Boid, Edward

Autor britânico da obra A Description on the Azores, or Western Islands. Oficial da marinha, chegou aos Açores a 22 de Fevereiro de 1832 com a esquadra comandada pelo almirante George Rose Sartorius, de quem era secretário particular, integrando a expedição que tinha como objectivo apoiar D. Pedro no restabelecimento da Monarquia Constitucional. Terá sido por serviços prestados à causa liberal que recebeu a Ordem da Torre e Espada, um dos raros dados biográficos conhecidos a seu respeito.

A sua obra é um relato das viagens que realizou durante os quatro meses que permaneceu no arquipélago. Foi publicada em Londres em 1834, logo seguida de novas edições em 1835 e 1838, o que não é de surpreender, dada a qualidade do relato e o interesse dos seus compatriotas por livros de viagens e quiçá especialmente sobre os Açores, tão cobiçados na época pelo Império Britânico.

A primeira parte do livro – “Remarks on the Archipelago of Islands in the Atlantic, called Azores” – é, como se deduz, uma visão global e de carácter introdutório em termos históricos, desde o descobrimento, e referências gerais sobre aspectos como comércio e organização administrativa e social, utilizando estatísticas. As apreciações são quase sempre  negativas, estabelecendo paralelos com a realidade britânica.

A segunda parte é constituída pelo relato da viagem propriamente dito, ou seja, os aspectos descritivos, analíticos e críticos sugeridos pelo conhecimento que lhe foi dado adquirir nas ilhas que visitou (todas, excepto Flores e Corvo).

O relato denota um homem culto, de sentido estético apurado, o que é natural num autor a que se devem também estudos de arquitectura e de pintura. Foi profundamente sensível às belezas paisagísticas dos Açores, que impressionaram o seu espírito romântico e, por outro lado, revela uma capacidade de observação muito crítica, mas bastante objectiva se tivermos em conta a sua origem, quer no aspecto social quer político e económico, onde não faltam acusações às autoridades civis, militares e eclesiásticas, a quem atribui a responsabilidade pela ignorância e subdesenvolvimento da população.

Boid revelou-se também bom conhecedor dos aspectos científicos que abordou, nomeadamente nos campos da geologia, da botânica e da geografia, tendo sido os fenómenos de vulcanismo, frequentes nas ilhas, os que mais lhe interessaram.

Muito de acordo com a sua formação profissional, preocupou-se com problemas de navegação nas águas açorianas, estudando correntes marítimas e contornos do litoral, tendo em vista ancoradouros e portos que urgia fazer. Além de um mapa dos Açores, apresenta duas plantas com projectos para futuras instalações portuárias. A obra contém ainda quatro gravuras de autoria do almirante Sartorius que ilustram alguns dos locais que Boid descreve de forma admirável, profunda e comovente. O livro termina com um apêndice que não tem a ver com os Açores, mas que contém elementos com muito interesse para o estudo das relações luso-britânicas durante as lutas liberais.

Alguns autores têm censurado Boid e a sua visão da vida açoriana, formulando juízos bastante negativos a seu respeito. Os pareceres mais equilibrados são os de João Emanuel Cabral Leite (Leite, 1981: 18) e João Paulo Pereira da Silva (Silva, 1988: 220) que acentuam, com justeza, dever-se-lhe a primeira descrição global do arquipélago nos aspectos humano, cultural e geográfico. Maria dos Remédios Castelo-Branco (Jul.1999)

Obras (1829), A concise history and analysis of all principal styles of Architecture. Londres, T. Cadell [2ª ed. 1835, Londres, G. B. Whittaker]. (1843), The History of Spanish School of Painting. Londres, Moyes and Barclay. (1835), A Description of the Azores, or Western Islands. From personal observation. Comprising remarks on their peculiarities, topographical, geological, statistical, etc., and on their hitherto neglected condition. Londres, Edward Churton. [Trad. portuguesa de J. H. Anglin, publicada fragmentada: sobre Santa Maria e S. Miguel, Insulana, V: 57-80, 252-270; VI: 168-180, 286-298; VII: 44-82, 310-356. Sobre S. Jorge, Graciosa e Terceira: Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, 7: 256-282. O restante, com excepção do apêndice: O Distrito da Horta que compreende Faial, Pico, Corvo e Flores. Angra do Heroísmo, 1952]. (1955), British Museum, General catalogue of printed books. vol. 22, coluna 913.

 

Bibl. Branco, M. B. (1879), Portugal e os estrangeiros. Lisboa, Liv. A. M. Pereira. Côrtes-Rodrigues, A. (1959), Prólogo In  Bullar, J. e Bullar, H., Um Inverno nos Açores e um Verão no Vale das Furnas. Instituto Cultural de Ponta Delgada: vii-xxviii. Freitas, B. J. S. (1845), Uma viagem ao valle das Furnas na ilha de S. Miguel em Junho de 1840. Lisboa, Imp. Nacional. Leite, J. E. C. (1991), Estrangeiros nos Açores no século XIX. Ponta Delgada, Eurosismo. Silva, J. P. A. P. (1988), Os Açores em 1822. A perspectiva do comandante Edward Boid, oficial inglês e romântico. Arquipélago, nº especial: 211-232.