, com o briólogo sueco H. Persson e com o casal Allorge, na ilha de Santa Maria (Palhinha, 1947). Persson descreveu, em colaboração com outros briologistas, 8 hepáticas novas para a ciência e a ele foram dedicadas várias espécies, como Trematodon perssonorum Allorge & Ther. e Fissidens perssonii P. Varde.

O mais importante trabalho sobre a briologia açoriana é devido a Pierre e Valentine Allorge, que estiveram nos Açores entre 27 de Maio a 24 de Agosto de 1937. Ainda hoje pode ser considerado o estudo com mais profundidade e com maiores resultados científicos de sempre. Estes investigadores estiveram em contacto e desenvolveram algumas explorações de campo em companhia de botânicos portugueses, entre eles Sobrinho e M. Teotónio da Silveira Moniz, botânico que foi Director da secção de botânica do Museu Carlos Machado (Tavares, 1956). Moniz foi briologista amador, tendo organizado uma importante colecção de briófitos nesse museu açoriano. Algum do seu material foi estudado por P. e V. Allorge e outros briologistas que lhe dedicaram novos taxa como, Aphanolejeunea teotonii Allorge & J.-Ast e Glyphomitrium daviesii var. teotonianum P. Varde.

Ao casal Allorge foram dedicadas várias espécies de briófitos açorianos, mas a espécie mais interessante, por ser um endemismo, foi Plagiochila allorgei Herz. & H. Perss.

Os primeiros estudos em que a briologia passou a incluir uma componente ecológica foram iniciados nos anos 60 por E. Sjögren, sendo de destacar os primeiros trabalhos integrando dados fitossociológicos. Estes tiveram como base explorações de campo em quase todas as ilhas, efectuadas desde 1968 até  1997 por este briologista da Universidade de Upsala. Num trabalho geral, publicado em 1978, é sintetizado para cada taxon a distribuição de cada espécie, assim como as suas afinidades fitogeográficas e tendências ecológicas.

A. von Hübschmann (1971), embora tenha desenvolvido estudos apenas baseados na brioflora da ilha de S. Miguel, pode ser destacado como um dos briologistas na área da fitossociologia para o arquipélago dos Açores.

Mais recentemente devem ser referidas as explorações, embora restritas a poucas ilhas, de A. Crundwell (Santa Maria em 1980, S. Miguel, Pico e Terceira em 1991) e H. Greven (Faial e Pico em 1992). Cecília Sérgio (Abr.1999)

Bibl. Adanson, T. (1757), Histoire Naturelle du Senegal. Paris. Allorge, V. (1951), Trematodon perssonorum Allorge et Theriot sp. nov. des Açores. Revue Bryologique et Lichénologique, 20: 179-181. Armitage, E. (1931), Some bryophytes of the Açores. Journal of Botany, 69: 75-76. Buch, H. e Persson, H. (1941), Bryophyten von den Azoren und Madeira. Commentationes Biologicae Societas Scientiaram Fenuicae, 8, 7: 1-15. Cardot, J. 1897), The mosses of the Azores. Annual Reports of the Missouri Botanical Garden, 8: 51-72. Id. (1905), Nouvelle contribution a la flore bryologique des Îles Atlantiques. Bulletin Herbier Boissier, (2), 5: 201-215. Bates, J. W. e Gabriel, R. (1997), Sphagnum cuspidatum  and S. imbricatum ssp. affine new to Macaronesia, and other new island records for Terceira, Azores. Journal of Bryology, 19, 3: 645-648. Casas, C., Brugues, M., Cros, R. M. e Sérgio, C. (1985), Cartografia de Briòfits. Península Ibèrica i les Illes Balears, Canàries, Açores i Madeira. Barcelona, Institut d'Estudis Catalans, 1: 1-50. Id. (1989), Ibid., 2: 51-100. Id. (1992), Ibid., 3: 101-150. Id. (1996), Ibid., 4: 151-200. Crundwell, A. C., Greven, H. C. e Stern, R. C. (1994), Some additions to the bryophyte flora of the Azores. Journal of Bryology, 18: 329-327. Gabriel, R. e Sérgio, C. (1995), Bryophyte survey for a first planning of conservation areas in Terceira Island (Azores). Cryptogamic Helvetica, 18: 35-41. González-Mancebo, J. M., Losada-Lima, A. , Hernández, C. D. e During, H. J. (1991), Bryophyte flora of volcanic caves in the Azores and the Canary Islands. Lindbergia, 17 : 37-46. González-Mancebo, J. M., Losada-Lima, A. e Hernández-Garcia, C. D. (1991), A contribution to the floristic knowledge of caves of the Azores. Mémoires de Biospéologie, 18: 219-226. Grolle, R. e Persson, H. (1966), Die Gattung Tylimanthus auf den atlantischen Inseln. Svensk Botanisk Tidskrift, 60: 164-174. Luisier, A. (1927), Les mousses de l'Archipel de Madère et en general des Îles Atlantiques. Brotéria, (Botânica), 23:5-48, 49-53, 129-145. Id. (1930), Id., Ibid., 24: 18-47, 66-96, 119-140. Id. (1931), Id., Ibid., 25: 5-20, 123-139. Id. (1932), Les mousses de l'Archipel de Madère et en general des Îles Atlantiques. Brotéria, (Ciências Naturais), 1: 164-182. Id. (1938a), Id., Ibid., 7: 78-95, 110-131. Id. (1938b), Hepáticas dos Açores. Ibid., 7: 187-189 Id. (1942), Les mousses de l'Archipel de Madère et en general des Îles Atlantiques. Ibid., 11: 29-41. Id. (1945), A família das Hookeriáceas na Península Ibérica e nas Ilhas da Madeira, Açores e Canárias. Las Ciencias, 10: 115-120. Id. (1945), Les mousses de l'Archipel de Madère et en general des Îles Atlantiques. Brotéria, (Ciências Naturais), 14: 78-94, 112-127, 156-176. Mitten, W. (1865), Contributions to the criptogamic flora of the Atlantic Islands. Journal Proceeding of the Linnean Society, 8: 1-10. Id. (1870), Musci, Hepaticae, In Godman F. (ed.), Natural history of the Azores or Western Islands. Londres: 286-328. Palhinha, R. T. (1947), Explorações botânicas nos Açores. Boletim da Sociedade Broteriana, 2: 37-52. Persson, H. (1948), On the discovery of Merceya ligulata in the Azores with a discussion of the so-called 'copper-mosses'. Revue Bryologique et Lichénologique, 17: 75-78. Russel, J. L. (1862), Some notes on the cryptogamic vegetation of Fayal, Azores. Proceedings of the Essex Institute, 2: 134-137. Seubert, M. (1844), Flora Azorica. Bona. Sérgio, C.,(1984), The distribution and origin of Macaronesian bryophyte flora. Journal of the Hattori Botanical Laboratory, 56: 7-13. Sérgio, C., Iwatsuki, Z. e Ederra, A. (1997), Fissidens luisierii P. Varde (Fissidentaceae, Musci) a neglected species from Macaronesia, misidentified as Fisidens serrulatus Brid. Ibid., 83: 237-249. Sim-Sim, M., Sérgio, C., Mues, R. e Kraut, L. (1995), A new Frullania species (Trachycolea) from Macaronesia, Frullania azorica sp. nov. Cryptogamie, Bryologie-Lichénologie, 16, 2: 111-123. Sjögren, E. (1978), Bryophyte vegetation in the Azores Islands. Memórias da Sociedade Broteriana, 26: 1-273. Id. (1997), Epiphyllous bryophytes in the Azorean Islands. Arquipélago, (Life and Earth Science), 15 A: 1-49. Trelease, W. (1897), Botanical observations on the Azores Annual Reports of the Missouri Botanical Garden, 8: 177-188. Tavares, C. N. (1956), Teotónio de Silveira Moniz, 13.X.1891-5.V.1953. Revue Bryologique et Lichénologique, 25: 188.