boragináceas

Família das Dicotiledóneas, baseada no nome genérico Borago, constituída, segundo Franco (1984), por ervas, menos vezes subarbustos ou arbustos, frequentemente híspidos ou setígeros. Folhas alternas, extipuladas, simples. Flores geralmente em cimeiras escorpióides, geralmente actinomórficas. Cálice 5-dentado, -lobado ou –partido. Corola 5-lobada, caduca, tubiforme, campanulada, assalveada ou rodada, geralmente com tubos e limbo distintos; tubo frequentemente com 5 escamas, pregas ou tufos ou linhas de pêlos por dentro, por vezes com um anel na base. Estames 5, inseridos sobre o tubo da corola e alternipétalos. Ovário súpero, 2- ou 4-locular; estilete geralmente simples, inserido entre os 4 lobos do ovário (ginobásico), raramente terminal. Clusa.

Segundo Franco (1984) e Palhinha (1966), desta família ocorrem nos Açores as espécies Borago officinalis, onde é conhecida pelo nome de *borragem; Cynoglossum creticum, conhecida por *cinoglossa, e ainda:

Myosotis ramosissima subsp. ramosissima que é conhecida pelo nome de não-me-esqueças (Palhinha, 1966). Segundo Franco (1984), é um terófito, até 40 cm, geralmente ramoso na base, com pêlos mais ou menos patentes na parte folhosa do caule, distinta ainda que geralmente curta, e antrorso-aplicados na inflorescência; folhas basilares até 4 x 1 cm, obovado-espatuladas a oblanceoladas, gradualmente atenuadas em pecíolo, mais ou menos caducas, as restantes sésseis, oblongas ou elípticas, obtusas, todas com pêlos frouxamente antrorso-aplicados, por vezes mais ou menos patentes; inflorescência por vezes bracteada inferiormente, excedendo de muito a parte folhosa do caule; pedicelos frutíferos patentes, os proximais por vezes um pouco mais compridos que os cálices; cálice frutífero até 4 mmm, campanulado, fendido, caduco, com numerosos pêlos gancheados, frequentemente deflexos na base; limbo da corola até 3 (-4) mm de diâmetro, rodado-assalveado, azul-vivo (raramente branco); mericarpos com cerca de 1,2 mm, castanhos a castanho-escuros, ovóide-agudos e apicalmente amarginados. Ocorre em S. Miguel (Palhinha, 1966) e na Terceira, em sítios secos ou temporariamente encharcados (Franco, 1984).

M. azorica que, como M. ramosissima, também é conhecida pelo nome de não-me-esqueças (Palhinha, 1966). Segundo Franco (1984), é um helófito até 50 cm, de caule radicante na base, ascendente e simples ou mais raramente prostrado e com vários ramos suberectos densamente folhosos, com pêlos retrorsos excepto na parte folhosa distal, nesta subpatentes e antrorsos; folhas até 8 x 2 cm, as basilares cedo destruídas, as caulinares oblongo-espatuladas sendo as proximais frequentemente retusas e atenuadas em pecíolo, as distais obtusamente mucronadas e sésseis, todas frouxa a densamente aplicado-vilosas em ambas as páginas com pêlos mais ou menos antrorsos na página superior e geralmente retrorsos na inferior; inflorescência em geral bracteada inferiormente, muito densa e capitada em nova, alongando pouco na frutificação; pedicelos frutíferos reflexos, maiores que os cálices; cálice frutífero até 4 mm, de segmentos oblongos 2 vezes o tubo, com indumento denso de pêlos rectos, antrorso-aplicados sobre os segmentos e retrorso-aplicados sobre o tubo; corola rodado-assalveada, de limbo com 3-6 mm de diâmetro, sempre azul-intenso; mericarpos com 1,6-1,8 mm, castanho-anegrados, ovóide-obtusos, marginados.

Endemismo açórico (Palhinha, 1966), ocorre nas Flores e no Corvo (Franco, 1984; Palhinha, 1966), para onde foi registado por Watson (1844), em sítios muito encharcados com abundância de Sphagnum spp., entre 250 e 400 m de altitude (Franco, 1984).

M. maritima que, como as anteriores, também é conhecida pelo nome de não-me-esqueças (Palhinha, 1966). Segundo Franco (1984), é um proto-hemicriptófito até 50 cm, muito ramificado com ramos abertos, de caules densamente revestido de sedas mais ou menos aplicadas, retrorsas na parte proximal e antrorsas na distal, sub-hirsuto; folhas basilares até 3 x 1 cm, arrosetadas, persistentes, espatuladas e curtamente pecioladas, as caulinares até 6 x 1 cm, oblongas, retusas e sésseis, todas revestidas por sedas curtas e brancas, antrorso-aplicadas na página superior e retrorso-aplicadas na inferior; inflorescência geralmente não bracteada, mais ou menos curta e subcorimbiforme; pedicelos frutíferos excedendo os cálices; cálice frutífero até 4 mm, partido em segmentos estreitamente lineares, 2 x o tubo, de indumento duplo com pêlos rectos, deflexos sobre o tubo e inflexos sobre os segmentos; corola rodado-assalveada, de limbo até 5 mm de diâmetro, branco, rosado ou amarelo no botão, tornando-se azul-claro na ântese; mericarpos com cerca de 1,5 mm, castanho-anegrados, ovóide-obtusos e marginados.

Endemismo açórico (Palhinha, 1966), ocorre nas ilhas do Corvo, do Faial, do Pico, de S. Jorge e da Terceira, em rochedos junto ao mar, muito secos, subindo até 150 m quando em escarpas cortadas a pique (Franco, 1984; Palhinha, 1966), para onde foi registada por Seubert e Hochstetter (1843).

M. arvensis (subsp. arvensis), segundo Franco (1984), é um hemicriptófito subarrosetado ou terófito, com 15-60 cm, erecto, frequentemente ramoso, com pêlos patentes na parte folhosa do caule mas distalmente com pêlos antrorso-aplicados; folhas basilares até 8 x 1,5 cm, oblanceoladas a obovadas, gradualmente atenuadas em pecíolo, em geral persistentes, as caulinares oblongas, acutiúsculas e sésseis, todas com pêlos frouxamente antrorso-aplicados em ambas as páginas; inflorescência não bracteada, em geral menor que a parte folhosa do caule; pedicelos frutíferos erecto-patentes, os proximais até 10 (-15) mm; cálice frutífero não excedendo 5 mm, campanulado, fendido, caduco, com pêlos gancheados até 0,5 mm; limbo da corola com 3-5 mm de diâmetro, rosado-assalveado, azul-vivo; mericarpos até 2 mm, negro-esverdeados a negros, ovóide-oblongos, agudos e marginados. Referida para S. Miguel, ocorre em sítios secos, matos perenifólios e taludes.

M. discolor (subsps. discolor e dubia), segundo Franco (1984), é um terófito, mais raramente proto-hemicriptófito, com 15-45 cm, geralmente um tanto robusta, na subsp. discolor, com 5-30 cm, delgada, na subsp. dubia, frequentemente ramificado na base, com ramos erecto-patentes, e com pêlos mais ou menos patentes ou misturados com outros antrorso-aplicados na parte folhosa, e só antrorso-aplicados na inflorescência; folhas basilares até 4 x 0,8 cm e pelo menos um par de folhas caulinares opostas na subsp. discolor e folhas basilares até 1,5 x 0,4 cm e folhas caulinares nunca opostas na subsp. dubia; oblanceolado-oblongas, obtusas, atenuadas em pecíolo curto e em geral mais ou menos persistentes, as caulinares oblongas e sésseis, as distais, pelo menos, agudas, todas aplicado-vilosas; inflorescência não bracteada, geralmente não ou pouco maior que a parte folhosa do caule; pedicelos frutíferos menores que os cálices, erecto-patentes; cálice frutífero até 4,5 mm, na subsp. discolor, e até 3,5 mm, na subsp. dubia, campanulado-tubuloso, fendido, raramente caduco, com pêlos curtos aplicados e outros maiores gancheados, patentes mas deflexos sobre o tubo; corola até 4 mm, ebúrnea ou amarela de princípio, na subsp. discolor, e até 2 mm, ebúrnea em nova, na subsp. dubia, de tubo por fim saliente do cálice e do limbo até 2 mm de diâmetro, assalveado; mericarpos com 1,2-1,5 mm, castanho-escuros, ovóides e marginados. A subsp. discolor ocorre nas ilhas dos grupos central e oriental e a subsp. dubia está referida para a ilha Graciosa. Ocorrem em sítios frescos, por vezes em prados temporariamente encharcados.

M. stolonifera (subsp. hirsuta), segundo Franco (1984), é um helófito de 6-20 (-30) cm, longamente radicante, de caules e estolhos, folhosos nas axilas das folhas da metade proximal da planta, com pêlos mais ou menos patentes, tornando-se antrorso-aplicados para o cimo da parte folhosa; folhas, esverdeadas na página inferior, delgadas, até 3,5 x 1 cm, as proximais elíptico-espatuladas e atenuadas na base, as restantes elíptico-oblongas, sésseis, todas obtusas e com pêlos curtos artrorso-aplicados, um tanto ralos; inflorescência bracteada inferiormente, de menor a maior que a parte folhosa do caule; pedicelos frutíferos com 3,5-7 (-9) mm, mais ou menos, patentes, os inferiores até 13 mm; cálice frutífero com 2-3 (-4) mm, subtubuloso, partido (½ a ?), tardiamente caduco, com as nervuras pouco evidentes e com pêlos antrorso-aplicados, curtos e ralos; corola rodado-assalveada, de limbo com 3-4 mm de diâmetro, azul-pálido; mericarpos com 1-1,4 mm, negros, ovóides, estreitamente marginados. Ocorre em S. Jorge, na Terceira e em S. Miguel, em sítios húmidos e sombrios, com água corrente.

Heliotropium europaeum, conhecida pelo nome de verrugueira (Corsépius, 1997), é um terófito de 4-40 cm, erecto ou ascendente, geralmente ramoso, com indumento mais ou menos aplicado; folhas até 5,5 (-6,5) x 2.8 (-3,5) cm, ovadas a elípticas, aplicado-pubescentes; pecíolo até 3,5 cm; flores inodoras; sépalas com 1,8-3,5 mm; oblongo-lineares ou estreitamente triangulares, irregularmente patente-pubescentes, geralmente cedo patentes após a ântese; corola com 2-4,2 mm, de limbo branco; estigma linear-assovelado, geralmente glabro; clusa dividindo-se em mericarpos, glabros ou pubescentes, geralmente rugosos (Franco, 1984). Vulgar nas ilhas do grupo central do arquipélago, sempre perto do mar (Franco, 1984; Palhinha, 1966).

Vulnerária, é usada, pela medicina tradicional, no tratamento de contusões e de pequenas feridas da pele. Para uso interno: 30 g da planta / l de água em decocção durante 3 minutos. Para uso externo (lavagens): o dobro da quantidade da planta (Corsépius, 1997).

H. curassavicum é um proto-hemicriptófito de 20-80 cm, prostrado, glabro e um tanto glauco e carnudo; folhas com 15-40 x 3-8 mm, linear-lanceoladas a oblanceadas, com as nervuras laterais escassamente visíveis; sépalas com 1-2 mm, ovadas; corola com 1-2,5 mm, de limbo com cerca de 2 mm de diâmetro; estigma curtamente cónico; clusa dividindo-se em 4 mericarpos, glabros (Franco, 1984). Ocorre subespontâneo em S. Miguel, em sítios arenosos salgados próximos do mar (Franco, 1984; Palhinha, 1966).

Echium plantagineum é um terófito ou hemicriptófito subarrosetado com 20-60 cm, uni- a multicaule, erecto ou ascendente, molemente hirsuto; folhas basilares com 20-140 x 8-25 mm, lanceoladas, obtusas, com proeminentes nervuras secundárias e sedas macias aplicadas; folhas caulinares oblongas a lanceoladas, as distais mais ou menos cordiformes na base; inflorescência em geral abertamente paniculada; cálice com 7-10 mm na ântese mas atingindo 15 mm no fruto; corola com 18-30 mm, afunilada, azul tornando-se rosada através de tons purpúreos, só pilosa nas nervuras e margens, geralmente com 2 estames exsertos. Ocorre em todas as ilhas, excepto na do Corvo, em terras cultivadas, margens de caminhos e areias, em qualquer dos casos desde muito húmidos a secos (Franco, 1984). A maioria da população está abaixo dos 300 m. É uma adventícia à volta das povoações, campos e ao longo das estradas. Está igualmente implantada na vegetação costeira endémica. A sua presença parece esporádica numa localidade, pois em certos anos, está praticamente ausente enquanto noutros domina grandes superfícies dando à vegetação um colorido azul-escuro (Sjögren, 1984; 2001). Luís M. Arruda (2002)

Bibl. Corsépius, Y. (1997), Algumas plantas medicinais dos Açores. 2ª ed., S.l., S.e. Franco, J. A. (1984), Nova Flora de Portugal (Continente e Açores), vol. II: Clethraceae-Compositae. Lisboa, Astória: 101-129. Palhinha, R. T. (1966), Catálogo das Plantas Vasculares dos Açores. Lisboa, Sociedade de Estudos Açorianos Afonso Chaves. Seubert, M. e Hochstetter, C. (1843), Uebersicht der Flora der azorischen Inseln. Archiv für Naturgeschichte, 9, 1: 1-24. Sjögren, E. (1984), Açores, Flores. Horta, Direcção Regional de Turismo. Id. (2001), Plantas e flores dos Açores. S.l., ed. do autor. Watson, H. C. (1844), Notes on the botany of the Azores. Hooker’s London Journal of Botany, 3: 582-617.