bodo de leite

O bodo de leite, que consistia tradicionalmente na reunião do gado bovino, na sua benção pelo pároco da freguesia, acompanhado pelo andor de Santo Antão, seguida da ordenha e da distribuição de leite, deverá entroncar-se em tradições portuguesas ancestrais, mas prender-­se-á também com um conjunto de circunstancias sociais e económicas.

Gaspar Frutuoso fala de um costume semelhante, ao referir-se aos escravos que cuidavam do gado bovino na ilha do Corvo, que faziam a festa do Espírito Santo e a quem, em certos dias próximo daquela festa, era costume dar-se-lhe todo o leite; testemunhando deste modo a sua antiguidade. Os registos etnográficos revelam porém que esta festa não ocorria de forma generalizada no arquipélago. O etnógrafo terceirense Frederico Lopes considera-a mesmo como festividade moderna (Lopes, 1980: 242). Tanto quanto foi possível pesquisar, os bodos de leite faziam-se principalmente nas ilhas de S. Jorge e da Terceira, e só nas últimas três décadas se começaram a realizar nalgumas localidades de outras ilhas.

O bodo de leite designa deste modo um ritual de benção do gado, de dádiva de alimentos e de refeição comunitária, que integra habitualmente o programa da festa do padroeiro ou de Verão. Ocupa geralmente a manhã de uma segunda ou terça-feira, sucedendo a um dia dedicado a celebrações religiosas. Tem lugar no centro da freguesia, na generalidade das freguesias da ilha Terceira e no Topo na ilha de S. Jorge, ou, mais raramente, num espaço aberto e afastado do povoado, no Terreiro da Macela, em S. Jorge, e na Almagreira, na ilha do Pico. As restantes variantes correspondem a aspectos estéticos e organizativos, que em certa medida resultam da adaptação a novos tempos, gostos e necessidades sociais. Nesta medida, a integração de carros alegóricos constitui o aspecto mais notável da sua evolução, dado que este vem ocupar o lugar central do ritual da benção do gado e é a ele que se deve a projecção da festividade para fora dos limites da freguesia, tornando-a local de romaria para toda a ilha. O exemplo mais significativo é o do bodo de leite das Lajes, na ilha Terceira. Contudo, nalgumas o bodo de leite vai caindo em desuso. Helena Ormonde (Fev.1999)

Bibl. Gil, M. O. (1982), Pastagens e criação de gado na economia açoriana nos séculos XVI e XVII. Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, XL: 503-549. Lopes, F. (1980), Ilha Terceira. Notas Etnográficas. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira: 235-242. Ribeiro, L. S. (1982), Obras. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, I: 117-134, 289-301.