Bispado de Angra
A diocese de Angra remonta a 1534, quando o Papa Paulo III, através da bula Aequum reputamus, de 3 de Novembro, criou o bispado de São Salvador, atribuindo-lhe, por sé-catedral, a igreja da mesma invocação em Angra e, por território, as ilhas dos Açores, desligando estas da jurisdição do bispado do Funchal de que eram independentes, desde 1514. Descobertas as primeiras ilhas ao tempo do Infante D. Henrique, os primeiros colonos para lá enviados viram-se subordinados à Ordem de Cristo de que era administrador o Infante, à qual o Papa Calisto III, em 1456, pela bula Inter coetera, confiara o padroado de todas as terras de além-mar. Pertencia, então, a sua espiritualidade à dita Ordem e o Navegador nelas veio a estabelecer igrejas, mas não conventos. Cedo, no entanto, aí se instalavam, em locais mais ou menos desertos, gentes que procuravam atingir a perfeição religiosa na solidão -os eremitas: 1- Franciscanos, que se instalaram em Vila do Porto, na ilha de Santa Maria, em 1446 e, em 1456, chegaram à ermida de Nª Sra. da Guia, na Terceira, onde, em 1499, foi a sepultar Paulo da Gama, entre outros os que regressavam da Índia; 2- Clarissas, quando Jorge da Mota, em 1523, lançou as bases do primeiro convento de freiras que houve em São Miguel; 3- Jesuítas, que se estabeleceram em Angra, a 31 de Maio de 1570, onde fundaram um colégio; 4- Eremitas de Santo Agostinho que, em 1584, fundaram um convento em Angra; 5- Carmelitas Calçados, que entraram no arquipélago em 1651, indo estabelecer-se na Horta; 6- Concepcionistas, que se instalaram nas capitanias da Terceira e São Miguel; 7- Cistercienses: há referências à igreja do Desterro, com mosteiro edificado para as monjas da Ordem de S. Bernardo, reconstruída em 1660; 8- Hospitaleiros que, em 1926, formaram uma Delegação-Geral, dependente, directamente, do Superior-Geral; 9- Há ainda uma série de Recolhimentos e Recolectas, Ordens Terceiras e Eremitérios.
Por outra bula, a Pro excellenti, de 1514, Leão X fundou o bispado do Funchal, que reunia a ilha da Madeira e todo o território então dependente da jurisdição do Vigário de Tomar. Foi a partir deste ano que, por desejo dos capitães donatários, se foram estabelecendo nos Açores membros das congregações religiosas, sobretudo franciscanos, que vieram a ditar as bases da organização eclesiástica, além de visitadores, que aí se deslocavam com frequência e com a função de conferirem ordens. Por isso, D. João III expressou o desejo de erecção «do bispado das ilhas terceiras» (cf. carta de António de Azevedo Coutinho ao rei, 20.2.1528, Lisboa, A.N. / T.T., Corpo Cronológico, I-39-50) e, em Maio de 1532, foi D. Martinho de Portugal, bispo do Funchal, encarregado de solicitar ao Sumo Pontífice o estabelecimento de novos bispados, um nas ditas ilhas, propondo para sede a ilha de S. Miguel. Relativamente ao requerido, Clemente VII veio a criar, em 31 de Janeiro de 1533, o bispado de S. Miguel, com sede nesta ilha e na igreja paroquial desta invocação e noutra designada na bula. Mas, como o Papa tivesse morrido nesse ano, o diploma não foi expedido. Talvez, então, a ilha Terceira e Angra tivessem estado na origem da elevação a cidade desta, em Agosto de 1534, pelo que Angra veio a ser escolhida como sede deste novo bispado. Esta diocese ficaria sufragânea da arquidiocese do Funchal até 1550, ano em que, perdendo esta dignidade, ambas transitaram a sufragâneas do arcebispado de Lisboa. Pela acima citada bula de 1534, criou-se o Cabido, com deão, arcediago, chantre, tesoureiro-mor, mestre-escola e doze cónegos, tal como o tribunal eclesiástico. O seu primeiro bispo veio a ser D. Agostinho Ribeiro, natural de Lisboa e membro da Congregação de São João Evangelista (Lóios), de que foi provincial. Fora bispo de S. Salvador de Angra (1534-1540), nomeado por Paulo III, pela bula Gratiae divinae praemium, de 3 de Novembro de 1534, contrariamente à vontade do rei de Portugal que havia indicado, em carta endereçada a D. Martinho de Portugal, o nome de D. Manuel de Noronha para primeiro bispo de Angra, tendo aquele tomado posse a 24 de Junho de 1535, em Angra, cujo primeiro sínodo reuniu na Sé de S. Salvador, a 4 de Maio de 1559, sendo, então, bispo D. Fr. Jorge de Santiago. As Constituições promulgadas foram primeiro impressas em Lisboa, em 1560. A presente diocese exerce a sua jurisdição pelas 9 ilhas do conjunto açórico, com 153 paróquias agrupadas por 21 ouvidorias nas várias ilhas. A eminente acção dos seus religiosos tornou Angra num dos mais importantes bispados do País, com um Seminário, criado na referida cidade, pelo bispo D. fr. Estêvão de Jesus Maria e inaugurado em 9 de Novembro de 1862; com instituições canónicas e de piedade várias, em muitas das paróquias do bispado: confrarias de diversas denominações, predominando as do SS.mo Sacramento e as de Nª. Sra. sob múltiplas invocações. E irmandades, sob cuja orientação funciona um bom número de instituições de assistência, entre as quais as Irmandades do Espírito Santo. João Silva de Sousa (Dez.1998)
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