bovinos
À medida que iam sendo descobertas, no século XV, pelos portugueses, as ilhas dos Açores revelaram possuir uma vegetação arbórea e arbustiva variada e abundante, ao contrário do que acontecia com a fauna. Perante esta realidade, o Infante D. Henrique ordenou o envio imediato para aquelas ermas paragens de bovinos, equinos, asininos, ovinos, caprinos, suínos e aves para servirem de apoio na fixação do homem à terra (Frutuoso, 1979).
Volvidos poucos anos deu-se início ao povoamento com gente do continente português, da Madeira e alguma da Flandres, naturalmente acompanhada de mais animais, como garantia, razoavelmente segura, da sobrevivência humana nestas terras tão isoladas no Atlântico. Rezam as crónicas da época que a maioria dos bovinos criados em plena liberdade e sem a companhia do homem ficaram tão ariscos que houve necessidade de os domesticar.
O movimento de pessoas parece ter contribuído não só para a variedade de modos de ser e de reagir das populações das diversas ilhas, mas também para as diferenças raciais dos primeiros bovinos da Região Insular (Armas, 1986). Os primeiros povoadores utilizaram os bovinos essencialmente como produtores de carne, de leite e de trabalho.
Sobre as produções pecuárias durante os séculos XVI, XVII e XVIII pouco se sabe. Não consta que tivesse havido exportações significativas de carne, de queijo ou de manteiga. Houve períodos de actividade agrícola florescente nos dois primeiros séculos, como foram as produções de trigo e de cevada; do pastel e do vinho no século XVII e a da laranja nos séculos XVIII e XIX, alternando com períodos de dificuldades económicas. No último terço do século XIX a agricultura açoriana deu início ao fomento das produções pecuárias, graças à Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, que incentivou a importação de raças exóticas muito melhores produtores do que as mestiças nacionais existentes (Armas, 1986; Maia, 1945).
Infelizmente o aumento das produções de carne e de leite não era viável apenas com a aquisição de reprodutores estrangeiros, aliás frequentemente escolhidos sem bases técnicas recomendáveis. Só a partir das últimas quatro décadas é que foi possível desenvolver uma bovinicultura mais adequada às potencialidades locais, com a aceitação progressiva pela lavoura de novas tecnologias agrícolas e zootécnicas. As condições edafo-climáticas do Arquipélago são favoráveis à produção de carne e de leite, mas os mercados e a contabilidade agrícola recomendaram o fomento prioritário da produção leiteira e relegaram a produção de carne para a situação de subproduto desta última. Só não aconteceu esta realidade nas ilhas com menos mão-de-obra disponível e com pastagens mais reduzidas, mais altas e mais pobres.
No período de 1949 a 1952 era possível observar os seguintes aspectos:
S. Miguel Já era notória a prevalência das raças Holandesa e Holstein, apesar de ter sido uma ilha que a partir de 1843 importou numerosos reprodutores bovinos estrangeiros como os Guernsey, os Jersey, os Durham, os Hereford, os Angus, os Devon, os Galloway, os Bretões, os Schwtz, os Ayrshire, os Normandos, os Saler e os Shorthorn (Maia, 1945).
Santa Maria Predominava o gado vermelho e vermelho malhado com alguma provável influência Algarvia e Alentejana. A ilha importou vários reprodutores de S. Miguel e da Terceira.
Terceira Havia uma mestiçagem descontrolada de raças nacionais e estrangeiras, mas com duas excepções: a) O chamado gado do Ramo Grande, predominante nas zonas próximas da Praia da Vitória. Eram bovinos de grande estatura, vermelhos e vermelhos malhados, longilíneos e de chanfro em geral convexo; b) a raça Brava, vivendo isolada em áreas de vegetação pobre (Bruges, 1915; Dechambre, 1913). As raças estrangeiras importadas e que se encontram referidas em diversas publicações são quase as mesmas recebidas por S. Miguel. Eram a Holandesa, a Holstein, a Durham, a Normanda, a Schwitz, a Jersey, a Shorthorn, a Ayrshire (Bruges). A raça Brava deve ter uma origem espanhola, embora haja quem admita que mesmo antes da invasão filipina (1580) já houvesse gado bravo nesta ilha. Existe uma referência sobre a entrada de um casal Barrosão. Nos finais da década de 50 os serviços oficiais promoveram a importação de vários bovinos Dairy Shorthorn.
Graciosa Notava-se uma forte semelhança com o panorama pecuário da Terceira, mas sem gado Bravo.
S. Jorge Repetia-se o aspecto da Graciosa, mas com uma ligeira influência Ayrshire.
Faial Registava-se o mesmo predomínio de cruzamentos nacionais com estrangeiros e algum gado vermelho com características flamengas.
Pico Eram nítidas as influências de S. Jorge, do Faial e da Terceira.
Flores Verificava-se a influência do gado do Faial.
Corvo Acontecia o mesmo que nas Flores mas existiam lá bovinos muito pequenos, elipométricos de origem algo desconhecida. Alguns zootecnistas admitiram serem descendentes de raça Algarvia mas provavelmente eram mestiços adaptados ao ambiente de montanha com pastagens pobres.
Nos aspectos geno e fenotípico, o arquipélago sofreu aquilo a que muitos chamam holandização, que significa um forte predomínio da raça Holandesa-Frísia e em especial da sua variedade americana, Holstein.
Isso aconteceu de uma forma nítida em S. Miguel e Terceira e algo menos acentuado nas restantes ilhas. Recentemente verificou-se também a importação de bovinos de carne das raças Limousin, Charolesa, Simmental Fleckvieh, com maior intensidade no Pico, no Faial e nas Flores. Tais reprodutores vêm sendo utilizados nos chamados cruzamentos de primeira geração com as Holandesa- Holstein. Deste modo, ao mesmo tempo que se intensificou a produção leiteira, melhorou-se também a produção de carne.
A ilha de S. Miguel, depois de ter eliminado os mestiços existentes pelos cruzamentos de absorção com a raça Holandesa, ao ponto de julgar ter constituído uma raça de produção mista a que chamou Holando-Micaelense e de ter feito uma experiência de criação da raça Red Danish nas zonas altas, acabou por melhorar as produções do gado existente com o uso de sémen congelado Holstein e com a importação de novilhas holandesas e alemãs e pouco gado de carne.
A ilha Terceira tentou nos anos 40, através dos seus serviços oficiais de pecuária introduzir a raça Dairy Shorthorn mas a Lavoura não aceitou bem a ideia e a partir de 1964 difundiu a raça Holstein americana através da inseminação artificial que rapidamente foi aceite em todo o Arquipélago e até reforçada com a importação de novilhas e novilhos holandeses e alemãs.
As restantes ilhas, com a nova técnica da inseminação artificial, começaram a seguir na medida do possível o rumo das anteriores.
A *bovinotecnia mudou assim, de uma forma radical, em apenas cerca de quatro décadas, o que explica, em parte, a orientação zootécnica seguida. A produção leiteira tem aumentado de uma forma inesperada. A quantidade de leite industrializado nos Açores em 1965, 1997 e 1998 é mostrado no quadro 1 e a quantidade industrializada por ilhas, nestes últimos dois anos, no quadro 2. A qualidade e quantidade da carne exportada também é notável (Pires, 1917). Em 1997, o número de cabeças de bovinos abatidos na região foi de 29370 (7048 t); foram exportadas 44959 cabeças e 8727 t de carne.
Actualmente registam-se novas mudanças. A lavoura açoriana está a adaptar-se à evolução do mercado português, já sob a orientação da Comunidade Europeia. José Leal Armas (Fev.1999)
Bibl. Arquivo dos Açores (1980), Relatório agrícola (1798) de Francisco José Teixeira S. Payo. Ponta Delgada, XIII. Ibid. (1980), Correspondência do provedor da Fazenda nos Açores, Manuel de Mattos Pinto Carvalho, 1766, Liv. IV. Ponta Delgada, XIII. Armas, J. L. (1952), Forragem deficiente na Ilha Terceira. Sep. do Boletim da Comissão Reguladora de Cereais, Ponta Delgada: 1-8. Id. (1957), Visita de Estudo á Dinamarca. Sep. de Atlântida, Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura: 1-37. Id. (1959), Visita de Estudos aos Estados Unidos da América do Norte. Sep. de Atlântida: 55. Id. (1963), A Propósito do Fomento Pecuário In Livro da II Semana de Estudos dos Açores. Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura/ Fundação Calouste Gulbenkian. Id. (1968), Algumas considerações sobre a Pecuária dos Açores. Atlântida, XII, 1-2: 87-113. Id. (1982), Produção de Carne nos Açores. Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, XL: 101-121. Id. (1986), Contribuição para a História da Produção de Leite e de Lacticínios nos Açores. Ibid., XLIV: 273-292. Id. (1988), Reflexões sobre a Administração Pública nos Açores. Ibid., XLV: 483-538. Bruges, J. O. (1915), A Ilha Terceira. Angra do Heroísmo, Instituto Superior de Agronomia. Bruges, J. O., Fragoso, J. A. e Ferreira, J. T. (1932), A Agricultura no Distrito da Horta. Boletim do Ministério da Agricultura, (2), XIII, 1-4: 71. Cherney, J. H. e D. J. R. (1996), Grass for Dairy Cattle. UK, Cambridge University Press: 403. Cuenca, C. L. (1945), Zootecnia. Madrid, Imprenta Y Editorial Viuda de Juan Pueyo, Luna: 1132. Dechambre, P. (1913), Traité de Zootechnie, tomo III: Les Bovins. Paris, Charles Amat. Direcção Geral dos Serviços Veterinários (1981), Bovinos de Portugal. Lisboa, DGSV: 327. Direcção Regional de Desenvolvimento Agrário (1998), Estatística. Angra do Heroísmo, DRDA. Direcção Regional de Estudos e Planeamento (1988), Estatísticas. Angra do Heroísmo, DREPA. Esminger, M. E. e Perry, R.C. (1997), Beef Cattle Science. Danvill, Illinois, Interstate Publishers, Inc.: 1104. Frutuoso, G. (1979), Livro Quarto das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Instituto de Alimentação e Mercados Agrícolas (1996), Relatórios.
Quadro 1 Leite de Vaca Industrializado nos Açores (litros); Fonte: SREA
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1965 |
140 000 000 (estimativa) |
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1997 |
397 331 667 |
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1998 |
422 037 236 |
Quadro 2 Leite de Vaca Industrializado (por ilhas) (litros); Fonte: SREA
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1997 |
1998 |
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S. Miguel |
246 326 547 |
257 042 184 |
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Terceira |
100 822 289 |
102 832 685 |
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Graciosa |
3 510 877 |
4 158 683 |
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S. Jorge |
25 719 445 |
26 972 976 |
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Pico |
6 548 817 |
7 518 865 |
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Faial |
13 775 696 |
12 610 102 |
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Flores |
707 952 |
901 741 |
