bote baleeiro
(ingl. boat) Também designado por canoa baleeira. Embarcação especializada para a pesca da baleia, genericamente caracterizada por possuir duas proas, capaz de manobrar nos dois sentidos sem virar de bordo, alongada, de boca aberta, muito leve, armando, conforme as circunstâncias, vela, remos e pás (pagaias).
A tripulação era constituída por um oficial e seis remadores, sendo o remador da frente simultaneamente o trancador ou arpoador da baleia.
As primeiras canoas baleeiras e respectivas palamentas (todo o equipamento móvel necessário à faina da baleia), foram importadas da Nova Inglaterra. As técnicas de caça foram aprendidas a bordo dos navios baleeiros americanos. Muitos dos nomes utilizados na baleação açoriana são corruptela do inglês: espeide (spade), lagaiete (loggerhead), clit (cleat), blequesquine (blackskin), traiol (try-works)...
A dificuldade de importação de canoas baleeiras, levou os calafates da ilha do Pico à construção local destas embarcações. Partindo dos modelos americanos, introduziram sucessivos aperfeiçoamentos até os botes baleeiros açorianos atingirem características próprias.
Cerca de 1894, Francisco José Machado, apelidado de O Experiente, construiu a primeira canoa baleeira açoriana nas Lajes do Pico. Outros construtores se lhe seguiram, um pouco por todo o arquipélago. Alguns, com segredos próprios passados unicamente de pais para filhos, constituíram autênticas dinastias.
As necessidades de velocidade, de eficácia e de adaptação às condicionantes de mar, foram os principais motores das melhorias introduzidas. O maior comprimento permitia mais um banco e mais um remador, 7 em vez de 6 como nos botes americanos (desejável quando havia que rebocar o cetáceo morto, por vezes com mais de 50 toneladas e a muitas milhas do porto). A maior dimensão permitia ainda maior superfície de vela (cerca de 50-55 m2), fundamental para maior velocidade e maior segurança em longos percursos, por vezes superiores a 40 milhas. Os primeiros botes tinham cerca de 9,5 m de comprimento, chegando alguns dos últimos construídos a atingir 12,50 m. De boca possuem entre 1,75 a 2 metros e de pontal entre 0,50 a 0,70 m.
Foram introduzidas novas melhorias com o aparecimento das lanchas a motor, rápidas, a partir de 1925-1930, que rebocavam as canoas até junto das baleias e depois as traziam de regresso, bem assim os animais capturados. A proa toma maior inclinação, a embarcação é reforçada e é abandonado o centabordo, tábua de bolina, pois já não eram necessários grandes percursos de vela.
Na construção dos botes era usada madeira de acácia (amarela e roseira) especialmente no cavername, rodas de proa e popa, e pinho e casquinha no restante da embarcação. Os pregos, de secção quadrangular, e anilhas eram de cobre. Nos Açores os botes eram pintados em vez de envernizados. As tintas eram fabricadas com alvaiade, cré, óleo de linhaça, óleo de gata e corantes, tudo moído e misturado manualmente.
O processo de construção era muito cuidado e com características diferentes de todas as outras embarcações locais. As últimas peças a colocar eram as cavernas ou balizas. Todo o processo parte de um pequeno modelo à escala (1:20 ou 1:25), o petipé. A partir deste eram efectuados os riscos e medições para a canoa a construir.
A palamenta, exemplificando com bote Santa Teresinha LP 2 B, exposto no Museu dos Baleeiros, Lajes do Pico, é composta por:
1 mastro (7,80 m), bumbo-retranca ( 8,25m) e gafe-pic (3,85m);
1 vela grande ( com três linhas de rizes);
2 ou 3 gibras (grande, média e pequena );
1 pau da gibra (3,57m);
6 remos, sucessivamente da proa para a ré, do arpoador ou da proa (5,33m), dantavante (5,48m), dantarré (5,50m), do meio (5,61m), da celha (5,48m), da boga (5,48m). Na ilha Terceira existe um bote para 8 tripulantes, um oficial e sete remadores. Trata-se de um caso raro;
6 pás (1,34m) auxiliavam na aproximação silenciosa à vela;
1 leme e cana do leme (2,47m);
1 remo de esparrela (6,26 m). Remo de manobra, particularmente utilizado nas manobras de trancar e lançar. Com apenas este remo é possível mover a embarcação para a frente e para os lados.
5 arpões (2,85m-2,70m)
2 lanças ( 3, 27- 3,58m)
2 celhas de linha (+- 600 metros)
1 espeide (2,66m)
1 croque (1,93m)
1 drogue
1 machadinha
1 faca
1 maço
3 bandeiras (1,32 m) - vermelha, branca e azul. A vermelha simbolizava perigo e pedido de socorro, a branca, designada bandeira de sociedade atribui metade do animal a qualquer bote que venha ajudar, a azul dá sociedade apenas a um bote da mesma armação baleeira.
1 bomblanço
2 barça
1 pinguinho
1 caque
1 caixa de comida-roupa
1 bússola
1 lanterna de arrefiar
Actualmente existem cerca de 60 botes baleeiros, a maioria em péssimo estado de conservação.
Predominam botes com os nomes de santos S. João, S. Pedro, Santo Cristo, Senhora do Livramento Senhora do Socorro... Era norma sob o leito da proa serem afixadas reproduções de santos padroeiros. Os nomes femininos são também muito frequentes Ester, Diana, Manuela Neves, Claudina, Maria Regina ... Outros nomes, menos correntes, são, por exemplo, Pátria, Águia, Cisne, Boa Vista, Valquíria, Espadarte, Pico Negro, Liberdade...
Terminada a caça à baleia, os botes baleeiros têm sido utilizados em competições desportivas. São regatas que despertam grande entusiasmo e fazem reviver o velho e forte espírito competitivo dos baleeiros. Este hábito de regatas com canoas baleeiras já existia no período de baleação. Sendo certo que dentro de uns poucos de anos não haverá um único baleeiro vivo, importa reflectir sobre o destino a dar a estas embarcações, a longo prazo, já que não parecem adequadas a qualquer outra faina.
Embora sendo uma embarcação para uma pesca industrial, rude e rústica, os botes baleeiros possuem uma elegância e delicadeza de acabamentos mais adequada a embarcações de competição e recreio. Raul Brandão, nas Ilhas Desconhecidas, compara-o a um móvel, «um barco destes é quase um móvel, ao mesmo tempo delicado e resistente (...) esguio como um peixe e leve como uma casca, para escorregar sobre as águas» (Brandão, 1926: 109). Diversos especialistas e estudiosos, quer nacionais, quer internacionais, consideram os botes baleeiros a embarcação mais perfeita do mundo. Francisco G. A. Medeiros (Mar.2000)
Bibl. Ansel, W. D. (1978, 1983), The Waleboat, a study of Design, Construction and Use From 1850 to 1970. Baskerville (EUA), Mistic Seaport Museum, Inc. Brandão, R. (1926), Ilhas Desconhecidas. Lisboa, Perspectivas e Realidades. Figueiredo, J. M. (1996), Introdução ao Estudo da Indústria Baleeira Insular. Faial, Museu dos Baleeiros.
