bivalves

Classe de moluscos comprimidos lateralmente que possuem uma concha formada por duas valvas, articuladas dorsalmente, a qual envolve completamente o corpo. Cabeça fracamente desenvolvida. A cavidade do manto é a mais espaçosa de todas as classes de moluscos, e as brânquias são muito grandes, tendo assumido na maior parte das espécies a função adicional de captar o alimento por filtração.

A maioria das espécies existentes nos Açores são marinhas. A única espécie dulçaquícola, Pisidium casertanum, é possivelmente o único molusco de água doce autóctone nos Açores (Martins, 1991). De acordo com este autor, a espécie encontra-se predominantemente em tanques, mas também foi encontrada em charcos e depressões encharcadas da pastagem. É conhecida em São Miguel, Terceira, Faial e Pico.

Embora não exista uma lista actualizada dos bivalves marinhos dos Açores, a bibliografia (Drouët, 1858, 1861; Dautzenberg, 1889; Nobre, 1924) refere a ocorrência, nas águas costeiras do arquipélago, de cerca de duas dezenas de espécies, das quais as mais conhecidas serão Pinna rudis (de grandes dimensões e interior nacarado), Ervilia castanea (muito abundante em fundos de areia e cujas pequenas valvas conferem um tom rosado às praias para onde são arrojadas em certas alturas do ano) e Callista chione (concha de tamanho médio, lisa e luzidia).

O único bivalve com interesse comercial nos Açores, a amêijoa* Venerupis decussata, encontra-se apenas na Lagoa do Santo Cristo, em São Jorge, onde terá sido introduzida artificialmente, a partir de exemplares europeus (Morton e Cunha, 1993). Tentativas de introduzi-la noutros locais, nomeadamente nas lagoas das Lajes do Pico, foram infrutíferas. A sua pesca está regulamentada pela Portaria nº 23/92 que proíbe a sua apanha entre 15 de Maio e 15 de Agosto, o período principal de desova.

Os bivalves constituem uma fração importante da fauna fóssil do Miocénico de Santa Maria. Os estudos mais extensos dessa fauna foram feitos no final do século passado, pelos paleontólogos H. G. Bronn e Karl Mayer (Bronn, 1860; Mayer, 1864). O primeiro destes autores apresenta uma lista de 23 espécies, a qual é aumentada para 85 espécies pelo segundo trabalho, das quais 20 são descritas pela primeira vez. Autores portugueses apresentaram posteriormente pequenas contribuições para o conhecimento dos bivalves fósseis dos Açores: Cotter (1892) e, mais recentemente, Ferreira (1962). Uma reapreciação dos tesouros fósseis de Santa Maria, com ênfase paleoecológico, contribuiria certamente para lançar luz sobre as questões da evolução e biogeografia da fauna marinha dos Açores. José Manuel N. Azevedo (Out.1998)

Bibl. Bronn, H. G. (1860), 3. Die fossilen Reste von Santa Maria, der südlischten der Azorischen Inseln. In G. Hartung (Ed.), Die Azoren in iherer äusseren erscheinung und nach ihrer geognostischen natur. Leipzig, Verlag von Wilhelm Engelmann: 116-129. Cotter, J. C. B. (1892), Notícia de alguns fósseis terciários da ilha de Santa Maria. Comunicações da Comissão de Trabalhos Geológicos de Portugal, 2: 255-287. Dautzenberg, P. (1889). Contribution à la faune malacologique des Îles Açores. Résultats des Campagnes Scientifiques, accomplies sur son yacht par Albert 1er Prince souverain de Monaco, 1: 120. Drouët, H. (1858), Mollusques marins des isles Açores. Mémoires de la Société Académique de l’Aube, 22: 53. Id. (1861), Éléments de la faune Acoréenne. Ibid., 25: 245. Ferreira, O. D. V. (1952), Os Pectinídeos do Miocénico da Ilha de Santa Maria (Açores). Revista da Faculdade de Ciências de Lisboa, 2ª Série, C, 2 (2): 243-258. Martins, A. M. F. (1991), Distribuição dos moluscos de água doce em São Miguel e na Terceira. Açoreana, 7 (2): 257-276. Mayer, K. (1864), Die Tertiär-Fauna der Azoren und Madeiren. Zürich. Morton, B. e Cunha, R. T. (1993), The Fajã de Santo Cristo, São Jorge, revisited and a case for Azorean coastal conservation. Açoreana, 7 (4): 539-553. Nobre, A. (1924), Contribuições para a fauna dos Açores. Anais do Instituto de Zoologia da Universidade do Porto, 1: 41-89.