bovinotecnia
Durante o povoamento os bovinos eram criados ao ar livre, sem arribanas, nas pastagens naturais postas a descoberto pela remoção dos matos densíssimos que as revestiam (Frutuoso, 1979). Com as pedras espalhadas à superfície dos solos, os primeiros lavradores foram construindo as tão conhecidas paredes que dividem, mesmo em nossos dias, as áreas de exploração dos rebanhos. Nessa época os animais não tinham dono, eram património da comunidade e qualquer pessoa apropriava-se deles para os trabalhos agrícolas ou para os explorar como máquinas produtoras de carne, de leite e ou dos valiosos subprodutos dos abates, como por exemplo as peles, de tão grande utilidade naquele tempo (Frutuoso, 1979).
À medida que as terras iam sendo distribuídas pelas famílias instaladas, os bovinos passavam a ter marca ou sinal e a receber mais cuidados de que bem precisavam.
É sabido que a Região está sujeita a ventos fortes e a chuvas abundantes, embora as temperaturas médias gravitem à volta de +/- 17º C (Bruges, 1915). Por estranho que pareça, pouca gente se preocupava com a construção de abrigos cobertos para o gado pois as paredes protegiam um pouco os animais e até constituíam um modo simples de combater a erosão dos solos.
No entanto, com o rolar dos séculos foi-se percebendo que a produção de leite e de carne dependia da qualidade das pastagens, dos cuidados com a saúde dos animais, das raças exploradas e do próprio modo como eram exploradas; graças à investigação científica foram feitos grandes progressos na alimentação do gado que passou a dispor de melhores rações de conservação e de rações de produção proporcionais às necessidades de crescimento, da engorda e da produção leiteira. Assim apareceram as palhas, as folhadas, os fenos, os outonos, as silagens e as rações industriais e as cercas eléctricas, para disciplinar o consumo de erva.
As ordenhas manuais eram feitas sem cuidados especiais de higiene, frequentemente debaixo de chuva e submetidas às ventanias. Começaram então a ser constituídas as chamadas cortinas de abrigo ou sebes vivas, que substituem com vantagem as arribanas. Apareceram também as máquinas de ordenha, que tiveram de ser montadas em atrelados puxados por jipes ou tractores e que se deslocam às pastagens.
Como não podia deixar de acontecer as doenças dos animais também fizeram a sua aparição nestas paragens. Foi notável o combate aos carbúnculos bacterídeo e sintomático, às diversas parasitoses, às intoxicações alimentares, às mamites, à brucelose, às distocias e às febres vitulares.
Mais recentemente começaram a surgir outros problemas técnicos, relacionados com as escolhas das produções (de leite e de carne) mais vantajosas para a Região. Nas ilhas maiores e com pastagens mais extensas não foi difícil perceber que a produção leiteira dava rendimentos superiores aos da produção de carne. Nas ilhas mais pequenas, com menos mão-de-obra disponível, tal orientação não era tão óbvia. Por isso em S. Miguel e na Terceira a indústria de lacticínios desenvolveu-se e modernizou-se com alguma rapidez (Rego, 1995). A ilha de S. Jorge manteve-se fiel à produção artesanal de queijo.
Com os aumentos apreciáveis de consumo de leite, de lacticínios e de carne em todo o País, as pressões dos mercados nacionais sobre a produção açoriana foram crescendo e o resultado final foi a intensificação da produção leiteira, sem grande prejuízo da produção de carne. Para tanto procedeu-se à escolha da raça bovina mais leiteira - a Holandesa, aperfeiçoada pela sua variedade americana - Holstein (Armas, 1986; Maia, 1951; Pires, 1997). Mais, a utilização da inseminação artificial em 1964 facilitou, notavelmente, a sua expansão em todo o arquipélago e neste campo os Açores até foram pioneiros, pois iniciaram o uso de sémen congelado em Portugal.
Importaram-se também raças especializadas na produção de carne como a Charolesa, a Limousin, a Simmental e a Fleckvieh que vêm sendo utilizadas em cruzamentos de primeira geração com a Holstein. A antiga mestiçagem da bovinicultura açoriana deu assim lugar, em quatro décadas, a uma pecuária moderna (Pires, 1997).
Como pode verificar-se pela leitura dos dados estatísticos (quadros 1 e 2), entre 1985 e 1997 houve uma redução o número de explorações com bovinos, mas um aumento do número destes. Assim, as explorações pecuárias, quase todas do tipo familiar autónomo, transformaram-se em unidades económicas mais eficientes, com mais bovinos, não obstante o número de explorações ter diminuído.
Recuperaram-se extensos baldios, melhorou-se o abastecimento de água às explorações pecuárias, abriram-se numerosos caminhos de penetração em zonas de acesso difícil e até algumas terras baixas, mais vocacionadas para as produções essencialmente agrícolas, foram invadidas pela bovinicultura, devido ao Plano Pecuário dos Açores. O quadro 3 indica a área média de pastagem por exploração e população da cada ilha, em 1995.
A preparação profissional dos lavradores-criadores de gado subiu de nível com a divulgação escrita e audiovisual e pela intervenção crescente dos técnicos superiores formados nas universidades nacionais, incluindo a jovem Universidade dos Açores.
A importância económico-social da bovinicultura açoriana é relevante aos vários níveis regional e nacional e por tal facto vem merecendo forte colaboração da União Europeia, essencialmente no sentido de a manter competitiva (Lima, 1996; Medeiros, 1996; Pires, 1997). José Leal Armas (Fev.1999)
Bibl. Armas, J. L. (1963), A Propósito do Fomento Pecuário In Livro da II Semana de Estudos dos Açores. Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura/ Fundação Calouste Gulbenkian. Id. (1968), Algumas considerações sobre a Pecuária dos Açores. Atlântida, XII, 1-2: 87-113. Id. (1982), Produção de Carne nos Açores. Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, XL: 101-121. Id. (1986), Contribuição para a História da Produção de Leite e de Lacticínios nos Açores. Ibid., XLIV: 273-292. Cherney, J. H. e D. J. R. (1996), Grass for Dairy Cattle. UK, Cambridge University Press: 403. Cuenca, C. L. (1945), Zootecnia. Madrid, Imprenta Y Editorial Viuda de Juan Pueyo, Luna: 1132. Dechambre, P. (1913), Traité de Zootechnie, tomo III: Les Bovins. Paris, Charles Amat. Direcção Geral dos Serviços Veterinários (1981), Bovinos de Portugal. Lisboa, DGSV: 327. Direcção Regional de Desenvolvimento Agrário (1998), Estatística. Angra do Heroísmo, DRDA. Direcção Regional de Estudos e Planeamento (1988), Estatísticas. Angra do Heroísmo, DREPA. Esminger, M. E. e Perry, R.C. (1997), Beef Cattle Science. Danvill, Illinois, Interstate Publishers, Inc.: 1104. Institut National de la Recherche Agronomique (1992), Eléments de génetique quantitative et application aux populations animales. Productions Animales, Paris, INRA, nº especial. Instituto de Alimentação e Mercados Agrícolas (1996), Relatórios.
Quadro 1 Número de Explorações com Bovinos; Fonte: SREA
|
|
1985 |
1997 |
|
Santa Maria |
549 |
355 |
|
S. Miguel |
3 992 |
3 460 |
|
Terceira |
2 781 |
2 444 |
|
Graciosa |
486 |
323 |
|
S. Jorge |
1 252 |
816 |
|
Pico |
1 572 |
936 |
|
Faial |
1 263 |
914 |
|
Flores |
677 |
406 |
|
Corvo |
72 |
42 |
|
Total |
12 644 |
9 696 |
Quadro 2 Número de Bovinos; Fonte: SREA
|
|
1985 |
1997 |
|
|
3 929 |
4 619 |
|
S. Miguel |
70 172 |
94 908 |
|
|
45 328 |
50 849 |
|
Graciosa |
3 463 |
4 605 |
|
S. Jorge |
14 748 |
15 067 |
|
Pico |
17 711 |
18 571 |
|
|
14 087 |
13 842 |
|
|
6 173 |
6 010 |
|
Corvo |
803 |
750 |
Total |
176 414 |
209 221 |
Quadro 3 Área média de pastagem por exploração e População (1995); Fonte: SREA
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Área (ha) |
População |
|
Santa Maria |
7,07 |
