bordado
Foi sempre um trabalho feminino ligado ao quotidiano intimista da casa. Aí a mulher açoriana enfeitava as camisas dos homens, os seus próprios casacos e todo o bragal da família com corações, cravinhos, trevos, silvas ou outros delicados motivos florais.
Ligado ao ritual do namoro, era também a mulher da Terceira, a esposada, que bordava o maroto, lenço de linho cheio de recortes e desenhos arrebicados que o rapaz usava nos dias festivos, sob a gola da jaqueta, caindo em bico pelas costas. Os motivos destes lenços de amor, bordados a matiz, são variados e coloridos, ao gosto da bordadeira, embora predominem ou uma temática floral ou os elementos ligados a uma simbólica amorosa, como os corações trespassados, as pombas com uma carta no bico, as mãos entrelaçadas, o Cupido ou as palavras que traduzem sentimentos como amor, amizade, lembrança ou saudade. O recorte à volta é semeado quase sempre de estrelinhas ou de ilhós abertos.
A iniciação ao bordado fazia-se em criança com a aprendizagem dos pontos de pé de flor, malmequer, cetim, cadeia, grilhão ou sombra, sob a vigilância das mulheres da casa, ao longo dos vagares do dia. O bordado a branco alindou muitos enxovais das famílias endinheiradas mas serviu também como fonte de receita complementar às camponesas que bordavam por encomenda. Foi grande a variedade de pontos usados, principalmente a partir do século XIX, sendo de assinalar o ponto de cruz, o labirinto, o ponto de assis, o filó, o crivo e o matiz.
O crivo, que teve grande expansão em todo o arquipélago, está hoje limitado ao Faial. Através do porto da Horta, foi divulgado pelos estrangeiros que aí aportavam na escala das carreiras para a América do Norte e América Central.
O bordado a ouro e prata sobre veludo ou damasco estava ligado às alfaias litúrgicas e às festas do Espírito Santo.
É, no entanto, o bordado a matiz, de influência erudita, que teve maior divulgação, sendo conhecido por «bordado de S. Miguel». Nos anos 30, um grupo de pessoas da sociedade micaelense, constituído por Maria Amélia Rebelo Arruda, Lily Bensaúde e Maria Luísa Faria e Maia, procurou minorar uma grave crise de trabalho que afectava as raparigas e mulheres da ilha, lançando um tipo de bordado a matiz, monocromático, utilizando o azul-faiança em dois tons, inspirado nos motivos ornamentais da louça da China. Maria A. R. Arruda e Luís Bernardo dAtaíde fizeram a pesquisa e desenho dos bordados, divulgando o trabalho através da Casa Ilha Verde, em Ponta Delgada, dirigida mais tarde por Margarida Arruda Moura Machado, filha de Maria A. R. Arruda.
Em Lisboa, a primeira divulgação deste bordado foi feita em 1932, durante uma exposição realizada no Salão da Ilustração Portuguesa, à Rua do Século. Mais tarde, a Ilha Verde abriu também uma loja em Lisboa, que ainda hoje existe na Rua Paiva de Andrada, ao Chiado.
Margarida A. M. Machado, seguindo um caminho de criatividade artística, criou os seus próprios desenhos e pontos. Fez exposições individuais, dando ao bordado de S. Miguel ampla divulgação em ambientes eruditos da sociedade europeia. Elizabeth Cabral (Mai.1999)
Bibl. Costa, F. C. (1991), Etnologia dos Açores. Lagoa, Câmara Municipal. Lima, R. A. e Lima, E. M. (1996), Artesanato Tradicional Português. Açores. Lisboa, Associação Industrial Portuguesa. Lima, F. C. P. (ed.) (1996), A Arte Popular em Portugal, Ilhas Adjacentes e Ultramar. Lisboa, Ed. Verbo. Lopes, F. (1980), Ilha Terceira. Notas Etnográficas. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira. Magalhães, M. M. S. C. (1995), Bordados e Rendas de Portugal. Lisboa, Vega. O Açoriano Oriental (1994), Maria Amélia Mendonça Machado Rebelo Arruda - Criadora do Bordado Regional «matiz» e poetisa. Ponta Delgada, 11 de Dezembro.
