bicho-da-seda

A criação do «bicho-da-seda» ou «sirgo», Bombyx mori (Linnaeus) (Lepidoptera, Bombycidae), e a plantação de amoreiras mereceram sempre a atenção dos governantes dos Açores (Costa, 1946). Em Santa Maria, já no século XVI, havia amoreiras (segundo Gaspar Frutuoso, n. 1522- m. 1591). Em Dezembro de 1602, o Corregedor Leonardo da Cunha, ao proceder, em Vila Franca do Campo, à sua segunda correição, mandou aos oficiais da Câmara que fizessem plantar amoreiras (Dias, 1927). No ano de 1680, o Corregedor de Angra empenhou-se para que se desse execução a anteriores disposições que determinavam o plantio de amoreiras (já obrigatório em 1571) e a criação do bicho-da-seda (Sampaio, 1904). Na ilha de S. Jorge, em 1719 e 1720, um tronco de amoreira valia 3$000 e 2$500 reis, respectivamente (Avelar, 1902). No século passado (cf. O Agricultor Micaelense) e ainda na centúria presente têm surgido movimentos “pró-amoreiras” (Costa, 1946), inclusivamente nas duas últimas décadas.

O bicho-da-seda alimenta-se de plantas da família Moraceae, especialmente Morus alba e Morus nigra (Vieira, 1997), devendo a plantação da primeira merecer a preferência dos açorianos (Hintze, 1938). Ver amoreiras.

B. mori não está presente no habitat natural dos Açores (Vieira, 1997). Tem sido introduzido esporádica e principalmente nas ilhas de S. Miguel e Terceira, vindo de Portugal continental e muito raramente de outros locais, e.g. França (JGPD, 1938); trata-se mais de uma curiosidade do que de uma industrialização (Drouët, 1861). Com efeito, os esforços governamentais e da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense e os ensaios de alguns açorianos (e.g. José do Canto, Jaime Hintze) para fazerem da sericultura uma fonte de rendimento local e regional não passaram de tentativas infrutíferas, devendo-se isto provavelmente ao facto de ser uma indústria essencialmente caseira (Hintze, 1938). Virgílio Vieira (Jun.1999)

Bibl. Avelar, J. C. S. (1902), Ilha de S. Jorge (Açores). Apontamentos para a sua história. Horta, Typ. Minerva Insulana. Costa, F. C. (1946), Os Açores e o problema da sericultura. Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, 3: 83-86. Dias, M. (1927), A Vila. Vila do Franca do Campo, VI: 81. Drouët, H. (1861), Eléments de la faune Açoréenne. Paris, J. B. Baillière & Fils, Librairie de l'Académie de Médecine. Frutuoso, G. (1978-83). Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural, 6 livros. Hintze, J. (1995). O problema da sericultura nos Açores In Livro do Primeiro Congresso Açoriano. 2ª ed., Ponta Delgada, Jornal de Cultura: 379-384. Junta Geral de Ponta Delgada (1938), Da acta da sessão ordinária de 2 de Maio de 1938 da Comissão Administrativa da Junta Geral Autónoma do Distrito de Ponta Delgada. Boletim da Junta Geral, 51: 1. Sampaio, A. S. (1904), Memória sobre a Ilha Terceira. Angra do Heroísmo, Imprensa Municipal. Vieira, V. (1997), Lepidoptera of the Azores Islands. Boletim do Museu Municipal do Funchal, 49, 273: 5-76.