bibliotecas

No actual estado dos conhecimentos não é possível fazer a história das bibliotecas açorianas, pelo menos das mais antigas, mas pode-se traçar uma panorâmica da evolução desse gosto de reunir livros com fins didácticos, de prestígio e de utilização corrente.

As primeiras bibliotecas açorianas dignas desse nome foram as dos conventos, dos franciscanos e dos gracianos, os primeiros estabelecidos em todas as ilhas e em todas as vilas, os segundos estabelecidos unicamente nas cidades e na vila da Praia, na ilha Terceira. Sobre o seu conteúdo e dimensão sabe-se muito pouco, mas certamente que teriam uma função de apoio ao ensino e à reflexão teológica e católica. Conhecimento mais aprofundado e mais diversificado há, porém, das bibliotecas do colégio dos jesuítas, por ter ficado o rol dos livros confiscado aquando da extinção da Companhia, no século XVIII. Contudo, sobre estas bibliotecas conventuais, que foram tão importantes para o ensino e a cultura açoriana, por três séculos, pelo menos, não tem havido investigação e reflexão suficiente.

Acerca das bibliotecas privadas e individuais sabemos ainda menos e se ficaram uma ou outra notícia dos cronistas sobre personalidades que se distinguiram pelo gosto de reunir livros, é necessário esperar pela segunda metade do século XVIII para se ter uma ideia mais precisa do que era uma biblioteca dessas. Em 1768, era criado um tribunal de Estado, a Real Mesa Censória, que pretendia controlar as ideologias e o pensamento dos portugueses e na sua apertada censura obrigava a que cada possuidor de livros os declarasse perante esse mesmo tribunal. A colecção dessas declarações é evidentemente uma fonte extraordinária para o conhecimento das bibliotecas, ainda que sofrendo das limitações que a censura sempre teve. Para os Açores tem sido pouco ou nada explorado este arquivo, mas foi um estudo de Isaías da Rosa Pereira (Pereira, 1992) que se debruçou sobre três bibliotecas angrenses do século XVIII, duas de sacerdotes e uma de um médico militar. Vale o estudo pelo seu ineditismo e como proposta para futuras investigações.

É, contudo, com o século XIX e com as grandes transformações políticas que trouxe, como o fim da censura formal e a divulgação dos livros e a sua actuação como elemento essencial de cultura, que as bibliotecas se multiplicaram, permitindo um melhor conhecimento das mesmas nos Açores onde, aliás, a introdução da imprensa contribuiu muito para a sua divulgação. O movimento de formação e utilização de bibliotecas é mesmo uma das características culturais do século XIX, muito preocupado com a formação dos cidadãos e das classes menos favorecidas, movimento que acompanhou  a alfabetização, principalmente das populações urbanas. O próprio Estado tratou de utilizar os livros confiscados às suprimidas ordens religiosas como fundos das primeiras bibliotecas públicas. As câmaras municipais, também elas, trataram, aí por meados do século, de formarem, pelo menos as mais esclarecidas, bibliotecas municipais, das quais a de Ponta Delgada e a de Angra são as principais, mas não as únicas e cuja história hoje se integra nas bibliotecas públicas das respectivas cidades. Não se conhece com igual profundidade a história e a evolução de todas as bibliotecas municipais açorianas, algumas delas vivas, mas sabe-se que tiveram origens várias, onde a doação de livros particulares de personalidades locais foi decisiva. É o caso, a título de exemplo, da do município da Praia da Vitória, na ilha Terceira, cuja origem foi a biblioteca de José Silvestre Ribeiro, o governador civil que reconstruiu a vila depois do terramoto de 1841 e se tornou uma figura mítica.

Por outro lado, a criação dos liceus, pela política cultural de Passos Manuel, nos anos 40, foi também tempo para a fundação de bibliotecas modernas e especializadas nessas instituições de ensino que perduraram, mas tiveram inícios e percursos diversos. A biblioteca do liceu de Angra, ainda hoje digna de nota e a do liceu de Ponta Delgada, também extraordinária, onde se recolheram colecções privadas, como a de Aristides Moreira da Mota, são exemplares. A do terceiro liceu insular, o da Horta, não conseguiu sair da mediocridade. Junto a estes estabelecimentos culturais, mas de formação mais tardia (1862), o seminário diocesano reuniu também uma biblioteca digna de registo, pelo número e qualidade dos livros, que ainda existe.

Pelo esforço de investigação feito por João Afonso é em relação a Angra do Heroísmo que temos mais conhecimento da formação e fins a que se destinavam as bibliotecas que iam aparecendo um pouco por toda a parte. Bibliotecas institucionais, como as dos liceus e seminários, bibliotecas de empréstimo e aluguer particular de livros, importantes como divulgação do gosto pela leitura, bibliotecas de clubes e sociedades, para uso dos seus associados, bibliotecas privadas e particulares, formadas com base nas necessidades e gosto dos seus possuidores e até bibliotecas de instituições públicas, como a do regimento estabelecido no castelo de S. João Baptista. O mesmo deve ter acontecido nas outras cidades ou vilas principais, mas falta alguém que se disponha a estudar este fenómeno, até porque uma coisa é saber da existência de bibliotecas e dos seus propósitos e outra é ter consciência dos seus fundos e da sua real utilização.

Para o século XX, o fenómeno mais significativo ligado às bibliotecas e responsável pela divulgação do gosto pela leitura é a introdução das bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian no arquipélago, no ano de 1963, e da nomeação de um responsável pela instalação e funcionamento dessas mesmas bibliotecas, com apoio das câmaras municipais, Manuel Coelho Baptista de Lima. As bibliotecas da Gulbenkian, algumas delas itinerantes, foram durante muitos anos a única rede de leitura pública eficaz existente nas ilhas, a elas se devendo um serviço inestimável. Também aqui falta um estudo sobre os conteúdos e as estatísticas, que urge fazer.

O estabelecimento do governo autónomo, em 1976, permitiu a montagem de escolas públicas em todas as ilhas e vilas, com pelo menos nove anos de escolaridade, e junto dessas escolas bibliotecas de apoio, que formaram uma outra rede de leitura mais diversificada, que se juntou às bibliotecas municipais e da Gulbenkian. Presentemente trabalha-se para a montagem de uma rede pública de leitura, que integre as bibliotecas existentes em toda a Região, utilizando as novas tecnologias. Paralelamente, fará parte do programa uma outra rede de bibliotecas escolares, com fins essencialmente pedagógicos.

Resumindo, pode-se esquematizar que na actualidade existe uma rede de bibliotecas públicas estatais, uma outra de bibliotecas municipais, e uma das bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian, em sintonia com esta e, finalmente, uma rede de bibliotecas escolares. Isto para além, evidentemente, das muitas bibliotecas privadas, de instituições ou individuais, que têm acompanhado o gosto e a necessidade de utilização dos livros como instrumentos insubstituíveis de formação e informação. J. G. Reis Leite (2002)

Bibl. Afonso, J. (1951), A Biblioteca Municipal de Angra do Heroísmo. Apontamentos históricos dos seus 75 anos. Boletim do Arquivo Distrital de Angra do Heroísmo, I, 3: 248-280. Pereira, I. R. (1992), A Real Mesa Censória e algumas bibliotecas da cidade de Angra em 1770. Ibid., L: 169-187.

Bibliotecas existentes nos Açores

 

Ilha

Localidade

biblioteca pública

biblioteca municipal

biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian

Obs. da biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian

S. Miguel

Ribeira Grande

 

X

X

Com instalações próprias, itinerante e bibliotecário

 

Nordeste

 

 

X

 

 

Povoação

 

X

X

 

 

Lagoa

 

X

X

 

 

Vila Franca

 

X

X

Com bibliotecário

 

Ponta Delgada

X

X

X

 

Santa Maria

Vila do Porto

 

X

X

 

Terceira

Altares

 

 

X

Com instalações próprias e funcionário

 

Feteira

 

 

X

Com instalações próprias e funcionário

 

Praia da Vitória

 

X

X

 

 

Angra do Heroísmo

X

X

 

 

Faial

Horta

X

 

X

 

Pico

Madalena

 

X

X

Itinerante e com funcionário

 

Lajes

 

X

X

 

 

S. Roque

 

X

 

 

S. Jorge

Velas

 

X

X