Biblioteca Pública e Arquivo de Angra do Heroísmo

As bibliotecas públicas, como hoje as entendemos, são um fenómeno característico do liberalismo e, consequentemente, em Portugal existem a partir dos anos 30 do século XIX. Os Açores e Angra, que é o caso que agora nos interessa, não fugiram à regra, mas pode-se afirmar que, em certa medida, as bibliotecas conventuais, na época anterior, eram bibliotecas públicas. Em Angra existiram várias, mas a única que se conhece razoavelmente foi aquela que pertenceu aos jesuítas e da qual chegou até nós um rol dos livros apreendidos quando da expulsão da Companhia na 2ª metade do século XVIII.

A primeira biblioteca pública de Angra foi, contudo, a que na sequência da portaria de 1835 e dos decretos de 17.11.1836 e 10.4.1860 reuniu na sala da livraria do convento de S. Francisco os salvados das velhas bibliotecas conventuais do distrito. Pode-se calcular que não era muito o que restava depois de passados mais de 30 anos de delapidação. Porém, em Outubro de 1860, as autoridades inauguravam a biblioteca de cerca de 3000 volumes, com apoio financeiro da Câmara Municipal para o quadro de pessoal. Esta biblioteca foi a origem das bibliotecas do liceu e do seminário da cidade, mas também a primeira biblioteca pública angrense. Hoje, muitos desses livros conventuais estão recolhidos na actual biblioteca de Angra.

Em 1871, o município angrense recebia, por morte de Francisco Jerónimo da Silva, em legado, uma importante livraria que pertencera àquele ilustre advogado terceirense residente na capital, e com base nela fundava a biblioteca municipal, formada por preciosidades biblíacas e outros livros, num total de 3730 volumes. devido a dificuldades várias, só em 1873 se instalou e começou a organizar a biblioteca municipal, sendo nomeado no anos seguinte, como bibliotecário, João Francisco de Oliveira Bastos, para no 1º de Dezembro de 1876 ser finalmente inaugurada. Instalou-se numa sala do 1º andar do edifício sede do município, organizou-se e passou a servir o público interessado. A Câmara Municipal comprou, com parcimónia, novos livros e nos anos 90 a biblioteca tinha cerca de 4000 volumes. Em 1902, a biblioteca recebia um novo legado, este de Francisco Moniz de Bettencourt (Mendo Bem), composto por mais de 3000 volumes, em grande parte obras de interesse açoriano. Não só aumentava substancialmente os seus fundos, como abria uma nova especialização muito significativa para a cultura local. Esta oferta vinha, porém, agudizar o problema das instalações e da necessária remodelação. A Câmara tomou várias medidas, mas os frutos não foram imediatos, ainda que durante a 1ª República se tenham dado passos organizativos assinaláveis, nomeadamente com uma nova política de aquisições e serviço nocturno de leitura. Contudo, só com a extinção da administração do concelho, pela ditadura militar, se criaram condições para a transferência para novas instalações da biblioteca, que passou para o rés-do-chão do edifício, para a vasta zona que aquela repartição ocupava, isto no ano de 1926. Em 1932, ao comemorar-se o 5º centenário da descoberta dos Açores, a biblioteca participou com uma exposição bibliográfica de espécies açorianas e os seus fundos foram avaliados em 9000 volumes. O final dos anos 30 e a década de 40 foram tempos de remodelação, equipamento e acrescentamento significativo da biblioteca, principalmente pela acção e política cultural do presidente da Câmara Municipal, Joaquim Corte-Real e Amaral. No final do decénio, o número total de volumes já rondava os 20000, sem contar com os jornais que já então formavam um fundo importante, principalmente com a doação, ainda no século XIX, do general João Carlos Rodrigues da Costa.

Nos anos 50 abriu-se um novo período na vida da Biblioteca Pública de Angra. A Junta Geral do Distrito Autónomo iniciara uma política cultural significativa, criando novos serviços e investindo em instalações. Foi dentro desta política que foi criada em 1956 uma Biblioteca Pública Distrital, instalada no novo edifício do Palácio Bettencourt, restaurado e acrescentado para sede do Museu, do Arquivo Distrital e da novel Biblioteca, todos criados pelo governo a pedido e a expensas da Junta Geral, que era assim a autonomia consentida àquela instituição. A Câmara Municipal deliberou integrar na nova entidade os fundos da biblioteca municipal, a título de depósito, sendo os funcionários transferidos para o novo quadro. Havia, porém, um director comum às três instituições (museu, arquivo e biblioteca), na pessoa de Manuel Coelho Baptista de Lima, a cujo entusiasmo se deve, incontestavelmente, grande parte do mérito da criação, instalação e organização destes novos serviços. A biblioteca, além do depósito dos cerca de 20000 volumes vindos da Câmara Municipal, compunha-se também das obras entretanto adquiridas pelo Arquivo Distrital, não em grande número, mas muitas delas raridades do maior interesse bibliográfico. Contava já nesta época com cerca de 30000 volumes. A hemeroteca era muito valorizada com jornais oferecidos pela família de 2º conde da Praia da Vitória. A organização sofreu grandes alterações, com um novo catálogo (organizado pelo bibliotecário João Dias Afonso e ainda hoje muito útil), serviços de leitura diurna e nocturna e de encadernação e montagem de novas estantes. Contudo, o quadro de pessoal era exíguo (1 director, 1 terceiro bibliotecário, 1 aspirante, 1 contínuo de 2ª classe e 1 servente) e só com o recurso a assalariados se pôde progredir na nova organização. Foi também criado um depósito legal obrigatório de obras impressas no distrito, o que foi sem dúvida uma medida do maior alcance cultural. É digna de registo a doação, feita já nos anos 60, de uma rica livraria de 2000 volumes, por Pedro da Silveira.

Com a criação do novo regime autonómico, em 1976, a Biblioteca Pública de Angra do Heroísmo conheceu um novo impulso, quer na sua organização, quer ainda na sua valorização de fundos e equipamentos, Deixou de ser uma biblioteca distrital para se tornar numa das mais importantes instituições culturais da região. Em 1979 era-lhe atribuído um depósito legal de obras nacionais e os seus fundos têm sido significativamente aumentados por compra ou doação de importantes conjuntos bibliográficos, como as livrarias de Vitorino Nemésio, José Agostinho, Francisco Lourenço Valadão, Dutra Faria, etc.

Em 1981 autonomizou-se a Biblioteca e Arquivo, do Museu, e esta passou a ter serviços não só de leitura diurna e nocturna mas também de empréstimo domiciliário, leitura especial para crianças, salas de estudo, exposições, fotocópias, consulta de bases justis, etc. Possui uma secção de reservados, 5 incunábulos, 90 espécies do século XVI, muitas raridades dos séculos seguintes, uma vastíssima colecção de obras açorianas e hemeroteca, encontrando-se presentemente com 200000 volumes e numa encruzilhada de crescimento, pois o espaço, que entretanto aumentou significativamente com a aquisição de dois prédios contíguos, está completamente esgotado, esperando-se a concretização da já anunciada separação da Biblioteca Pública e do Arquivo e da instalação daquela em edifício próprio. J. G. Reis Leite (Jul.2000)

Bibl. Afonso, J. (1951), A Biblioteca Municipal de Angra do Heroísmo. Boletim do Arquivo Distrital de Angra do Heroísmo, I, 3: 248-280. Costa, F. J. (1867), Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Açores. Seus títulos, edifícios e estabelecimentos públicos. Angra do Heroísmo, Tip. do Governo Civil: 13-15. Lima (1957),  A Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Angra do Heroísmo. Angra do Heroísmo. Id. (1954-56), Relatório sobre os trabalhos efectuados na Biblioteca Pública e Arquivo de Angra do Heroísmo durante o ano de 1956. Boletim do Arquivo Distrital de Angra do Heroísmo, II, 6-8: 203-224.