biodiversidade
A definição etimológica deste conceito refere-se à variedade dos seres vivos, sendo geralmente associado ao número de espécies de um lugar. Se bem que a significação do conceito seja intuitiva e pareça ter sempre estado presente em estudos faunísticos e florísticos, o termo só apareceu em 1986 durante o National Forum on BioDiversity, promovido em Washington, DC, pela National Academy of Sciences e pela Smithsonian Institution (Wilson, 1988). A grafia original, BioDiversity, foi posteriormente ignorada em favor da que actualmente se utiliza (Wilson, 1997). Paradoxalmente, a actualidade do termo está ligada a uma dupla conotação negativa: por um lado, os cientistas aperceberam-se da sua ignorância sobre o mundo vivo, patente na disparidade de opiniões sobre o que se desconhece; por outro, temeram que o que desconheciam se perdia para sempre a um ritmo alucinante. Estudos sistemáticos de insectos em algumas florestas tropicais e extrapolações em outras áreas da sistemática colocaram entre 5 e 30 milhões o número de espécies existentes (Wilson, 1988; Erwin, 1997; Stork, 1997), havendo mesmo quem arriscasse os 100 milhões (Dorozynski, 1989); destas, apenas 1,4 milhões estão descritas. Por via da destruição acelerada das florestas tropicais bem como devido ao aumento da poluição, essa riqueza ainda desconhecida desaparece a um ritmo entre 1.000 a 10.000 vezes superior ao que acontecia no passado (Wilson, 1988; Dorozynski, 1993a, b); por essa razão fala-se na 6ª grande extinção nos últimos 600 milhões de anos da história da vida, desta feita causada pela espécie humana.
A abordagem populacional ao estudo das espécies, iniciada a meados do século XX, forneceu o substrato para um entendimento holístico da biodiversidade, que se define mais apropriadamente em três níveis: genético, específico e ecológico. A biodiversidade abrange não só as espécies mas também a variabilidade genética das populações; não só o local onde vivem mas também o ecossistema em que se inserem; não apenas a sua morfologia enquanto preservadas em museu, mas ainda o seu papel na cadeia biológica que integram (Wilson, 1992). Ainda, para uma compreensão mais completa da biodiversidade, importa enquadrá-la no seu correlacionamento biogeográfico e confrontá-la com as suas origens.
Pela sua localização, a pouco mais de 1.400 km das massas continentais europeia (Portugal) e Americana (Terra Nova), pelo seu enquadramento biogeográfico, no limite sul da zona temperada e limite norte da zona subtropical, pela distribuição das ilhas em 3 grupos, ao longo de um eixo ESE/WNW de cerca de 600 km, e pelas idades díspares das 9 ilhas, alguns ilhéus e bancos submarinos, de mais de 8 milhões de anos até ao presente, o arquipélago dos Açores apresenta um conjunto rico de condições para a expressão de uma biodiversidade original.
A equidistância dos Açores das massas continentais envolventes não se traduz numa origem equilibrada da composição do seu biota; paradigmaticamente, a direcção dos ventos e correntes marinhas de hoje, originárias de oeste, não justifica o cunho esmagadoramente Europeu da vida que aqui se estabeleceu. As perambulações da frente polar durante as glaciações no último milhão de anos alteraram drasticamente os padrões de circulação aérea e marinha e têm sido evocadas como explicação de colonização (Ruddiman e McIntyre, 1976; Coope, 1986); fica por explicar, porém, a ausência de influência americana marcante durante as situações a ela favoráveis, como presentemente acontece. Hipótese semelhante de colonização transoceânica far-nos-ia recuar a antes do fecho do istmo do Panamá, há uns três milhões de anos (Cronin e Dowsett, 1996); a idade dos Açores legitimaria tal mecanismo, e nem seria despropositado admitir-se a hipótese concomitante de um arque-arquipélago actualmente afundado, como foi proposto para explicar as drosófilas das Ilhas Hawai (Beverley e Wilson, 1985). Os ilhéus das Formigas, que se estendem para sueste ao longo do Baixo do Dollabarat, e a existência de uma ilha afundada ao largo das Flores (Ryall et al., 1983) dão certo fundamento a esta possibilidade.
A fauna marinha dos Açores é pobre em comparação com a de outros arquipélagos, facto atribuído mais à origem recente e relativo isolamento das ilhas do que a extinção causada pelas perturbações climatéricas associadas às glaciações (Hoek, 1987). Consequentemente, a escassez de endemismos traduziria essa juventude; porém, e não obstante a complexidade dos padrões de circulação marinha à volta dos Açores, não se pode pôr de lado a possibilidade de fluxo genético por via de colonização ocasional por dispersão de longo alcance (Prudhomme van Reine, 1988; Morton et al., 1998).
Tittley e Neto (1995) enumeram 274 espécies de algas marinhas para os Açores; se bem que outros autores hajam admitido até 10 endemismos açóricos entre as algas (Schmidt, 1931; Prudhomme van Reine, 1988), Tittley e Neto comentam que tais alegados endemismos necessitam investigação mais profunda que justifique o seu estatuto.
Santos et al. (1997) assinalam para os Açores 460 espécies de peixes; no entanto, as espécies costeiras pouco passam da centena, das quais cerca de 80% são comuns com o Mediterrâneo; apenas se registam duas espécies endêmicas: Scorpaena azorica Eschmeyer, 1969, de estatuto taxonómico dúbio, e o recém-descrito Centrolabrus caeruleus (Azevedo, 1999).
Se bem que os moluscos marinhos dos Açores necessitem de uma revisão taxonómica, listagens recentes registam cerca de duas centenas de espécies de águas pouco profundas (Ávila et al., 1998, para as ilhas de Pico, Faial, Flores e Corvo). Knudsen (1995), mediante o estudo das cápsulas ovígeras e de protoconchas, comentou as afinidades anfi-atlânticas da malacofauna açórica, admitindo mesmo que alguns taxa com larvas teleplânicas (Cassididae, Cymatiidae, Bursidae e Tonidae) pudessem manter populações locais mediante recrutamento regular. Só o registo de posturas destes grupos mostrará a autosuficiência reprodutora dessas populações locais; no entanto, mostra-se deste modo a possibilidade de intercâmbio larvar anfi-atlântico. Alguns taxa têm merecido maior atenção, pela sua diversidade, nomeadamente os Rissoidae, dos quais 8 espécies são consideradas endémicas (Gofas, 1990). É nesta família que se encontram endemismos inter-insulares, como Alvania formicarum Gofas, 1989 para as Formigas, e Onoba moreleti Dautzenberg, 1889 e Rissoa quisquiliarum Watson, 1884 para o Grupo Central. O desenvolvimento directo destas espécies, que acentua o seu isolamento, explicaria esta diferenciação local (Gofas, 1990; Knudsen, 1995).
A situação do biota terrestre reflecte em traços gerais as características da identidade da vida marinha, nomeadamente no respeitante à origem predominantemente Europeia, à pobreza relativa de espécies e, embora em grau menor, à escassez de endemismos. Ainda, à semelhança do que acontece com a generalidade do biota Açoriano, estudos recentes têm vindo a mostrar que a referida pobreza relativa pode estar de algum modo relacionada com o desconhecimento. Em 1984 Sjögren dava para os Açores 850 espécies de plantas vasculares, das quais metade são musgos e apenas 56 são espécies endémicas; em 1990, num estudo das briófitas da Graciosa, aquele autor fez subir de 17 para 107 o número de espécies da brioflora daquela pequena e ecologicamente depauperada ilha. O número de espécies de plantas pode, por exemplo, subir acima de mil, destas sendo apenas um terço espécies autóctones (Hansen, 1988, vide Borges, 1997); proporção semelhante mantém-se para os coleópteros que, nos Açores, totalizam 524 espécies, das quais 61 são endémicas (Borges, 1992).
Os moluscos terrestres são o grupo que maior proporção de endemismos contém (Morelet, 1860; Backhuys, 1985; Martins, 1993). Das 107 espécies de pulmonados e prosobrânquios terrestres, cerca de metade são europeias, 3 Macaronésicas e outras tantas Neárcticas, e as restantes 44% são espécies endémicas, pertencendo a maior porção destas à pequena ilha de Santa Maria. Certos taxa exibem radiações importantes, em alguns casos constituídas inteiramente por espécies endémicas. Tal acontece com o género endémico Macaronapaeus, do qual se conhecem 7 espécies. Igual padrão se regista nos Vitrinidae, que comportam o género endémico, e até agora monotípico, Plutonia, bem como outro género em processo de descrição; todas as espécies destas lesmas e semi-lesmas são endémicas. O taxon que maior número de endemismos comporta é o dos zonitídeos, dos quais 13 das 21 espécies descritas são endémicas; estudos em progresso prevêem a duplicação desse número de endemismos apenas no género Oxychilus. Finalmente, 9 das 16 espécies de Hygromiidae são endémicas, com interessantes radiações ainda por estudar.
Só recentemente começaram a aparecer publicações sobre aspectos genéticos da biodiversidade açoriana, em grande parte como necessidade de aprofundamento de projectos de investigação relacionados com o controlo biológico (Brito, 1992), ou até em investigação dirigida directamente a problemas de sistemática e evolução (Backeljau et al., 1995; Van Riel et al., 1998). A procura de mais valias moleculares nos recursos vivos regionais será o móbil mais provável de um aprofundamento da investigação neste terreno, instigando deste modo o apreço pela preservação da diversidade da vida.
A abordagem ecológica da biodiversidade Açoriana tem conhecido recentemente um entusiasmo crescente e vem marcando a escolha de projectos para provas académicas (Azevedo, 1991; Neto, 1991, 1997; Dias, 1996; Borges, 1997). Em substituição da zonação altitudinal clássica, Dias (1991, 1996) propõe para os Açores 8 tipos de comunidades vegetais terrestres: (a) floresta autóctone, relíquia Macaronésica ainda expressão importante na Serra de Santa Bárbara (Terceira), Prainha (Pico), Caldeira (Faial), Pico da Vara (S. Miguel) e em pontos variados do interior das Flores; (b) vegetação seral, onde as invasoras pressionam as endémicas num processo de sucessão natural; (c) vegetação costeira, que cobre falésias e zonas influenciadas pelo mar; (d) vegetação de zonas húmidas, comum no interior das ilhas à volta de lagos e pântanos; (e) bosques, seja monocultura de criptoméria, eucalipto, pinheiro, seja de espécies variadas; (f) pastagem, que actualmente ocupa quase metade da área dos Açores (ver Martins, 1993); (g) agricultura permanente, sobretudo pomares; (h) agricultura variada, que contempla as restantes associações vegetais mantidas por intervenção constante do homem.
O estudo dos ecossistemas marinhos, sobretudo os costeiros, tem registado apreciável actividade (ver a compilação bibliográfica de Santos et al., 1995) e, à semelhança dos ecossistemas terrestres, tem demonstrado a necessidade da adopção de padrões peculiares. Neto (1991, 1997), caracterizou as comunidades algais do litoral e os padrões de zonação por que se exprimem na orla costeira. Morton et al. (1998), porém, abordaram a zona costeira de maneira global, identificando e caracterizando os vários ecossistemas peculiares das costas destas ilhas atlânticas: (a) leitos de rocha vulcânica, desde os tufos palagoníticos de Santa Maria à costa basáltica comum em todos os Açores; (b) poças da costa inferior e a orla subtidal, aquelas geralmente enquadradas em plataformas costeiras, e esta onde sobressai o musgo algal descrito por Neto (1991); (c) praias de penedos e calhaus, características de locais de elevado hidrodinamismo; (d) paredes de muralhas e portos, estruturas artificiais de pedra onde os padrões de zonação se manifestam de modo didáctico mais acessível; (e) praias e o fundo subtidal baixo, aquelas geralmente móveis e quase desertas, onde é arrojada a vida que pulula no oceano aberto, este rico e variado, em contacto quase imediato com as profundezas oceânicas; (f) lagoas e pântanos, raras e preciosas zonas húmidas em ilhas oceânicas, com ênfase nas fajãs de São Jorge.
As profundidades marinhas contêm ainda ecossistemas de elevado valor em matéria de biodiversidade, como sejam os bancos submarinos, ilhas de outrora ou ilhas do futuro (Martins, 1998) e as fontes hidrotermais de profundidade, recentemente alvo de insistente investigação científica internacional. No entanto, quer em terra quer na zona costeira a actividade vulcânica cria ecossistemas extremos onde uma vida primitiva e até agora pouco conhecida floresce (Veríssimo et al., 1991; Aguiar, 1999). António M. de Frias Martins (Jul.1999)
Bibl. Aguiar, P. C. B. (1999), Ecologia microbiana de fontes hidrotermais em São Miguel. Estágio de Licenciatura em Biologia, Universidade dos Açores, Ponta Delgada, 55 pp. Ávila, S. P., Azevedo, J. M. N., Gonçalves, J. M., Fontes, J. e Cardigos, F. (1998), Checklist of the shallow-water marine molluscs of the Azores: 1- Pico,
