Biscoitos, vinho dos
Mais conhecido por vinho «verdelho dos Biscoitos», é feito na ilha Terceira, essencialmente, à base da casta verdelho que é o descendente directo do «verdelho antigo».
Desconhece-se ao certo a data da introdução da videira nesta ilha. Presume-se que terá acontecido cerca de 1450 com a chegada do primeiro capitão do donatário Jácome de Bruges e comitiva (Sampaio, 1904). Segundo Carvalho et al. (1983), pensa-se que foram os frades franciscanos que introduziram o plantio da vinha. Além do verdelho, outras castas são referidas por Gaspar Frutuoso (1998), no encepamento local, como o «moscatel», o «mourisco», e a «ássara» (espécie de moscatel?).
É muito provável que a propagação e o desenvolvimento do verdelho nesta ilha tenha começado no lugar do Biscoito Bravo, na freguesia dos Biscoitos, fronteiro às Quatro Ribeiras.
Desde sempre os terrenos impróprios para a cultura dos cereais foram utilizados para a plantação da vinha. São terrenos pedregosos, basálticos, resultantes de erupções vulcânicas mais ou menos recentes. Tais terrenos podem ter diferentes nomes, como biscoitos, lagedos e lagidos. São divididos, por paredes de pedras soltas, em pequenas unidades chamadas curraletas. Assim, as videiras ficam protegidas dos ventos fortes, carregados de sal, que frequentemente sopram nestas ilhas. Esta organização do meio ambiente proporciona um microclima muito especial em torno da videira, concentrando o calor de que ela necessita para o seu processo normal de crescimento e desenvolvimento vegetativo. Todo o quadriculado de curraletas, que parece ter sido desenhado a régua e esquadro, confere à paisagem um aspecto imponente.
Segundo Maduro Dias (1998), o vinho produzido nos Biscoitos é referido pelos cronistas umas vezes como sendo de má qualidade, outras como misturado com água por ser forte: «baptizavam-no» à maneira grega antiga para que o pudessem ingerir em alguma quantidade e sem problemas de consciência.
De um modo geral, a produção de vinho para consumo era deficitária, quer pela considerável dimensão populacional da altura, quer sobretudo pela concorrência movida pelo vinho produzido em outras ilhas. Porém, houve anos em que a produção foi abundante, tal como em 1693, nas freguesias dos Biscoitos, Lages, S. Mateus e Feteira, onde se situava a maior área de vinha. Nesse ano produziram-se 1463 pipas, de 225 canadas cada, de verdelho (Merelim, 1982).
Em 1853, com o aparecimento do burril, Uncinula necator (Schw.), a produção de vinho verdelho na ilha Terceira e nas restantes ilhas começou a decrescer bruscamente, não chegando para o consumo local. Os viticultores nada puderam fazer para impedir o avanço desta doença criptogâmica.
No ano de 1870, uma nova videira de origem americana conhecida pelo nome de «isabella» (Vitis labrusca) foi introduzida na Terceira, vinda de S. Miguel, para onde havia sido trazida pelo marquês de Praia e Monforte, numa colecção de mil exemplares de plantas exóticas que no inverno de 1853-54 adquiriu em Paris. Servia apenas para enfeitar latadas das fazendas ricas. Nos primeiros 10 anos ninguém imaginou que as uvas produzidas com um gosto diferente pudessem ser consumidas e, muito menos ainda, transformadas em vinho. Depois de se adaptarem ao seu sabor e a elas se habituarem, o povo começou a utilizá-las para vinho (Merelim, 1982). Nasceu assim o «vinho de cheiro» que no Continente é conhecido por «vinho americano» ou «vinho morangueiro».
Cerca de 1870, uma nova praga, pelo afídeo Phylloxera vastatrix, atacou as vinhas destruindo-as de forma drástica. A área de verdelho nos Biscoitos foi praticamente eliminada. A partir desta altura a maior parte dos viticultores começou a intensificar a utilização da casta «isabella» e outros híbridos, de grande aceitação como produtor directo por ser mais produtiva, mais resistente às doenças e mais fácil de cultivar.
Nos Biscoitos, as vinhas de Verdelho ficaram praticamente abandonadas durante quase 20 anos. Ao fim deste tempo uma personalidade empreendedora e interessante, Francisco Maria Brum, mais conhecido por «Chico Maria», empenhou-se na reabilitação do Verdelho nos Biscoitos, comprando muitas das vinhas abandonadas. Adquiriu no Porto Martins algumas puas de plantas de verdelho, que não tinham sido atingidas por esta nefasta praga, e iniciou os seus primeiro ensaios na freguesia das Fontinhas. Posteriormente procedeu à sua propagação nos Biscoitos utilizando como porta-enxertos a Vitis rupestris.
Graças ao seu empreendimento, Francisco Maria Brum, em 1890, fundou a primeira «adega regional» do seu tempo. Os resultados dos testes iniciais foram satisfatórios e a produção galopante. Em 1901, a produção traduziu-se em três potes de verdelho, no ano seguinte numa pipa. Em 1903, foram 6 pipas e meia; no ano seguinte, 11 pipas. Em 1907, a produção subiu a 29 pipas de verdelho. No governo da casa sucedeu-lhe o filho Manuel Gonçalves Toledo Brum, falecido em 20 de Março de 1959, transitando a fazenda para o seu único filho, Fernando Linhares Brum. O filho deste, Luís Manuel Mendes Brum é o actual gestor.
Neste momento (1999) apesar da predominância das variedades americanas e seus híbridos, as culturas de verdelho e de outras castas europeias, nomeadamente terrantês, arinto e boal continua e estão a ser muito valorizadas. O vinho verdelho actual consta de 80% da casta verdelho e 20% das referidas castas europeias.
Nos Biscoitos, o vinho de qualidade é o verdelho que pode ser de mesa ou licoroso. Actualmente, a nível regional, o «vinho verdelho dos Biscoitos licoroso» tem um lugar privilegiado, a tal ponto que bastantes recepções oficiais incluem um «Biscoitos de honra». Também tem tido assento nalguns acontecimentos solenes a nível nacional. No dia 12 de Maio de 1995, no Palácio de Queluz, o vinho licoroso da Casa Agrícola Brum constou na lista de vinhos do jantar de gala que antecedeu o casamento dos duques de Bragança.
Em 1994, foi demarcada a zona vitivinícola dos Biscoitos para a produção de vinho licoroso de qualidade produzido em região determinada (VLQPRD). Nessa data, foram também criadas as zonas vitivinícolas da Graciosa e do Pico, para a produção de vinho de qualidade produzido em região determinada (VQPRD) e VLQPRD, respectivamente. As zonas criadas permitem o fomento e a protecção das castas tradicionais mais importantes, de modo a incrementar a genuinidade e a qualidade dos vinhos brancos, do VLQPRD e do VQPRD.
As castas recomendadas para o VLQPRD-Biscoitos são verdelho, arinto e terrantês e, como castas autorizadas, boal, malvasia, sercial, Fernão Pires, generosa e galego-dourado. Na laboração são seguidos os métodos e práticas enológicas tradicionais. Os mostos destinados aos vinhos de designação VLQPRD devem ter um título alcoométrico volúmico em potência mínimo natural de 12% vol. Estes vinhos só podem ser engarrafados após estágio de 3 anos em cascos de madeira e devem apresentar um título alcoométrico volúmico total não inferior a 16% vol. O rendimento máximo por ha é de 50 hl.
A genuinidade e a qualidade do vinho dos Biscoitos, bem como dos vinhos do Pico e da Graciosa, de indicação de proveniência regulamentada (IPR), passou a ser garantida pela Comissão Vitivinícola Regional dos Açores (CVRA), instalada em 1995, que tem também como atribuições o fomento e o controlo dos VLQPRD e dos VQPRD.
Outro acontecimento muito significativo para o vinho dos Biscoitos teve lugar em 1990, aquando do Centenário da Casa Agrícola Brum, com a criação do Museu do Vinho, que tem desempenhado um papel na divulgação da história da vitivinicultura regional.
Em 1993, foi fundada a Confraria do Vinho Verdelho dos Biscoitos, com sede no Museu do Vinho. Esta tem por lema a defesa, promoção, valorização e divulgação do vinho verdelho dos Biscoitos e vinho de qualidade dos Açores. A confraria tem tido um papel preponderante na divulgação dos vinhos açorianos de qualidade a dimensão regional, nacional e internacional, bem como na preservação das vinhas dos Biscoitos inclusivamente como valor ambiental.
No ano de 1997, foi criada nesta mesma freguesia uma delegação da Associação Portuguesa dos Jovens Enófilos, com uma presença importante na divulgação do vinho dos Açores de qualidade.
Em Novembro de 1997, foram certificados IPR o VLQPRD da Casa Agrícola Brum, com a marca Brum e o VLQPRD da Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico, com a marca Lagido. Em Junho desse ano havia também sido certificado o VQPRD Pedras Brancas, da Adega Cooperativa da Graciosa.
Foi criada em 1998 a nova Adega do Serviço de Desenvolvimento Agrário da Ilha Terceira (Biscoitos). Vai dar formação in loco aos vitivinicultores desta região e, ao mesmo tempo, fazer investigação. Está apetrechada com modernos equipamentos indispensáveis à vinicultura.
Outro evento de interesse para o vinho dos Biscoitos é a festa da vindima que se realiza desde 1992, no primeiro fim de semana de Setembro, no Museu do Vinho. Esta festividade é organizada pelo INATEL.
Com a criação das zonas vitivinícolas, muitos dos pequenos produtores particulares dos Biscoitos começaram também a sentir desejo de certificar os seus vinhos. Para isso teriam que criar condições nas suas adegas, o que nem sempre tem sido fácil, dados os elevados custos do material e dos equipamentos. Daí um grupo de vitivinicultores se ter mobilizado no sentido da criação de uma Adega Cooperativa que este ano (1999) irá começar a laborar um vinho branco de mesa, essencialmente à base da casta verdelho (cerca de 80%). Esta adega conta já com 62 associados, dos quais 40 com produção de verdelho. No ano de 1998, o volume total de vinho verdelho laborado por estes 40 produtores foi de 18 288 l, numa área total de 92,75 alqueires. Todavia, cerca de 10 produtores particulares continuarão a laborar os seus vinhos verdelhos de mesa nas respectivas adegas.
Os vinhos das produções particulares dos pequenos produtores, que formam a cooperativa, foram muito recentemente submetidos a uma prova pelo enólogo Dias Cardoso (presidente da Câmara de Provadores da CVRA), cuja apreciação foi a seguinte: «Os vinhos, por regra apresentam-se de cor intensa, revelando um grau maior ou menor de oxidação. Os aromas, apesar da incidência negativa da oxidação, revelam um carácter varietal delicado e fino, que atesta a qualidade elevada das uvas com que foram elaborados. Os aromas de fermentação perderam-se, em grande parte, devido à referida oxidação. Na boca, estes vinhos apresentam um equilíbrio excelente, de par com uma interessante sensação de volume e viscosidade». Este enólogo regozijou-se com a formação da cooperativa, permitindo que todo este potencial qualitativo possa ser explorado e laborado a uma escala mais significativa e adopte processos tecnológicos mais adequados às exigências dos mercados.
Outros vinhos da região dos Biscoitos, que são já laborados com diferentes requisitos técnicos foram apreciados, em 1998, pelo enófilo Oliveira Figueiredo. Um deles foi o vinho de mesa branco, Pedras do Lobo, da colheita de 1997, de um produtor particular, laborado com as castas verdelho branco e roxo. Apresentava um teor alcoólico 12,5% vol. As características organolépticas foram as seguintes: «Cor: ouro esmeralda esmaiada. Aroma: intenso de frutos tropicais com notas de algas e de maresia e leve toque de fumado da madeira. Sabor: seco, cheio, suave, com equilibrada acidez, subtilmente espirituoso e insinuante, muito frutado favorecido pela madeira, de gosto persistente até mais não». Outro vinho foi o Brum, VLQPRD-Biscoitos, da colheita de 1994. Laborado com as castas verdelho e terrantez (vestígios), tinha um teor alcoólico 17% vol. e apresentava as seguintes características organolépticas: «Cor: ouro velho com tonalidade esverdeada. Aroma: elegante de frutos secos (avelã), com notas de especiarias e tabaco. Sabor: seco (bem seco), suave, encorpado, equilibrado em acidez, harmonioso, com gosto persistente do «nariz» e grande secura final».
Neste momento, os vitivinicultores dos Biscoitos têm consciência de que a internacionalização dos produtos cresce e as exigências do consumidor são enormes, pelo que querem apostar no fabrico de vinhos pelos processos artesanais, mas tecnologicamente evoluídos. M. Teresa Ribeiro de Lima (Mar.2000)
Bibl. Carvalho, B. e Correia, L. (1983), Vinhos do nosso País. Lisboa, Ed. Presença. Dias, M. (1998), O vinho dos Biscoitos. Diário Insular, Angra do Heroísmo, 21e 22 de Fevereiro: 12. Frutuoso, G. (1998), Livro Sexto das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural. Merelim, P. (1982), Freguesias da Praia. Angra do Heroísmo, Secretaria de Educação e Cultura. Sampaio, J. A. N. (1904), Memória sobre a Ilha Terceira. Angra do Heroísmo, Imprensa Municipal.
