briologia
Como a ciência que estuda os briófitos, integra actualmente inúmeras vertentes ligadas ao avanço que tem tido o ramo das ciências da natureza. No entanto, a briologia, como ramo científico independente, era considerada até há poucas décadas como o estudo taxonómico e florístico de uma determinada área geográfica. Foi neste âmbito que foi iniciada por diversos naturalistas, de uma maneira muito incipiente, há cerca de dois séculos, a briologia no arquipélago dos Açores. Nessa época havia ainda uma curiosidade muito genérica e as primeiras investigações sobre a vida natural do arquipélago tinham um interesse quase exclusivamente ligado à utilidade das plantas, quer para usos médicos quer agrícolas. Assim, como era de esperar, foram as plantas vasculares as primeiras a ser estudadas nos Açores (Adanson, 1757). Dos briófitos, embora tenham feito parte das colheitas efectuadas por naturalistas posteriores como C. Hochstetter e H. Watson, só aparece a primeira publicação em 1862, da autoria de J. L. Russel. Nesta são referidas 37 espécies de briófitos (5 hepáticas e 32 musgos). Até à actualidade, apesar de serem vários os trabalhos onde são referidos briófitos dos Açores, na generalidade incluem estudos de revisão taxonómica de grupos particulares, não sendo muitos os trabalhos de síntese.
As referências mais importantes têm início no trabalho de Godman (1870), que integra também plantas vasculares. Como conhecimento-base no final do século passado, há ainda a referir a obra de Trelease (1897), onde são referidas 32 hepáticas e 104 musgos. Até 1950-1952, quando P. e V. Allorge apresentam uma súmula geral de toda a brioflora açoriana, estavam referenciados para os Açores cerca de 100 hepáticas e 245 musgos.
Este incremento no estado de conhecimento da biodiversidade em briófitos deve-se sem qualquer dúvida aos estudos de J. Cardot, E. Armitage, F. Stephani, K. Müller, H. Buch e H. Persson. Não deve ser deixada sem referência a obra de A. Luisier, que foi o primeiro briologista a publicar uma flora de briófitos para as ilhas atlânticas (1931-1945).
Os estudos de campo mais importantes realizados nos Açores foram, sem dúvida, os do casal Allorge, em 1937, durante os quais foi colhida a melhor colecção de referência que tem o mérito de estar arquivada num dos melhores herbários mundiais, o do Museu de História Natural de Paris. Outra importante colecção foi efectuada na mesma época por H. Persson, tendo servido em parte de base às publicações de Allorge e que se encontra no Museu de História Natural de Estocolmo.
Até 1952, data do último trabalho do casal Allorge, estavam referidos para o arquipélago dos Açores 159 espécies de hepáticas e 245 musgos.
Actualmente, como já foi referido, a brioflora dos Açores inclui cerca de 310 espécies de musgos e 170 espécies de hepáticas, número previsivelmente esperado tendo em conta o estudo desenvolvido para os diferentes países europeus (Söderström 1998). No entanto, algumas novidades podem vir a ser encontradas, dado estar em curso uma revisão geral das colecções clássicas já referidas e do inúmero material não estudado, arquivado nos diferentes herbários. Tem havido um esforço para fazer incidir estudos e novas colheitas em grupos críticos, com a finalidade de solucionar alguns problemas sobre a identidade de diversas espécies menos conhecidas, ou de apresentar a sua distribuição. Neste projecto estão integrados briologistas da Universidade de Lisboa, Barcelona, Liége, Praga, Jardim Botânico da Madeira, entre outros.
Os briófitos, além de elementos sensíveis aos poluentes ambientais, são indicadores das flutuações climáticas, ou das alterações provocadas por modificações no tipo de uso do solo ou de descontroles provocados por deficiente gestão ambiental. Sendo assim, compreende-se que os briófitos sejam talvez os organismos mais ameaçados na Europa e que muitas espécies estejam integradas nas listas vermelhas de diversos países europeus. No entanto, embora nos Açores exista um grupo de briófitos que deveria ter um estatuto especial de protecção, por serem raros ou endémicos (Gabriel e Sérgio, 1995), a grande maioria encontra-se ainda relativamente bem preservada nas floras da Macaronésia. É ainda de referir que, embora se desconheça e se torne difícil avaliar os estragos sofridos na vegetação natural dos Açores com a introdução de culturas intensivas, como a da cana-de-açúcar e a dos ananases, a destruição sistemática das leivas para a cama dos ananases poderá ter sido catastrófica em algumas áreas. Para cada planta de ananás são necessários 200 kg de terra vegetal e nesta, grande parte é constituída por leiva, sobretudo formada por camadas de Sphagnum e matos de ericáceas (Moreira, 1987).
No entanto, tendo em conta a existência de habitats bastante puros, onde existem ainda espécies tidas como ameaçadas na Europa, assim como o elevado grau de endemismos açorianos, foram integrados na Lista Vermelha da Europa bastantes briófitos açorianos (ECCB, 1995).
As ameaças aos briófitos são cada vez em maior escala em todo o mundo (Hallingbäck, 1998), mas as mais latentes e mais desastrosas para a brioflora dos Açores são a destruição da floresta natural, a aplicação em grande escala da moderna agricultura, o uso excessivo de fertilizantes e pesticidas e a falta de saneamento básico.
Assim, cada vez mais se torna necessário promover o conhecimento e divulgar a importância que os briófitos desempenham nos ecossistemas naturais e muito particularmente nos Açores, onde os briófitos (as leivas) dominam.
Com o projecto Cartografia Ibérica, incluindo as ilhas da Madeira, Canárias e Açores (Casas et al., 1982-1996), tem havido a possibilidade de fazer revisões de grupos prioritários sob o ponto de vista taxonómico ou corológico. Grande parte da base desta cartografia é constituída pelos inúmeros espécimens de herbário, arquivados em colecções clássicas e efectuadas por todos os briologistas anteriormente referidos e ainda por C. Sérgio.
Actualmente, e desde os anos 80, os objectivos dos novos estudos incidiram ou irão integrar grupos taxonomicamente críticos. Assim, os trabalhos em biossistematica em curso, têm apoio de técnicas modernas no campo da genética, fisiologia e bioquímica. Na realidade, dado que algumas diferenças específicas, podem estar associadas a variáveis ambientais conhecidas ou diferentes genotipos, estes estudos poderão servirem de base a trabalhos de ecologia aplicada, biologia de populações, entre outras. Também, a investigação em biodiversidade deverá ter como objectivos, para além do conhecimento base da brioflora açoriana, a obtenção de bases científica para programas de conservação da flora, a caracterização ecofiológica de endenismos assim como estudos mais aplicados como a bioquímica. É neste âmbito que se integram os projectos dos briologistas da Universidade de Lisboa, Cecília Sérgio e Manuela Sim-Sim e da Universidade dos Açores, Eduardo Dias e Rosalina Gabriel.
Com a evolução que da briologia, sobretudo a partir do conhecimento das floras tropicais, muitos especialistas vão compreendendo cada vez melhor a necessidade de serem feitos estudos conjuntos ou integrados, revendo géneros complexos. Assim, um objectivo de R. Schumaker, Professor da Universidade de Liége, é, além da elaboração de novas colheitas em áreas prioritárias, a revisão crítica das espécies de briófitos para a totalidade das ilhas açorianas. Entram neste estudo colaboradores das universidades de Lisboa, de Praga e do Imperial College de Londres e outros.
Podemos referir ainda alguns estudos desenvolvidos pela equipe da Universidade de La Laguna, Tenerife, dirigida por González-Mancebo, que muito recentemente se dedicou à brioflora das grutas e fumarolas dos Açores e Canárias. Cecília Sérgio (Abr.1999)
Bibl. Adanson, T. (1757), Histoire Naturelle du Senegal. Paris. Allorge, P. e Allorge, V. (1950), Hépatiques recoltées par P. et V. Allorge aux îles Açores en 1937. Revue Bryologique et Lichénologique, 19: 90-118. Id. (1952), Mousses recoltées par P. et V. Allorge aux îles Açores en 1937. Ibid., 21: 50-95. European Committee Conservation of Bryophytes (1995), Red Data Book of European bryophytes. Part. 1-3: Threatened mosses and liverworts in
